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Mostrando postagens de 2006

Sou brega sim!

E daí se eu adoro casamentos? Não é preciso ser diferente o tempo todo... Chamem-me de brega, de antigo e até mesmo de contraditório, mas isso foi uma manifestação que eu achei absolutamente válida. Pois é, ainda que alguns achem que seja ultrapassado, mas eu chorei sim e achei a cerimônia uma coisa linda, cheia de vida e com muito brilho... o noivo que me entra com a 9ª de Beethoven e de fraque cinza... a noiva que antes de sua anunciação foi aguardada sob o som de "My Way" pela orquestra da igreja que estava toda enfeitada de branco e margaridas... não, não me condenem, eu me emocionei e percebi que sentia falta de estar nisso.   O amor deve ser celebrado. É incrível quanto amamos e perdemos tempo em esconder isso... são as pressões da vida, da moral e de uma ética (?) que nos fazem acreditar. É incrível como sempre nos tolhemos de viver com intensidade essa vontade de expressar, ainda que com infantilidade, esse desejo pelo outro. Amei ver todos os convidados com lág...

Você é feliz - Parte II

Continuei a pensar sobre felicidade e ontem isso me fez lembrar de um escrito que tive o prazer de ler há tempos sobre Nietzsche. O autor colocou na boca do filósofo o seguinte questionamento: “mas o que o motiva a fazer isso? Qual a verdadeira razão de tentar com tanta veemência a solução desse problema? Não me diga que por ser parte de sua profissão, senão teria que acreditar que o faz por bondade e não acho a bondade um bom motivador... não acho que o ser humano faça qualquer coisa gratuitamente, apenas para provocar no outro uma sensação de bem estar ou alívio...” Isso me fez refletir um pouco e passei a imaginar que não é de toda falsa a colocação... . Não acho que há esmola dada sem segundo interesse, assim como não há relação humana que não permeie o egoísmo. Mas daí me questionei: onde está o egoísmo? Pois é... confundimos o amor platônico com o amor a um ideal inatingível, confundimos nossas paixões carnais com um amor sublime e a posse do outro – e conseqüentemente sua imagem...

Assim Seja!

Claire,   Antes de dormir me vi com o pensamento em você, em tudo o quanto falávamos e tudo o quando passamos em relação ao "estar sozinho". Temos muito em comum dessa distância do mundo em que vivemos. Parece que muitas vezes não conseguimos fazer parte desse cotidiano, desse comum constante que observamos sem nos deixar contaminar.   Quando eu mesmo me observo de longe, percebo que há muito por resolver à minha própria estima. Às vezes é como se eu não soubesse me amar, como se não estivesse ali, como se passasse desapercebido por onde quer que fosse... mas é apenas impressão! Por mais que achemos, não conseguimos passar desapercebidos e por onde quer que passemos deixamos nosso rastro: um pouquinho de nós a quem encontramos pelo caminho. Por mais que duvidemos, temos um ar especial que nos aproxima somente de seres também especiais e, por serem raros, sentimo-nos sozinhos a maior parte do tempo.   Não podemos pertencer ao comum, ...

Você é Feliz - Parte I

Perguntaram-me se sou feliz e de repente não sei como responder... sou feliz? E se sou feliz, porque às vezes não estou feliz? E se não sou feliz, como às vezes estou feliz? Você realmente me pegou Kiko, me fez pensar no assunto de forma tão crua que me sinto demasiadamente humano. Para me ajudar a responder a questão, recorro ao exemplo de um casal de amigos que se amam: Esther e Paulo. Ambos são evangélicos e ainda não se casaram. Sentem-se completos quando estão juntos, não precisam de palavras e apenas o toque suave de seus dedos faz com que sintam a força do amor. Eles saem juntos e juntos ainda conversam sobre o futuro, sobre o que acreditam e sobre tudo o que têm conquistado. Ela trabalha em uma loja de confecções e ele na construção civil: são pessoas simples, com gostos simples e não fazem sexo porque não sentem necessidade... Sentem-se felizes com outros prazeres tão corriqueiros, não pensam em teatro e cinemas e quando se encontram falam sobre as alegrias do cotidiano, os p...

Carta a Leila

Não quero ser pessimista ou demasiadamente dramático nas minhas palavras. Também não quero recorrer a mitomania para exemplificar essas dores de cabeça que mais parecem dores de parto... o parto de palavras que ainda irão surgir de mim em notas mal escritas e enviadas a ti como prova de minha sanidade. Não, minha Leila, não sou louco! Antes fosse para me unir aos demônios invocados por Dostoievski ao assassinar o conceito do divino Deus em sua literatura, ou talvez para negar minha responsabilidade e conclamar um positivismo barato ao dizer que isso é apenas uma fase e logo tudo voltará a progredir! Recuso-me a ser louco e sobretudo progredir enquanto não usar o ceticismo e a falta de fé como ferramentas de busca da verdade. Não consigo dormir e vejo o sol nascer pela janela. Da mesma janela onde pela primeira vez vi Cécile despida a caminhar pelo viaduto a ofertar seu corpo por um pedaço de pão. Eu dei-lhe o pão na ocasião e depois de fazê-la apaixonar pelo que não sou a dispensei com...
[ao som de 'La mamma morta' - Maria Callas] Claire, Tem chovido por esses dias na capital. O vento nos castiga com sua força e nos obriga a ter raízes firmes para que não esmoreçamos. Ele me arranca o guarda chuva quando passo pela gare e minha única saída é o abrigo oferecido pelas colegas que lá permeiam entre as sombras. Já é noite! [Moriva e mi salvava! poi a notte alta] Por um instante em mim há uma saudade intensa do não saber. Sinto falta de fantasias que passeavam pela mente na ausência de certeza. Hoje eu sei, minha querida irmã, que o sentido não pode existir em palavras soltas ao vento e brincadeiras de criança (e como gostaria de voltar no tempo e estar naquele sítio de vovó à beira do riacho). [...Bruciava il loco di mia culla! Così fui sola!] É estranho essa sensação de saudade que vem acompanhada pelo desejo de distância. É uma morte em vida, Claire, de um sentimento lindo que se cultivou sem que houvesse um motivo sequer para tanto... [Tu non sei sola!] ... e ...

Love in the afternoon

Não consegui me soltar do telefone. Fiquei ali, parada durante horas enquanto as lágrimas caíam pelo meu rosto e meu pensamento ia longe ao tempo em que estávamos juntos. Nada era preciso ser dito, apenas sentido. Éramos amigos inseparáveis que riam juntos do que quer que fosse. Tínhamos um único código, uma única vida, um único meio de dizermos que estamos ali, presentes, vivos e próximos. Lembro-me de quando ele perdeu seu pai: era uma tarde em que estávamos no campinho depois do jogo do time. Um grupo unido, todos os garotos na mesma idade e à caça das garotas do bairro – e eu era uma dessas garotas de bairro incapaz de se envolver com qualquer que arrotasse com a mão na testa. Ele se secava rindo de uma brincadeira qualquer quando o treinador chegou de cabeça baixa. Achamos que fosse outra bronca pela algazarra, mas não, depois de saírem juntos ouvimos os seus soluços. Foi também um acidente, como o que tirou sua vida agora. Fiquei dias em sua casa até que se recuperasse. Naquele a...

A caixa

Não havia muito que dizer: estavam parados sobre a ponte, a observar o trânsito que ia alheio ao que pensavam em silêncio. A palavra vinha seca na garganta e o desejo não sabia ao certo se comum ou simplesmente distante. Olhavam-se com as mãos contidas e sabiam que seria a despedida. Ele se virou para conter a lágrima tolhida e afastou-se, ainda sem nada dizer. Desceu do carro e observou o Outro partir como se tivesse arrancado uma parte de si mesmo. Naquele instante o amou perdidamente. Ele se prometeu que não mais o procuraria, não mais se perderia em direção ao centro por uma nesga de carinho. Que o Outro continuasse perdido com sua exuberância vulgar, própria dos locais que freqüentava, onde as figuras míticas dançavam entre divinas e profanas sem nunca serem desejadas... os homens nunca as procurariam porque não eram fêmeas e elas nunca seriam dignas de mulheres! Falavam com voz alterada, a exagerar em tudo o que faziam e contar vantagem sobre pessoas que nunca tiveram verdadeiram...

O Canto de Ossanha

Leôncio nunca esteve certo sobre sua idade, recolher latinhas dos restos de lixo fazia-o tão indigente quanto aquele que as jogava nas ruas. Às vezes perdia seu próprio nome, entre buzinas e gritos de motoristas apressados que trombavam em seu carrinho humilde, abarrotado de papelão e com um velho rádio que sempre tocava a mesma estação. Quando havia sol, armava-se de óculos escuros. Na chuva, cobria os pés descalços com pedaços de sacolas de mercado e barbantes como cadarços. Era assim: um ser oculto que transitava pelos caminhos paulistanos, totalmente à margem de quem o via e não o percebia entre aquilo que já não mais servia. Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber. Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo...

Vaga Lume - Parte II

Era apenas impressão, não tinha certeza. Nada sabia e sobre nada tinha certeza, tinha apenas a impressão do mesmo jeans rasgado e velho sobre a cadeira, da camiseta regata de cor escura e dos sapatos do outono. Não se lembrava da noite anterior e, tampouco, imaginava o quão distante estava do outono, das estações e de tudo quanto vivera. Até se perguntava se já havia vivido, mas não tinha resposta, era preciso que se descobrisse para imaginar se poderia algo descobrir... E era sempre assim que encontrava as piores respostas! Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica e...

O peru e a cigana

Nunca tinha pensado em quanto tempo passamos a comer ou a pensar em lembranças distantes. Como mulher, sinto meus dias cheios e os pensamentos fogem da lógica do cotidiano. Ontem, mal havia acordado, deixei as camas de meu apartamento penduradas no varal e desci ao açougue para comprar osso buco para o almoço. Ele não viria comer em casa, mas eu estava em uma manhã totalmente feliz. Uma alegria quase estranha, quase verde. Uma alegria capaz de dizer às flores de meu prédio o quanto as amo, ainda que não possam retribuir meu sentimento da mesma forma. Era uma sensação de plenitude por si, de existir por si. Mesmo sem que houvesse alguém por perto para me dizer que eu existia. Entrei e pedi por uma peça pequena, pois estaria sozinha para o almoço. O moço, cansado, devolveu-me um sorriso amarelo e enigmático, como se não entendesse o que faria com ossos. Seus olhos penetravam-me a pele e corei ao perceber que ele não conseguiria perceber. Talvez lhe faltasse informação, por isso não me im...

A Cabrita Inês

Era Chico. Simples assim: Seu Chico. Um senhor de baixa estatura, gordinho e sorridente que morava pelos arredores da São João com seu amigo Osvaldo. Eram muito conhecidos pelos arredores, pelo jogo do bicho que traziam como distração ou pelas histórias da época em que foram arrolados na Guerra do Paraguai. Osvaldo era mais alto, sisudo com seu bigode e cabeleiras cinza. Sempre dizia de sua família no Paraná, para onde voltaria se conseguisse a sorte grande na milhar. Um dia desses ainda acertaria e mudaria seu destino. A cidade era pacata, aconchegante e sem muitas emoções em seu cotidiano. Embora com o nome de Brisas Suaves em Tupi Guarani, eram as altas temperaturas do verão que a caracterizavam. O fato acontecera há cerca de dois anos, em meados de setembro. Tudo começou com um pagamento inusitado que Seu Osvaldo recebera por ter acertado na milhar da federal: uma pequena cabrita. Não é preciso dizer o quanto isso o deixou louco, já que sonhava com o dinheiro que lhe devolveria a...

Simplesmente Ordinário

Risível: era assim que classificaria Bernardo! Ele estava distante, cheio de uma soberba que lhe era própria e em busca de uma simplicidade que nunca existiu. Ele estava só, mas acreditava que em paz. Na verdade, ele era portador de uma civilidade cínica e contumaz! Retirou sua capa e resolveu caminhar. Desceu. Lembrou-se do tempo em que nada sabia e assim poderia imiscuir-se à multidão de forma negligente, como parte dela. Hoje, com seus 20 anos, mesmo que seus olhos revelassem o turbilhão de seus pensamentos, os seus gestos denotavam que não pertenceria à massa. E sabia disso! Entrou em um canto qualquer e em poucos minutos, avidamente, encontrou-se com uma boca para lhe injetar suas pérfidas sensações de distância e solidão. No escuro e ao som de uma música qualquer, exaltou Eros e entregou-se à luxúria. Por um momento, esqueceu-se de seu nome para, em euforia, despir-se dos conceitos de classe e entregar-se ao comum. Ao final da dança, perguntou-lhe o nome e a convidou para um refr...

Kajal e Tertúlia

Não é tão simples assim me lembrar de Mariana. Dentro de mim ainda paira a força de seu olhar, a saudade de como éramos quando juntos e de tudo o que vivíamos em nosso esforço diário para sermos apenas comuns. Nunca fomos e por isso tudo era contra nós. Hoje quando passo de ônibus pela Avenida da Saudade, vejo ainda o velho cemitério onde a encontrei em êxtase em uma noite de lua cheia, completamente ensandecida e correndo pelos túmulos. Eu vi aquele vulto branco pular sobre as lápides frias e rir descaradamente como se possuída por uma força maior, uma força que lhe arrebatava o senso e a razão para lhe despejar felicidade... nua e totalmente molhada pela chuva, Mariana tinha os olhos muito abertos, cheios de um sentimento que anos depois saberia vir das drogas que usava para ficar lúcida. Sua lucidez era uma grande ironia, o que todos chamavam loucura. O ônibus continua seu trajeto e vira próximo ao asilo Vicente de Paula, a continuar seu percurso em direção ao bairro Matarazzo. Em a...

A alegria camarada...

Deixou-se embalar na melodia. Talvez pudesse reconhecer mais rostos se a fumaça se dissipasse. Veria os cúmplices da noite, velhos e novos conhecidos. Abraçaria a todos os que estavam presentes com certo desejo, disfarçando, ao máximo, o que todos conheciam... E tudo era permitido naquela noite, a população da outra margem se cegaria em busca da alegria que envolve os camaradas... todos os camaradas! Alguém se lembraria de beber algo. Ele se lembrou de procurar por alguém especial. Mas estava sozinho. A banda continuava embalando os foliões. Corpos sem rostos que se despiam de todos os pudores em busca do contato efêmero. A banda. Ele se perdeu na multidão. Misturou-se àqueles que o condenavam. Era o Outro. Apenas o Outro. Riu mostrando seus dentes brancos e fez uma cara patética, ao acompanhar alguém que lhe envolvia a cintura. Já pertencia àquela festa. Já era ele a própria festa... e as dores... e os medos... e parte dos foliões que se procuravam... a alegria... a intrigante e desco...

Café com creme e croissant de manteiga

Não tenho certeza de quando comecei a amá-la. Mesmo antes de conhecê-la já a tinha em um amor único dentro de mim. Era como se eu mesmo não existisse antes de descobrir que a amava, como se não me pudesse considerar um ser. E tudo há de se ter uma definição clara, uma idéia de existência, de ser. Amar Hélène era minha idéia de ser, um fim em si, não um meio. Eu tinha uma certeza em si, uma certeza de que havia um motivo para sobreviver e viver. Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol...

Almoço

Encontraram-se em um café. Mal se reconheceram, pois há tempos não se viam. Não sabiam ao certo o porquê do encontro, apenas lá estavam. Sem máscaras. Sem desculpas pelo tempo ou horário. Não quiseram uma mesa, sairiam para um almoço. Era tempo de almoço. Acharam um local afastado onde não seriam reconhecidos. Temiam serem reconhecidos. E é assim que deveria ser: no anonimato do dia, entre a multidão sem rosto que caminhava no mesmo espaço físico. Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros! Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos pouc...

Vaga Lume - Parte I

Lucius estava a vagar pela noite e observava a compenetração entre o sagrado e o profano: pessoas que se drogavam em frenesi e prostitutas se ofereciam por dez reais. Sentiu-se amargo quando ouviu, ao longe, tiros e arruaças. Os prédios ostentavam a estupidez da sociedade falocêntrica, justapostos, formando uma selva impregnada pelas vibrações de tristeza e dor. Sabia que estava sozinho na busca pelo nada... Ajustou-se mais dentro da jaqueta. Ao levantar a gola para proteger o pescoço, sentiu o frio bater em seu rosto congelando-o até as entranhas. O odor fétido das poças de lama o engasgava em seu desespero, sua imaginação formava grandes monstros que o perseguiam e bradavam ferozmente em seu íntimo. Sentiu desejo de beber algo qualquer que vomitaria no dia seguinte. Sentiu asco de si mesmo ao perceber o quanto ainda estaria alheio às suas próprias angústias, à sua fome de dias ou meses sem a mínima expectativa de sanativo. Continuou a caminhar na busca de um destino. Lucius caminhav...

Neon

Há um vento que entra pelos buracos de minha janela que faz com que eu pense no que vou escrever. É um vento quase frio, quase solitário, quase como uma brisa carente que viaja milhas e milhas para encontrar repouso em um lugar qualquer... Com ele vejo pequenas luzes coloridas ao longe, pessoas perdidas em seus pensamentos, pessoas que sonham com as promessas de um novo começo após as eleições e outras tantas que não entendem que os anos passam, simplesmente. O néon daquele anúncio do outro lado ilumina a parede de meu quarto: ele tem vida por um instante, quando projeta na tela fria de meu quarto a sombra de seres que habitam a noite metropolitana. A tela fosca pintada de branco, como os fantasmas que vagam, buscam abrigo, sonham e choram livremente! Ah, a metrópole. Um ano mais velha, quase uma senhora que abriga notívagos em seu seio... Estou bem. Estou tranqüilo, repito a mim mesmo. Como se eu pudesse criar um estado de consciência onde todo o medo que tenho pudesse fugir pelos bur...

Distante...

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver em seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por estar cega. Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir. E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como cera e ...

O céu

Ainda continuo em paz. É uma paz sofrida, quase como uma intempérie que assola minha alma que se dista para sobrevoar paisagens idílicas. Tenho medo dessa paz, em mim. Um medo quase incômodo, quase vivo, quase presente... e é desse quase o meu maior medo! O medo é e, ao mesmo tempo, não é. Alimenta a si mesmo para que se torne um fim em si - e isso, indubitavelmente, me assusta. Acusam-me de descaso. Acusam-me de petulância por meu pedantismo: não entendem que estou em prece no silêncio, que me comunico com duendes e outras criações imaginárias que fogem de suas conceituações. Quase os incomodo, pois estou presente sem me fazer presente em uma frase qualquer. E a eles eu quase sou... Inquirem-me sobre leituras e blasfemam com citações de falsa erudição. Vomitam suas filosofias fálicas e, assim, conceituam meu comportamento como discriminação ao que me é estranho... no fundo, eu me sinto no limite entre a bondade e a hipocrisia: sou hipócrita, finalmente, ao sorrir em complacência. E é ...

O Menino e a Vela

O menino acendeu a vela e se ajoelhou para rezar, com as mãos unidas em palma, levantadas para o céu. Nada de mais pedia naquela prece, apenas um pouco mais de tempo, apenas o tempo necessário para que fizesse o que sempre desejou. Quis sair e andar pelas ruas, mas suas pernas estavam frágeis, seu corpo todo pedia pelo descanso merecido. Alguns corpos dormiam empilhados pelo seu quarto e poucos, além de algumas formas pensamento, podiam presenciar o ato de sublimação. A vela ia a se queimar lentamente, como em um ritual onde o fogo ostentava todo o brilho que saída de seu âmago: o brilho do medo, da ausência, da sutileza de ser singular. E as palavras fluíam na mesma medida, na incerteza da intenção, da fé não inspirada e do tempo que se esvaía... Ele só precisaria de um tempo, para encontrar o seu desejo! Os seus joelhos já estavam marcados, suas mãos trêmulas balbuciavam o som inaudível de seus lábios, seus ouvidos procuravam pelo alto, na busca da prece, da oração para o céu. Finda-...

Nem precisa...

Ele se chama Ailton e veio do Piauí há alguns anos. Conseguiu o serviço de zelador aqui no prédio e substitui a síndica quando ela não está. Ele é baixo, tem uma barriga enorme e exala um cheiro horrível como se sempre estivesse sem meias. Não gosto como ele me olha. Parei de cumprimentá-lo e de chamá-lo pelo nome. Refiro-me, quando necessário, como moço, como "ou", como qualquer coisa do gênero... Já cheguei a chamá-lo de "coisinha". Ele não sabe que eu o ignoro, pois não haveria de ter desenvolvido alguma inteligência para tanto. Mas eu não me importo, sinto-me realizado por ignorá-lo e passar como se não existisse. Ontem eu cheguei e estava completamente transtornado pela linguiça que comi na madrugada. Refiro-me ao alimento, certamente, não ao que imagina ser conotação sexual. Pois bem, estava muito mal que terminei por me esquecer que o ignorava. Cumprimentei-o e o chamei pelo nome. Ele me respondeu com um aceno, sem entender se realmente eu estava ali. Vomitei...

Palavras, palavras, palavras

Neuci é uma negra gorda que mora no sétimo andar. Faladeira... adora visitar os vizinhos e sempre tem uma receita para passar. Assiste a todos os programas de culinária, depois que aposentara do banco por pressão alta. Hoje ela estava no portão quando eu cheguei. Chegou das compras cansada, pois está novamente grávida. Ela tem mais de quarenta anos e não entendeu como após a menopausa conseguiria engravidar... eu a ajudei com as compras no elevador. Neuci me olhou agradecida e sorriu, como naquela música de Maysa... “palavras, palavras, palavras” Até a próxima, E.

Culpa de quem?

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Quero desistir de exaltar a metafísica. Nem sequer vou determinar o que é metafísica, qual é o poder a que se reporta. A hora é agora e o tempo é exatamente aquele que posso mensurar com meu relógio de pulso, que funciona apesar de adquirido nas lojas do comércio paralelo. Não quero pensar em consciência, em valores ou atributos outros que venham justificar: quero apenas falar, factualmente, de situações que pululam aos meus olhos. Chove na capital. Molho-me completamente porque mesmo com um guarda chuva imenso não consigo estar nele por completo. E choro com a chuva porque encontro mendigos e pedaços humanos espalhados no caminho para casa. Choro torrencialmente, como a chuva, porque falo com minha irmã e testemunhamos diversos desabrigados que perderam tudo o que tinham. É certo que vão todos ao abrigo proporcionado pela prefeitura, mas não é o suficiente. A chuva está em São Paulo, corrijo, na periferia de São Paulo: há uma clara divisão entre a “chuva” e os “desastres” que acometem...

Marseille...

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Nesse mesmo bar onde estava, aos 11 anos de idade, ela fora barrada na porta do banheiro feminino porque a confundiram com um menino. Agora, sentada a beira mar e absolutamente adulta, com seios e cabelos longos, ela vê uma dupla inusitada na mesa à frente que gesticula e ri de forma que, juntos, representam a perfeição. O velho com sua cabeleira branca bem cuidada que se deixa acompanhar um garoto de quatorze anos simples e educado. Ambos têm modos diferentes de mover a cabeça, mas os olhos brilham juntos enquanto há um magnetismo qualquer que os fascina... Ela pediu por um Martini seco e abriu seu livro preguiçosamente. Riu sozinha, pois na época em que acontecera o incidente do banheiro aquela cena dos dois sentados e rindo seria, no mínimo, abominável... O calor carioca a deixava sem ritmo, mas ainda se surpreendia como amava aquela cidade. Amava ser anônima e saber que sabia disso. Amava ter consciência de quem era e, ainda assim, divertir-se por todos os lugares onde passava... s...

Retorno

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Ontem, quando atravessei o viaduto para entregar o filme na locadora, abri meus braços de forma a sentir mais esse frio de São Paulo, pois a temperatura não sai da casa dos 18 ºC. Ao passar por algumas pessoas, percebi que me olhavam de forma fixa, o que de certa forma me fez entender que talvez eu chame a atenção por ser belo ou ter total ausência de beleza (risos). Fui à padaria, à tarde, comprar pães. Dei uma pequena ajuda a um transeunte que me pedira por comida, pequena por não ter muito o que oferecer... É o retorno, o meu retorno, à vida paulistana... sou humano, não é? Tive uma inveja profunda de alguns colegas de trabalho. Uma inveja humana, não depreciativa, mas real. Uma inveja que me faz humano... agora sou humano... Lembrei-me de torcer pelo bem de todos, pois já é um novo ano. Lembrei de alguém distante e de seu riso contagiante, seu jeito meigo e pleno de dizer coisas boas mesmo quando agride... será que eu já disse o quanto amava? Vou sair agora. Vou dançar a noite toda...

Relembrar...

Não poderia deixar a primeira mensagem em branco, ou, ao mesmo tempo, não conseguiria redigir algo inédito o suficiente para que eu mesmo entendesse... De qualquer forma, por agora, deixo uma frase e coloco meu pensamento a funcionar, aqui em mim, para externar quando possível... E.