Sunday, November 05, 2006

Sou brega sim!

E daí se eu adoro casamentos? Não é preciso ser diferente o tempo todo... Chamem-me de brega, de antigo e até mesmo de contraditório, mas isso foi uma manifestação que eu achei absolutamente válida. Pois é, ainda que alguns achem que seja ultrapassado, mas eu chorei sim e achei a cerimônia uma coisa linda, cheia de vida e com muito brilho... o noivo que me entra com a 9ª de Beethoven e de fraque cinza... a noiva que antes de sua anunciação foi aguardada sob o som de "My Way" pela orquestra da igreja que estava toda enfeitada de branco e margaridas... não, não me condenem, eu me emocionei e percebi que sentia falta de estar nisso.

 

O amor deve ser celebrado. É incrível quanto amamos e perdemos tempo em esconder isso... são as pressões da vida, da moral e de uma ética (?) que nos fazem acreditar. É incrível como sempre nos tolhemos de viver com intensidade essa vontade de expressar, ainda que com infantilidade, esse desejo pelo outro. Amei ver todos os convidados com lágrimas nos olhos, uns com nostalgia, outros com expectativa porque em breve irão participar do ritual... naquele momento eu senti uma ponta de inveja de minha amiga porque ela finalmente estava a realizar um sonho que há tempos alimentou!

 

O amor nos transforma. Não há quem não diga que ele é inexplicável. A gente não escolhe por quem sentir essa afeição tão sublime. Não escolhemos gênero, não escolhemos tipo, não escolhemos nada. De repente os olhos nos pregam uma peça, ou até mesmo um outro sentido qualquer... é como se nosso corpo estivesse pronto para sentir o amor e de repente, sem mais nem menos, a gente ali está: fisgado e totalmente envolvido nessa teia se sensações... há um livro da Lei que diz "...que o homem não foi feito para ficar sozinho", embora em sua fábula original, é uma afirmação que nos diz de como somos: não gostamos de permanecer sozinhos. Ficamos assim dias, meses e até anos, mas de repente nos bate uma vontade e não sabemos de que... é a vontade desse afeto recíproco que tem sua celebração em um ritual de união.

 

Já diz a psicologia que o afeto é uma de nossas emoções básicas, assim como a alegria, a tristeza, o medo e a raiva. Temos, naturalmente, o afeto em nós. Por ser parte de nosso ser, desenvolvemos esse afeto por algo ou alguém tão logo sejamos estimulados. E somos humanos por isso. Na primeira infância pelo brinquedo e pela presença da mãe, depois ao crescermos e convivemos esse afeto se expande e vimos de hora para outra envolvidos nos pequenos amores adolescentes. Depois crescemos, instituímos esse sentimento e acabamos, por fim, com o casamento e o surgir de uma nova família. Condenem-me por isso, mas somos determinados ao amor, como se ele fosse parte de nossa constituição a ponto de não nos separarmos dele...

 

Recentemente eu me vi apaixonado. Foi durante uma viagem que fiz que percebi em mim essa manifestação física do amor: eu desejei ardentemente! Deus, como desejei... era como se quem eu amasse fosse minha razão para existir, para continuar, para ser. Eu me via a todo momento com o pensamento perdido sobre minha paixão, sobre uma esperança de que um dia me visse também em um ritual de acasalamento para constituição de uma nova família... foi maravilhoso! Mas era paixão, infelizmente. O afeto que eu tinha se acirrou em uma loucura contundente: paixão! Foram semanas até que eu percebesse a distância entre um e outro e retomasse em mim apenas o amor, sem a loucura e o desejo e não viver enquanto estivesse longe de quem amava... e eu voltei! Assim como minha amiga, agora casada, voltou e finalmente desposou seu amado!

 

É brega, mas é gostoso. Dá um acalento no peito, uma sensação de que tudo é possível e que temos força para enfrentar o que quer que seja. Os que me chamam à razão não percebem que sentir é diferente de agir... que ter o amor não implica necessariamente em amar... que amar é agir movido pelo sentimento e não sentir. Adoro ser brega e ligar no meio do dia para dizer que tenho saudades. Adoro ser brega e dizer que sinto um grande amor por cada amigo que se aproxima. Adoro ser brega e chorar nos casamentos, rir das piadas que contam e cortar a grava do noite. Adoro ser brega e me perceber apenas humano.

 

Hoje eu sei que não há paixão alguma em mim. Hoje eu dispenso meu afeto a cada palavra que escrevo e a cada amigo que se aproxima. Hoje eu penso que tudo é possível e tenho força para enfrentar o que quer que seja por amor... amor a mim, ao que tenho e a todos que caminham comigo...

 

É só isso, hoje.

 

Beijos,

 

E.

Sunday, October 22, 2006

Você é feliz - Parte II

Continuei a pensar sobre felicidade e ontem isso me fez lembrar de um escrito que tive o prazer de ler há tempos sobre Nietzsche. O autor colocou na boca do filósofo o seguinte questionamento: “mas o que o motiva a fazer isso? Qual a verdadeira razão de tentar com tanta veemência a solução desse problema? Não me diga que por ser parte de sua profissão, senão teria que acreditar que o faz por bondade e não acho a bondade um bom motivador... não acho que o ser humano faça qualquer coisa gratuitamente, apenas para provocar no outro uma sensação de bem estar ou alívio...” Isso me fez refletir um pouco e passei a imaginar que não é de toda falsa a colocação...

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Não acho que há esmola dada sem segundo interesse, assim como não há relação humana que não permeie o egoísmo. Mas daí me questionei: onde está o egoísmo? Pois é... confundimos o amor platônico com o amor a um ideal inatingível, confundimos nossas paixões carnais com um amor sublime e a posse do outro – e conseqüentemente sua imagem incorruptível – se torna um requisito imprescindível para que continuemos a amar. Precisamos que o outro se encaixe em nossos ideais, em nossa imagem de perfeição para que o amor persista. Temos que ter uma espécie de poder, de fascínio para que o relacionamento aconteça. Como somos limitados!

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E muitas vezes o que nos motiva a continuar um contato é exatamente esse poder que exercemos sobre o outro ao nosso lado: seja em um ciúme bobo que o faz trocar de roupa, uma festa que se deixa de ir, uma cumplicidade no final de semana em que um está a trabalhar e o outro não sai. O que chamamos de consenso nessa relação nada mais é do que essa luta para ver quem tem o poder momentaneamente e é por esse poder que continuamos sempre a nos relacionar... o que chamamos de amor, no limite, não passa de uma aceitação do exercício do poder do outro sobre mim e vice versa.

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É esse egoísmo que nos move, essa sensação de vitória mesmo quando cedemos por saber que logo poderemos ser o que provoca. Essa sensação de vitória, de estar em evidência, se ser quem dá as cartas é que nos motiva. Em todas as relações precisamos colocar em evidência nossa opinião, mesmo na timidez de nosso riso. A todo o tempo precisamos nos provar, nos afirmar, nos colocar presente... quando há quem não o faz, consideramos fraco e morto, incapaz para a convivência no grupo.

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Poderia dizer estranho, mas acho quase formidável: a todo o momento incluímos e excluímos coisas de nossa vida conforme a sensação de vitória que isso nos dá. Seja um simples chicletes para nos dar um prazer momentâneo como o emprego que não nos paga o suficiente. Precisamos ter um certo controle, ainda que inconsciente, para continuar! Isso me lembra de um diretor que fez uma festa de final de ano para todos os funcionários e seus familiares em uma chácara muito agradável. Todos puderam ter um dia tranqüilo com comes, bebes e outras coisas típicas de natal. As crianças ganharam presentes, as esposas rápidos tratamentos de beleza e os homens (grande maioria de funcionários) jogaram futebol com o diretor. Ao final do dia o diretor fez um pronunciamento geral para anunciar o pagamento de participação em resultados: não poderia ser melhor, todos os funcionários aplaudiram, assim como as esposas e filhos presentes.

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Com esse exemplo muitos podem dizer que a empresa reconheceu o esforço dos funcionários e proporcionou essa festa a fim de reconhecimento... mas eu enxergo o contrário: eu vejo o diretor se afirmar sobre todos, mostrando seu poderio ao organizar a festa e distribuir alegrias. No fundo, o que ele queria ela ganhar aliados, fazer com que os funcionários trabalhassem ainda mais durante o ano vindouro e assim ter resultados ainda maiores.

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Há tanto que fervilha, mas não posso continuar por agora. Preciso evitar ser tão cáustico para não ganhar o rótulo de pessimista. Basta por agora pensar que a própria felicidade passa pelas relações de poder, de influência, de dominação que temos sobre o outro e, no fundo, essa sensação de vitória que temos a cada pequeno gesto é o que nos torna ainda mais felizes.

E.

Monday, October 16, 2006

Assim Seja!

Claire,
 
Antes de dormir me vi com o pensamento em você, em tudo o quanto falávamos e tudo o quando passamos em relação ao "estar sozinho". Temos muito em comum dessa distância do mundo em que vivemos. Parece que muitas vezes não conseguimos fazer parte desse cotidiano, desse comum constante que observamos sem nos deixar contaminar.
 
Quando eu mesmo me observo de longe, percebo que há muito por resolver à minha própria estima. Às vezes é como se eu não soubesse me amar, como se não estivesse ali, como se passasse desapercebido por onde quer que fosse... mas é apenas impressão! Por mais que achemos, não conseguimos passar desapercebidos e por onde quer que passemos deixamos nosso rastro: um pouquinho de nós a quem encontramos pelo caminho. Por mais que duvidemos, temos um ar especial que nos aproxima somente de seres também especiais e, por serem raros, sentimo-nos sozinhos a maior parte do tempo.
 
Não podemos pertencer ao comum, ainda que lutemos com todas nossas forças para isso. Não podemos, não conseguimos e quanto mais tentamos, mais nos machucamos. É difícil, Claire, não se identificar com a realidade comum, com a realidade constante que pulula aos nossos olhos. É difícil, por exemplo, dançar ao meio de milhares de corpos e não desejar um sequer. É difícil acreditar que não consigamos participar de todas as gias e orgias do cotidiano. É difícil de aceitar que não temos referência no mundinho que nos cerca, nas pessoas que nos cercam, nos desejos que nos cercam... Não são nossos desejos, Claire, não é nosso mundo, não são nossos iguais! Não pertencemos a eles mesmo quando em contato com eles.
 
Sem valorizar um em detrimento do outro: não somos como o todo, mas nem por isso somos superiores ou inferiores ao todo. Somos o que somos e por isso tanto nos dói cada segundo da vida. É uma batalha diária a envolver o que temos e o que sentimos versus o que vemos e o que gostaríamos...
 
Também pouco durmo e há dias em que estar sozinho me incomoda. Hoje, somente hoje, vou me deixar vivenciar esse plúmbeo paulistano enquanto vou à cidade universitária, ao meu emprego, ao meu futuro... cuide de meu gato, Claire...
 
Ainda que não acredite, sei que temos muito ainda a resolver...
 
Fique em paz, esteja em paz, permaneça em paz... é o que desejo!

Saturday, October 14, 2006

Você é Feliz - Parte I

Perguntaram-me se sou feliz e de repente não sei como responder... sou feliz? E se sou feliz, porque às vezes não estou feliz? E se não sou feliz, como às vezes estou feliz? Você realmente me pegou Kiko, me fez pensar no assunto de forma tão crua que me sinto demasiadamente humano.

Para me ajudar a responder a questão, recorro ao exemplo de um casal de amigos que se amam: Esther e Paulo. Ambos são evangélicos e ainda não se casaram. Sentem-se completos quando estão juntos, não precisam de palavras e apenas o toque suave de seus dedos faz com que sintam a força do amor. Eles saem juntos e juntos ainda conversam sobre o futuro, sobre o que acreditam e sobre tudo o que têm conquistado. Ela trabalha em uma loja de confecções e ele na construção civil: são pessoas simples, com gostos simples e não fazem sexo porque não sentem necessidade...

Sentem-se felizes com outros prazeres tão corriqueiros, não pensam em teatro e cinemas e quando se encontram falam sobre as alegrias do cotidiano, os pequenos problemas que resolvem e o quanto conquistam em suas vidas. Compraram um terreno recentemente e falaram com o pastor sobre a data de casamento. Ambos não sabem sobre cultura popular ou a última moda em ciência e filosofia. Pouco falam e de política lêem apenas o suficiente: consideram-se felizes e realizados! Às dificuldades, quando vêm, enfrentam tranqüilamente. Confiam em Deus e a alegria que têm no peito supera qualquer grande angústia que lhes aparecem.

Não sou como eles, Kiko. Às vezes, penso se felicidade não é um estado de espírito motivado por algo externo... Diz minha amiga Júlia que temos apenas momentos felizes, eu contesto. Sempre digo a ela que se isso é felicidade, então seremos infelizes na maioria das vezes e a alegria é apenas temporária! Ela não soube me responder... pobre Júlia, estava toda chorosa pelo acidente e por ter quebrado a clavícula... talvez por isso não pense em felicidade!

Pelo meu amor ao saber e por ter tanto ainda a aprender, conjugo minha alegria nos livros e nas piadas que faço sozinho enquanto arrumo a casa... sou feliz por ser, sem motivo, sem razão, sem necessidade. Sou feliz mesmo quando caço baratas e lembro de meu chefe ranzinza na empresa em que trabalho. Os momentos que me brindam com o êxtase eu vivo e os momentos em que tenho minha alegria à prova eu me permito chorar...

Acabo por pensar que sou naturalmente feliz e que os momentos de tristeza que tenho não afetam minha constante, só me fazem valorizar ainda mais aquelas horas em que não há motivo para chorar... Tenho momentos de tristeza, momentos de dor, mas SOU na maioria das vezes feliz.

Não sei se respondi, meu caro Kiko, mas como sei que nunca se permite ler de tudo que lhe envio, vou deixar minha alegria repousar agora com um bom analgésico às dores de cabeça. Vou me deitar com a certeza de estar bem ainda que as dores me visitem... soube que minha mãe está doente, talvez precise se internar e terei de viajar com urgência. Soube também que talvez perca minha tia logo, que talvez precise de mais dinheiro e, sobretudo, não estou mais apaixonado... tem tanto a acontecer e ainda assim continuo sereno, tenso, irritado e feliz! Saudades de você...

P.s.>> tem um link para você fazer um teste...

http://istoe.terra.com.br/istoedinamica/calculadora/felicidade/felicidade.asp

Tuesday, October 10, 2006

Carta a Leila

Não quero ser pessimista ou demasiadamente dramático nas minhas palavras. Também não quero recorrer a mitomania para exemplificar essas dores de cabeça que mais parecem dores de parto... o parto de palavras que ainda irão surgir de mim em notas mal escritas e enviadas a ti como prova de minha sanidade. Não, minha Leila, não sou louco! Antes fosse para me unir aos demônios invocados por Dostoievski ao assassinar o conceito do divino Deus em sua literatura, ou talvez para negar minha responsabilidade e conclamar um positivismo barato ao dizer que isso é apenas uma fase e logo tudo voltará a progredir! Recuso-me a ser louco e sobretudo progredir enquanto não usar o ceticismo e a falta de fé como ferramentas de busca da verdade.

Não consigo dormir e vejo o sol nascer pela janela. Da mesma janela onde pela primeira vez vi Cécile despida a caminhar pelo viaduto a ofertar seu corpo por um pedaço de pão. Eu dei-lhe o pão na ocasião e depois de fazê-la apaixonar pelo que não sou a dispensei como se dispensa um cão. Não me odeia por isso, Leila, assim como eu também não me exalto por não ter a virtude da caridade... não sei mentir e fingir que sou digno e beato quando minha carne clama por outra carne sobre a cama. Cécile tinha seus seios intumescidos ao meu toque e corava quando suave minha mão deslizava pelas suas nádegas brancas. Ainda posso sentir a mesma ereção e o mesmo prazer quando evoco seu cheiro e me lembro de suas lágrimas ao enxotá-la nua na chuva naquela manhã de sábado. Era muito cedo e fazia um frio glamoroso, tépido aos que tinham coração europeu. Ela implorou por meu afeto e eu em um sorriso diabólico lhe disse que levasse para longe aquele esqueleto usado! Não quero ser demasiadamente dramático, por isso encerro o episódio de Cécile enquanto levanto meu cálice de brandy.

Quero agora questionar minhas possibilidades para não me tornar vítima de mim mesmo. Quero recusar ter fé ou esperança para procurar em mim respostas a tudo que sou. Resposta às possibilidades do que sou ou do que posso ser. Possibilidades tolhidas anteriormente pela vergonha e a incerteza, pela interferência da moral que me era externa e cegava meu entendimento com a exaltação de virtudes e regras para ser. Repudio-as, Leila. Repudio as regras para encontrar a essência. Repudio, nesse momento, toda inquisição fomentada nas esquinas e livros que ditam os costumes desse tempo. Repudio, definitivamente, Leila, as exigências de sucesso e de comportamento. E que não me venham com fórmulas e remédios: não preciso de remédio para suportar a realidade que encontrarei. Os remédios não resolvem Leila, apenas nos permitem conviver com o problema sem muito questioná-lo... não precisarei deles!

Como gosto dessa carnalidade de Mozart. Escuto-a repetitivamente e exausto sinto minhas dores de cabeça partirem. É como se me embriagasse por sua música e me perdesse com uma boa dose de brandy. É como se nada mais importasse senão essa minha presença irritante em mim. Preciso me esquecer de Cécile. De alguma forma ela ainda vem e me faz lembrar de certa humanidade. Não posso aceitar isso. Não posso aceitar que tenha algo de comum em mim. Não posso aceitar que venha a piedade ou a moral resgatar o que já se havia condenado!

Talvez seja apenas o começo, Leila. Apenas um começo...

Sunday, October 01, 2006

[ao som de 'La mamma morta' - Maria Callas]

Claire,

Tem chovido por esses dias na capital. O vento nos castiga com sua força e nos obriga a ter raízes firmes para que não esmoreçamos. Ele me arranca o guarda chuva quando passo pela gare e minha única saída é o abrigo oferecido pelas colegas que lá permeiam entre as sombras. Já é noite! [Moriva e mi salvava! poi a notte alta]

Por um instante em mim há uma saudade intensa do não saber. Sinto falta de fantasias que passeavam pela mente na ausência de certeza. Hoje eu sei, minha querida irmã, que o sentido não pode existir em palavras soltas ao vento e brincadeiras de criança (e como gostaria de voltar no tempo e estar naquele sítio de vovó à beira do riacho). [...Bruciava il loco di mia culla! Così fui sola!]

É estranho essa sensação de saudade que vem acompanhada pelo desejo de distância. É uma morte em vida, Claire, de um sentimento lindo que se cultivou sem que houvesse um motivo sequer para tanto... [Tu non sei sola!] ... e a chuva, continua... [fa della terra un ciel! Ah!] (se lembra de quando a vovó nos pegou roubando flores do jardim da dona Quitéria?)

Logo é noite alta e deparo-me com um fantasma. Com um guarda chuva me convida a tomar suco de laranja, comprar frutas e prometer um encontro no final de semana. Perguntamo-nos mutuamente porque ficamos tanto tempo longe e apenas me respondeu: "...porque não era em mim que estava seu pensamento nos últimos dias e não sei se é amor o que sentia por mim!" [Io son l'amore, io son l'amor, l'amor"] Parou depois disso e esperou que eu dissesse algo! Eu lhe disse apenas que tinha razão por não ser a única certeza de meu afeto, mas implorei que não duvidasse que ainda poderia ser amor!

Enfim partiu, chegara seu ônibus. Ao ver que partia, retornei a pensar na certeza que tive e o quanto gostaria de nunca tê-la. Talvez esse fantasma poderia estar no lugar de quem faz apenas uso de mim! Agora novamente eu sei que está certa, como sempre, por me achar passional... sinto como se ainda estivesse na gare, como se nunca tivesse saído de lá e nunca tivesse realmente amado. Sinto o mesmo vazio, Claire, a mesma distância. [Corpo di moribonda è il corpo mio.]

Sentia-me muito longe de mim, minha irmã, naquele momento! ... e a chuva...
Cheguei ao apartamento, subi e debrucei sobre a cama. Agora a chuva ia ao longe (como quando ficávamos no celeiro e adormecíamos com o tilintar da tempestade!) e dentro de mim o vento fazia a limpeza necessária.

Não há mais desejo! Enfim sinto-me livre de qualquer desejo! [Io son già morta cosa!] Parei por um momento e disse novamente a mim: não há mais desejo! Estou livre Claire... livre... talvez realmente aceite o encontro prometido e desenhe um novo final durante a semana que se passa... [...che a me venne l'amor!]

Tuesday, July 11, 2006

Love in the afternoon

Não consegui me soltar do telefone. Fiquei ali, parada durante horas enquanto as lágrimas caíam pelo meu rosto e meu pensamento ia longe ao tempo em que estávamos juntos. Nada era preciso ser dito, apenas sentido. Éramos amigos inseparáveis que riam juntos do que quer que fosse. Tínhamos um único código, uma única vida, um único meio de dizermos que estamos ali, presentes, vivos e próximos.

Lembro-me de quando ele perdeu seu pai: era uma tarde em que estávamos no campinho depois do jogo do time. Um grupo unido, todos os garotos na mesma idade e à caça das garotas do bairro – e eu era uma dessas garotas de bairro incapaz de se envolver com qualquer que arrotasse com a mão na testa. Ele se secava rindo de uma brincadeira qualquer quando o treinador chegou de cabeça baixa. Achamos que fosse outra bronca pela algazarra, mas não, depois de saírem juntos ouvimos os seus soluços. Foi também um acidente, como o que tirou sua vida agora. Fiquei dias em sua casa até que se recuperasse. Naquele ano o time não jogou mais e ele quase foi reprovado.

Depois de alguns meses foi sua vez de acampar em minha casa: eu tive catapora. Minha mãe trabalhava fora e para evitar que falassem de ficarmos sozinhos durante as tardes, ele, que já tivera catapora, pulava a janela sempre com um novo jogo de Atari. Virei várias fases de River Raid e Pac Man naquelas férias que ainda foram divertidas. É incrível como agora sinto que nunca o agradeci o suficiente por isso. Sinto como se aquela entrega incondicional que tínhamos era de alguma forma um amor contido. É um vazio agora saber que toda aquela história se foi por culpa de um vândalo de moto.

Ele se mudou quando estávamos no colegial. Por ser viúva, sua mãe resolveu ir morar com os irmãos na capital e eu continuei na pequena cidade que nos viu crescer. Passamos a nos escrever sempre, ainda usávamos o mesmo código e era isso que nos dava a certeza de que continuávamos amigos. Soube quando ele se apaixonou e lhe contei sobre minha primeira vez com o namorado que hoje é pai de minhas filhas. Eu sentia que, de alguma forma, era a única pessoa em que eu confiaria dizer o que eu era. Quando passamos a trabalhar, viajávamos sempre para nos vermos. A sua namorada não entendia essa entrega e nem eu, noiva, conseguia explicar porque, por ele, não havia compromisso inadiável – até mesmo o dia do meu casamento foi alterado para que ele estivesse. Hoje olhando meus filhos enquanto dormem, sei que aquilo era alimento para que eu continuasse. De certa forma ele me dava uma razão para eu continuar a viver, ele era um motivo para que eu continuasse no caminho, aqui mesmo nessa pequena vila, aqui mesmo nessa pequena vida.

Não sei o que pensar. Fico a me lembrar daquele dia, quando sentados em um banco da praça que nos viu crescer, nos calamos pela primeira vez. Sempre ficávamos em silêncio, em uma cumplicidade tão nossa que nada ousaria perturbar. Mas foi um calar diferente... Ele parou e me fitou tão profundamente que não ousei dizer palavra alguma. Tinha urgência em seu olhar e uma verdade que fingíamos nunca ter percebido. Abaixei meus olhos e fitei minha aliança. Ele continuou a me olhar profundamente, com lágrimas que escorriam pela face. Nada disse. Eu também chorei e ele simplesmente pegou minha mão com carinho e beijou. Foi a última vez que nos vimos, há pouco mais de um ano.

Aquilo nos perturbou, mas percebi que sabíamos o que havia acontecido. Ambos sabiam. Não era mais aquela amizade inocente de quando íamos às festas juninas e trocávamos de par para dançarmos juntos. Tornamo-nos, de repente, seres humanos com desejos e distinções antes nunca exprimidas. Ele reconheceu em mim as curvas de meu sexo e eu notei o quanto gostava de seu cheiro e gestos rudes. Tornamo-nos homem e mulher e existia algo entre nós. Eu o amava. Hoje eu sei que naquele instante eu descobria o quanto o amava: seu sorriso, seu cabelo desarrumado e sua timidez quase doente. Eu o amava perdidamente. Como eu o amava. E ele me amava. Era a razão de não se ter envolvido profundamente com a pequena de peitos fartos que tanto o buscava. Era a razão de sua ausência.

Foram horas difíceis essas em que minhas recordações vieram. Agora já é tarde para que eu vá a capital e me despeça de sua lápide. Prefiro estar aqui, em silêncio, a me recordar que em breve estaremos juntos novamente. Com nosso código único, com a única razão para que eu sobreviva...


Bea

Friday, June 30, 2006

A caixa


Não havia muito que dizer: estavam parados sobre a ponte, a observar o trânsito que ia alheio ao que pensavam em silêncio. A palavra vinha seca na garganta e o desejo não sabia ao certo se comum ou simplesmente distante. Olhavam-se com as mãos contidas e sabiam que seria a despedida. Ele se virou para conter a lágrima tolhida e afastou-se, ainda sem nada dizer. Desceu do carro e observou o Outro partir como se tivesse arrancado uma parte de si mesmo. Naquele instante o amou perdidamente.

Ele se prometeu que não mais o procuraria, não mais se perderia em direção ao centro por uma nesga de carinho. Que o Outro continuasse perdido com sua exuberância vulgar, própria dos locais que freqüentava, onde as figuras míticas dançavam entre divinas e profanas sem nunca serem desejadas... os homens nunca as procurariam porque não eram fêmeas e elas nunca seriam dignas de mulheres! Falavam com voz alterada, a exagerar em tudo o que faziam e contar vantagem sobre pessoas que nunca tiveram verdadeiramente... perdiam-se, mitômanos, pelos ideais que almejavam e desprezavam com a lascívia de seus corpos.

Ele sabia, entretanto, que sentiria sua falta. De seus modos joviais com um copo de uísque e de seu jeito maroto de jogar a cabeça para trás enquanto gargalhava. Era isso que fazia com que se sentisse vivo – e quando estavam juntos Ele se sentia vivo, partilhava de uma mesma alma reconhecida de si mesma! Era no Outro que absorvia conhecimento, através de pequenas gotas de sensações, de experiências de viagens, de culturas e de poesias burguesas. Lembrou-se daquela história de Paul Verlaine e percebeu ter deixado partir, finalmente, o seu Rimbaud. Desejou conhecer de filosofia para ter uma frase certa sobre a perda, sobre a existência vazia e a incerteza de que se havia alguma essência em que sentia. Secou os olhos e saiu a caminhar.

Andou por algumas horas até que se encontrou perdido. Procurou por um ponto qualquer que o levasse a zona sul. Tinha algumas moedas, um passe de metrô e um resto das bolachas que comprara pela manhã. Parou em um bar, pediu por um copo d'água e comeu das bolachas. Em breve estaria em casa. Em breve, talvez esquecesse disso e saberia o que fazer. Logo seria manhã de segunda, e a vida deveria continuar... de repente se sentiu profundamente velho com essa imagem. Sentia o peso dos anos em seus ombros e a imagem da mãe ainda no portão quando Ele saíra pela manhã. Como ela estaria ou teria passado o dia? Sentiu-se culpado, mas afastou de si o pensamento ao fazer como o adolescente que amava ao jogar a cabeça para trás quando o coletivo passou sobre a poça d’água quase a acertá-lo... Calou-se com uma pequena saudade e subiu no ônibus com destino a periferia.

O inferno são os outros, pensou. O inferno era o seu Outro que lhe mostrou o quanto era frágil e vazio. Tinha essa certeza quase clichê, quase viva, quase comum. Doía-lhe reconhecer o quanto precisava respirar ao lado do Outro, o quanto ainda estava preso à gaiola que construíra por sua própria escolha... foi Ele que o buscou e o encontrou. Fora Ele, em sua necessidade de atenção, que interpretou no Outro um sinal que nunca existiu: nunca foi amado por ele! Nunca havia existido para ele que, perdido em suas venturas, era disputado pelo seres que habitavam a noite da metrópole.

Questionou-se o quanto estava sozinho e o quanto esse tempo o havia mudado profundamente. Dependia do Outro para ter sua alegria, ter sua tristeza, ter sua dor... o Outro havia se tornado Ele mesmo. Ele mesmo. A mesma vida. A mesma alma. Como eram felizes os loucos e eram livres os bêbados. Como eram livres! Ele odiava perceber que não era livre, que não tinha em si mais do que os anos que passaram sem que Ele soubesse onde estava. Odiava reconhecer a consciência de quem era e saber que Ele era o seu próprio inferno.

Em casa acenou à sua mãe e fora direto ao quarto. A velha recolheu-se resignada: não reconhecia seu menino! Ele encontrou sua pequena caixa de fotografias e com uma angústia quase doce reviu os momentos de que se havia esquecido... olhou seus sobrinhos, seu pai falecido no inverno e os filhos que teve quando casado. Prometeu a si mesmo que voltaria a vê-los, que ligaria para saber como estavam e se esqueceria do tempo em que esteve longe.

Ele nunca achou que os homens pudessem ser diferentes até conhecer o Outro. Ele achava que os homens eram como Ele e as mulheres como a que tinha para viver. Acreditava que o comum era a realidade plena e desconhecia a maldade com que o mundo impunha suas regras. Ingênuo. Conheceu da maldade e percebeu que ela vinha de seu íntimo, de quem era ao buscar o Outro naquela tarde fatídica.

De repente, encontrou sentido no que tinha e admirou-se, intimamente, do que não lembrava ser. Não poderia ser livre, mas talvez um pouco de sua essência... Levantou-se em direção ao espelho e tirou dele o tecido negro que o cobria. Olhou-se demoradamente, a admirar seus cabelos grisalhos, as rugas sobre os olhos e as marcas que o tempo – inexorável amigo – lhe impingiu nos anos em que esteve ausente. E enxergou-se como realmente era. Sorriu lentamente naquele ritual de descoberta, a tocar cada parte de seu corpo como se o encontrasse pela primeira vez... amou-se, de repente, quase como um menino que sê vê homem. Recolheu-se, tímido, decidido a chorar pela primeira vez.

Voltou à sua caixa e continuou a olhar cada lembrança que ali havia. Por um momento reviu o Outro e para sempre o afastou de si. Abriu suas janelas, mesmo na madrugada, e todos os armários. De repente viu-se em um outro lugar e mesmo sua aparência era diferente. De repente estava quase nu, a dançar no meio do cômodo em uma alegria muda que também desconhecia: estava louco! Acendeu todas as luzes e tirou as roupas dos sacos. Descobriu a cada canto do seu quarto em uma busca fremente, ávido por manifestar um sentido naquele pequeno mundo que se criava...! Continuou até o amanhecer quando, exausto, se deixou dormir.

Ao acordar em nada se parecia com o aspecto senil da noite anterior, sentia-se livre e pleno com sua pequena caixa, à cabeceira da cama, iluminada por uma fenda de sol que entrava pela janela. Sentia-se jovem sem que se parecesse com o Outro, o pequeno pássaro em uma gaiola de ouro... sentia-se jovem e sem os grilhões com que Ele próprio aprisionava o Outro.

Desceu e beijou suave o rosto de sua mãe. A velha assustou-se e, mais uma vez, preferiu se calar. Ele se banhou e ganhou à rua que nunca pareceu tão bela para uma segunda feira. Foi trabalhar e percebeu que o tempo continuava – inexorável amigo – sem lhe dar tempo de ser mais do que comum... o tempo continuava... e o Outro, ah, o Outro...

Thursday, June 15, 2006

O Canto de Ossanha

Leôncio nunca esteve certo sobre sua idade, recolher latinhas dos restos de lixo fazia-o tão indigente quanto aquele que as jogava nas ruas. Às vezes perdia seu próprio nome, entre buzinas e gritos de motoristas apressados que trombavam em seu carrinho humilde, abarrotado de papelão e com um velho rádio que sempre tocava a mesma estação. Quando havia sol, armava-se de óculos escuros. Na chuva, cobria os pés descalços com pedaços de sacolas de mercado e barbantes como cadarços. Era assim: um ser oculto que transitava pelos caminhos paulistanos, totalmente à margem de quem o via e não o percebia entre aquilo que já não mais servia.

Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber.

Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo sofria de bronquite desde a adolescência, o que diziam os vizinhos ser por uma paixão mal resolvida que teve há muitos anos. Gerusa jurava que ainda conquistaria o pobre homem... E foi em uma dessas crises que ele, enfim, encontrou sua natureza. Enquanto Gerusa achava que um bom passe de caboclo poderia limpar o pulmão de seu futuro amado, durante o culto no terreiro ela percebeu que nunca o tinha conhecido...

Sentaram-se nos bancos de madeira que, ordenadamente, estavam colocados pelo salão. Encolheram-se em um cantinho, em silêncio, a aguardar o início dos trabalhos. Ele, nas mãos, trazia apenas os calos de sua luta diária. Ela, o rosário ganho de sua avó durante a primeira comunhão. De repente o som dos atabaques invade o salão, seguido de palmas e de um canto alegre a ritmar uma dança viva, que se inicia lentamente e ganha corpo na medida em que todos se envolvem... Gerusa sorri e olha para Leôncio, que permanece de olhos fechados, como a acompanhar na mente o ritmo frenético dos negros que tocavam!

Sem que ela entendesse, Leôncio, de súbito, solta um grito como ave de rapina e começa a rir ironicamente, a gesticular como se abrisse caminho entre matas e a se envolver em uma dança retumbante pulando com um pé só... balança a cabeça enquanto dança, dança e dança em um transe profundo, como se encontrasse consigo mesmo, como se enxergasse, finalmente, a sua verdadeira majestade, sua plena natureza entre os ritos sagrados que se estabeleciam diante de seus olhos naquele terreiro... Gerusa se assusta, vê transformado seu querido e meigo Leôncio em um rosto duro carregado pelos anos e forças das folhas!

Todos abrem espaço e saúdam o Orixá: Ossanha descera como benção e o terreiro festeja com um som mais intenso de atabaques, corpos se contorcem jubilantes diante da visão faceira daquele que é o dono da cura. Os risos se expandem e Gerusa, assustada, chora pela androginia daquele novo ser que agora celebra a sua liberdade. Os cantos se alastram ainda mais e muitas velas são apagadas, como se um vento soprasse por todo o templo e trouxesse a imagem das matas antigas, onde Ossanha reinava ao lado de seu amado Oxossi!

Leôncio perde-se novamente sem nome ou identidade. Perde-se daquelas ruas onde indigente se entrança pelos becos a procura de material para seu mínimo sustento. Perde-se de sua bronquite e de sua paixão mal resolvida... perde-se, completamente, de si mesmo para tornar-se aquele que com canto de ave de rapina abre e confirma a força do lugar. Longe dos ares plebeus e dos matizes de carros e buzinas, Leôncio está alheio à sua anterior insignificância, pois deixa de ser parte de uma massa silenciosa para ter referência em seu brado, em seu fumo enrolado e suas ervas aromáticas... assim torna-se majestade, dono do destino de quem o busca e senhor dos que o servem. Não mais Leôncio amado por Gerusa, mas o senhor dos caminhos: Ossanha!

Monday, April 24, 2006

Vaga Lume - Parte II

Era apenas impressão, não tinha certeza. Nada sabia e sobre nada tinha certeza, tinha apenas a impressão do mesmo jeans rasgado e velho sobre a cadeira, da camiseta regata de cor escura e dos sapatos do outono. Não se lembrava da noite anterior e, tampouco, imaginava o quão distante estava do outono, das estações e de tudo quanto vivera. Até se perguntava se já havia vivido, mas não tinha resposta, era preciso que se descobrisse para imaginar se poderia algo descobrir... E era sempre assim que encontrava as piores respostas!

Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica em sociedade. Odiava o anonimato e mantinha-se sempre nele, não conseguia estabelecer vínculos com quem quer que fosse e isto o maltratava como nunca.

Lembrou-se de alguém distante, queria que estivesse por perto, para que em um abraço se sentisse mais humano. Pensou em ligar, em se mostrar vivo, em dar um sinal qualquer que lhe indicasse humanidade. Lucius já não era humano, não se sentia humano e ainda tinha aquela sua diferença a incomodar.

Viu parte de um vulto ao tentar se levantar da cama: deu um pulo súbito, desequilibrou-se e buscou apoio naquela cortina de cor carne do lugar onde estava. Tinha de ir embora, não sabia para onde e porque, mas deveria ir. Vestiu-se avidamente e desceu as escadas com uma euforia que já não sentia há tempos. Ganhou à rua, à multidão. Viu a moça de vestido amarelo que espantava os cães e pensou ter visto novamente o vulto, mas era apenas impressão. Esfregou as mãos na boca para limpar o resto de coisa qualquer da noite e cumprimentou a moça com um sorriso tão amarelo quanto seu vestido. Teve medo, e passou a caminhar de cabeça baixa, como se buscasse por um resto de ordem em seus pensamentos. Sabia que algo nascia em seu íntimo e se assustava: estaria farto de suas venturas errantes e de seus brados funestos pelos becos? Talvez farto de companhias itinerantes?

O vulto ainda seguia seus passos, cada vez mais o sentia próximo, como fantasma, como algo que vagava ao seu lado em semelhança... desconhecia quem fosse! Seria apenas impressão? Seu jeans velho e desbotado estaria a lhe cobrir sua impressão ou sua humanidade? Sua semente morta era apenas impressão? Seria seu vulto apenas a impressão de uma mudança? Lucius não saberia responder ao que questionava...

Parou sobre o viaduto, hesitou por um instante em cair. Seu corpo negro e esquálido cairia com a mesma velocidade da folha da árvore ao lado? Lembrou-se do outono e de seus sapatos surrados. Quis estar morto, desejou ardentemente cair e não mais embalar as fantasias estúpidas da noite. Novamente o vulto. Lucius hesitou. Parou, observou o vulto e o distinguiu, ele o conhecia.

Ainda olhou para o viaduto pela derradeira vez, antes de tomar o vulto pela mão e seguir seu trajeto pela praça. Via-se um sol tímido e ouviam-se as crianças que corriam por motivo qualquer. Não era apenas impressão, estaria vivo agora como humano...

Friday, April 14, 2006

O peru e a cigana

Nunca tinha pensado em quanto tempo passamos a comer ou a pensar em lembranças distantes. Como mulher, sinto meus dias cheios e os pensamentos fogem da lógica do cotidiano. Ontem, mal havia acordado, deixei as camas de meu apartamento penduradas no varal e desci ao açougue para comprar osso buco para o almoço. Ele não viria comer em casa, mas eu estava em uma manhã totalmente feliz. Uma alegria quase estranha, quase verde. Uma alegria capaz de dizer às flores de meu prédio o quanto as amo, ainda que não possam retribuir meu sentimento da mesma forma. Era uma sensação de plenitude por si, de existir por si. Mesmo sem que houvesse alguém por perto para me dizer que eu existia.

Entrei e pedi por uma peça pequena, pois estaria sozinha para o almoço. O moço, cansado, devolveu-me um sorriso amarelo e enigmático, como se não entendesse o que faria com ossos. Seus olhos penetravam-me a pele e corei ao perceber que ele não conseguiria perceber. Talvez lhe faltasse informação, por isso não me importei. Saí a assoviar e coloquei uma margarida nos cabelos: gosto de deixá-los soltos no verão. Quando pequena, minha tia sempre dizia que aos moços devemos saudar timidamente para que não nos achem assanhadas demais. Lembrei-me de titia e assoviei ainda mais alto, quase saltitante de volta ao lar onde eu seria gente grande!

Passei na banca e comprei uma nova revista. Continuei meu pequeno trote até em casa e ainda deu tempo de pegar uma receita na TV para o final de semana. Estaria com minha cunhada para uma pequena recepção. Ela, feliz com o nascimento de seu primeiro filho, distribuía mais do que sorrisos: estava mais disposta, mais mulher. Lembrei-me de quando se casou e, na noite de núpcias, jogou um vaso em meu irmão quando ele chegou bêbado da rua. Ela era terrível, mas se fazia respeitar. Eram felizes nesses anos que estavam juntos e aos poucos se descobriam. Meu marido os achava barulhentos, mas havia amor entre eles e isso, a mim, bastava!

Na sexta passada eu resolvi tirar da geladeira aquela coxa de peru que comprei para o Natal. Decidi que era para celebrar minha véspera de sábado. Fiz com gosto: depois de temperar com alecrim e alho poró, deixei-a no forno por pouco mais de 2 horas e assim, com uma taça de vinho tinto, fiz um brinde à solidão do dia. Ele estava fora, como sempre, e eu me perdia em minhas idéias de dona de casa e família. Vinham sempre à mente as experiências mais estranhas que tive, as pessoas com quem conversei sem notar a existência... É estranha essa sensação de culpa que temos após ter comido tanto, por isso viajamos em idéias que tínhamos quando jovens... foi apenas uma simples coxa de peru acompanhada de arroz branco, salada e um boa sobremesa de abóbora com coco: já vi que meu natal será sem peru e oxalá sem que ele esteja em casa. Não importa, vou a Minas e passo com minha cunhada barulhenta.

Só sei que, depois da feita, desci para caminhar e terminei por me encontrar com uma cigana na praça. Ela me parou e pediu qualquer coisa para saciar sua fome. Ela tinha dedos compridos e unhas esmaltadas em preto. Tive medo e me assustei com as bijuterias que lhe cobriam o corpo macilento, sua pele escarrada pelas mentiras que o tempo lhe impunha aos ombros. Não sei exatamente que tipo de lembrança me tinha vindo à mente, mas o peru dentro de mim deus sinais de que precisaria sair a qualquer custo!

Ela se aproximou de mim e disse uma palavra qualquer no ritual que só ela mesmo entendia. Sorri. Mas em vias do incômodo, foi um sorriso sarcástico, irônico e tímido. Fingi que compreendia seu dialeto e ignorei seu cheiro. Lembrei-me do meu peru e voltei a caminhar com pressa para evitar um acidente antes de chegar a minha casa... Será que ele chegaria, finalmente?

Tuesday, March 21, 2006

A Cabrita Inês

Era Chico. Simples assim: Seu Chico. Um senhor de baixa estatura, gordinho e sorridente que morava pelos arredores da São João com seu amigo Osvaldo. Eram muito conhecidos pelos arredores, pelo jogo do bicho que traziam como distração ou pelas histórias da época em que foram arrolados na Guerra do Paraguai. Osvaldo era mais alto, sisudo com seu bigode e cabeleiras cinza. Sempre dizia de sua família no Paraná, para onde voltaria se conseguisse a sorte grande na milhar. Um dia desses ainda acertaria e mudaria seu destino. A cidade era pacata, aconchegante e sem muitas emoções em seu cotidiano. Embora com o nome de Brisas Suaves em Tupi Guarani, eram as altas temperaturas do verão que a caracterizavam.

O fato acontecera há cerca de dois anos, em meados de setembro. Tudo começou com um pagamento inusitado que Seu Osvaldo recebera por ter acertado na milhar da federal: uma pequena cabrita. Não é preciso dizer o quanto isso o deixou louco, já que sonhava com o dinheiro que lhe devolveria ao Paraná. Entrou em casa frustrado, quase a afastar os que lá foram para receber a benzedura de Seu Chico. Resmungou durante horas, irritado com a situação e sem saber o que fazer com uma filhote de cabra na cidade. Seu Chico tentou animá-lo, disse que poderiam vendê-la em Boa Vista dos Andradas ou simplesmente tomar-lhe conta já que ainda não tinham filhos. Com muito custo, resolveram por criá-la: deram-lhe o nome de Inês!

Inês cresceu saudável e corria pela casa como um ser humano. Era dócil, mansa e muito amiga das crianças que iam ao Seu Chico, levadas pelas mães para eliminar quebrantes e vento virado. Quase não a viam como um animal, tamanho envolvimento tinham pelos seus “bééés” que enchiam toda casa de vida. Seu Osvaldo mudou-se para o quarto da frente, junto com Seu Chico, e deixaram o quartinho dos fundos para cabra. Davam-lhe arroz, batatas e algumas outras verduras ricas em cálcio: diziam que era para que seu leite fosse bom e os ovos fartos. Um dia sozinho em casa, perdido em seus pensamentos e a fumaça de seu cachimbo, eis que Seu Chico escuta Inês reclamar de alguma coisa. Não, não era um festival de “bééés” que se fizeram ouvidos, mas alaridos altos de palavras em um português claro! O velho quase morreu de susto e mal Osvaldo adentrou pelo portão já gritou ao amigo que a cabra era abençoada por Oxossi.

Invadidos por uma alegria sem igual, foram ao quarto de Inês e a encontraram em um canto, olhando a ambos com um sorriso irônico de quem se diverte com a ignorância alheia. Do sorriso a gargalhada, a cabra se expunha em idéias de alto nível e teorias sobre o que nunca ouviram falar. Abobados pelo transe das palavras, imaginavam o quanto poderiam ganhar com a maravilha quando, de repente, Inês pára e se recolhe aos “bééés” que estavam acostumados: alguém batera na porta da frente. A cabrita não falaria com estranhos!

Durante um tempo imaginaram o que fazer com Inês; talvez fosse finalmente o caminho para que seus dias de penúria ficassem no passado e a vida valesse alguma coisa. Mas a cabra não falava com estranhos. Pensavam em registrar a conversa em um gravador de mão, mas temiam que fossem desacreditados. E a cabra falava sobre tudo, contava sobre todos e sabia sobre a vida de quem quer que morasse no vilarejo. De certa forma os dias passaram a ser agitados, pois quando não havia filas às benzeduras de Seu Chico, esgotavam o tempo com as histórias mais engraçadas sobre a população. Divertiam em segredo, já que talvez ninguém nunca acreditasse que Inês de fato conversasse com eles.

Mas a lua de mel encerrara-se em alguns meses: não tinha sentido de continuar. De repente a cabra deixou de ser um animal para tomar parte da família. Ela deixou de ser cabra, deixou de ter um sentido claro para existir. Não produzia o leite e seus ovos eram poucos. Apesar das opiniões e observações, a cabra tornou-se um animal inútil e improdutivo. Chico e Osvaldo hesitaram e temeram ser uma ofensa a Oxossi. Blasfemariam em achá-la inútil? Talvez nunca mais acertassem uma milhar no jogo do bicho! De certa forma amavam Inês, mas não conseguiriam manter a situação de um animal falante e improdutivo. Pensaram em uma saída e a única que encontraram foi sacrificar Inês para comerem de sua carne no natal.

Simplesmente Ordinário

Risível: era assim que classificaria Bernardo! Ele estava distante, cheio de uma soberba que lhe era própria e em busca de uma simplicidade que nunca existiu. Ele estava só, mas acreditava que em paz. Na verdade, ele era portador de uma civilidade cínica e contumaz!

Retirou sua capa e resolveu caminhar. Desceu. Lembrou-se do tempo em que nada sabia e assim poderia imiscuir-se à multidão de forma negligente, como parte dela. Hoje, com seus 20 anos, mesmo que seus olhos revelassem o turbilhão de seus pensamentos, os seus gestos denotavam que não pertenceria à massa. E sabia disso!

Entrou em um canto qualquer e em poucos minutos, avidamente, encontrou-se com uma boca para lhe injetar suas pérfidas sensações de distância e solidão. No escuro e ao som de uma música qualquer, exaltou Eros e entregou-se à luxúria. Por um momento, esqueceu-se de seu nome para, em euforia, despir-se dos conceitos de classe e entregar-se ao comum.

Ao final da dança, perguntou-lhe o nome e a convidou para um refrigerante barato, ali mesmo na boate. Ela se revelou através de um apelido estranho, o que lhe fez pensar que seu nome seria Antonia. Ela lhe contou sobre sua infância pobre em Recife e, ao pedir um guaraná no balcão, ela lhe confessou ser ainda feliz. Trouxera em sua bolsa alguns amendoins que vieram dos trens, comeu-os com o guaraná que comprara e deixou-se rir para que ele contemplasse seus dentes que não eram belos. Ela, Antonia, gostava de coisas simples como a gente com quem convivia naquele espaço.

Saíram. Procuraram por um bar onde teriam um pouco mais de silêncio. Sentaram-se novamente. Ela se calou e o incumbiu de pedir algo para ambos. Bernardo quis pizza, mas a garçonete, pouco habituada à educação que ele exalara, não lhe trouxe. Tomou um suco e ela, Antonia, sorria ao lhe dizer que adorava seu trabalho de faxineira, embora sonhasse em ser jornalista... Quando questionada sobre o que lia, ela, orgulhosa, respondera que era uma grande conhecedora de horóscopo e muito já havia aprendido sobre as palavras... Ele se calou!

Por um momento ele teve dúvidas sobre quem era e o que tinha pela frente. Questionou sua própria ambição, seu crescimento e tudo o quanto vivia. Questionou seu destino e por onde andaria quando o encontrasse. Questionou, sobretudo, o que fazia com Antonia! Levantaram-se ambos, após um tempo ou dois, a partir. Ela o censurava, ao dizer-lhe que não deveria ambicionar tanto da vida. Dizia que a alegria era o agora, sem se entristecer pelo que não tem...

Talvez Bernardo aprenda muito com Antonia. Talvez ele a leve ao teatro ou lhe ensine como manejar os talheres ao comer. Talvez ainda se deixe envolver e seja simplesmente ordinário, ao perder essa arrogância que faz dele um ser pensante! Não seria essa noite, todavia. Bernardo voltaria sua andança e retornaria, em sua civilidade cínica e contumaz!

Kajal e Tertúlia

Não é tão simples assim me lembrar de Mariana. Dentro de mim ainda paira a força de seu olhar, a saudade de como éramos quando juntos e de tudo o que vivíamos em nosso esforço diário para sermos apenas comuns. Nunca fomos e por isso tudo era contra nós. Hoje quando passo de ônibus pela Avenida da Saudade, vejo ainda o velho cemitério onde a encontrei em êxtase em uma noite de lua cheia, completamente ensandecida e correndo pelos túmulos. Eu vi aquele vulto branco pular sobre as lápides frias e rir descaradamente como se possuída por uma força maior, uma força que lhe arrebatava o senso e a razão para lhe despejar felicidade... nua e totalmente molhada pela chuva, Mariana tinha os olhos muito abertos, cheios de um sentimento que anos depois saberia vir das drogas que usava para ficar lúcida. Sua lucidez era uma grande ironia, o que todos chamavam loucura.

O ônibus continua seu trajeto e vira próximo ao asilo Vicente de Paula, a continuar seu percurso em direção ao bairro Matarazzo. Em alguns minutos estarei em casa e minha esposa me saudará com um beijo, me perguntará sobre o dia e comeremos algo que ela fez durante a tarde após ter aprendido no programa de culinária. Não sei ainda se amo minha mulher ou se me acostumei com ela. Acho que me acostumei com sua presença quase imperceptível, seu andar sutil e seu jeito doce de me implorar por amor. Nesse momento ela me faz odiar a mim mesmo por meus pensamentos irem até Mariana: a louca que mordia meus lábios e me exigia sobre ela como prova de minha animalidade. Ao lado dela me sentia vivo, me sentia humano e profano. Ao seu lado tornei-me notívago e fui invadido pela mesma alegria que fluía por seus poros, quando éramos inseparáveis pelo nosso desejo de viver em intensidade. E vivíamos, sobretudo.

Desço no ponto próximo a antiga Algodoeira e logo avisto minha esposa ao portão. Ela sorri displicentemente e meus dois pequenos correm ao meu encontro, agitados e embalados pela inocência da infância. Uma inocência bela de quem ignora a maldade ou mundo... simplesmente inocência! Eles se entrelaçam em mim e caminhamos sorridentes a saudar os vizinhos e a ouvir com atropelos das histórias da escola, das frutas roubadas ou dos doces que puderam ser consumidos antes de jantar. Ao chegar ao portão minha esposa ri e diz para que se lavem para jantar. Beija-me suavemente nos lábios, diz algo de rotina e me avisa sobre uma carta que chegou de Santos com um nome estranho que não conseguiu entender. Na hora fico pálido e minhas pernas tremem fora do meu controle. À mente apenas um nome passou a me ocupar os pensamentos... não poderia ser! Após dez anos na obscuridade. Sem notícias. Sem... eu sabia que ainda... Mariana!

Disfarço, pego o envelope e saio na desculpa de me trocar para jantar. A mesma caligrafia e o mesmo código no remetente. Seco. Um envelope pardo, escuro, sem capricho. Ela sempre odiou ser comum, embora buscasse isso a todo momento. Odiava as aparências. Odiava ser percebida. No primeiro jantar que fizemos juntos, quando ela abaixou os olhos por um momento, eu tive a certeza de que a amaria até o final dos dias. Ela era intensa, reconhecia em mim o que em mim eu mesmo não encontrava. Com ela eu era apenas homem, não marido, pai, membro de associação. Era apenas um homem que amava uma mulher e estava com ela!

Sua carta era simples e breve: “vou para Madrid com nosso filho, preciso que assine o documento e me devolva o quanto antes!”. Sem emoções. Sem aquela tertúlia de que partilhávamos nas tardes, nas manhãs em que às margens do São José fumávamos baseado e prometíamos sermos eternos. Ali, em uma única linha, todo o passado tornava-se passado, uma página que não mais estaria na memória. Mariana... como um sonho adolescente deixado para trás! Mesmo o filho que carregava meu nome perdia-se naquela distância... Não mais seus lábios enegrecidos por kajal, não mais as idas ao bosque ou os poemas soturnos de que partilhávamos. Uma folha de papel, apenas!

Assinei. Fechei o envelope e sequei um resto de suor que me descia pelo rosto. Troquei minhas roupas e desci para jantar com minha família, embora em mim, ainda, sempre haveria o toque... Mariana!

Wednesday, March 01, 2006

A alegria camarada...

Deixou-se embalar na melodia. Talvez pudesse reconhecer mais rostos se a fumaça se dissipasse. Veria os cúmplices da noite, velhos e novos conhecidos. Abraçaria a todos os que estavam presentes com certo desejo, disfarçando, ao máximo, o que todos conheciam... E tudo era permitido naquela noite, a população da outra margem se cegaria em busca da alegria que envolve os camaradas... todos os camaradas!

Alguém se lembraria de beber algo. Ele se lembrou de procurar por alguém especial. Mas estava sozinho. A banda continuava embalando os foliões. Corpos sem rostos que se despiam de todos os pudores em busca do contato efêmero. A banda. Ele se perdeu na multidão. Misturou-se àqueles que o condenavam. Era o Outro. Apenas o Outro.

Riu mostrando seus dentes brancos e fez uma cara patética, ao acompanhar alguém que lhe envolvia a cintura. Já pertencia àquela festa. Já era ele a própria festa... e as dores... e os medos... e parte dos foliões que se procuravam... a alegria... a intrigante e desconhecida - porém sempre vivida - alegria camarada!

Alguns sucessos antigos envolveram o salão. Uns cantavam, pulavam ou olhavam, vez ou outra, para companhia. A fumaça dissipou-se - ou ele aprendeu olhar através dela - e ele viu conhecidos de outras épocas. Cumprimentou-os. Tocou-lhes a nuca, a face e o peito. Não havia resistência, todos aceitariam e se tocariam, naquela noite. Se estavam em busca de seu segredo, deu-lhes a cumplicidade. Roubou-lhes, mesmo que por meros instantes, a sensualidade que escondiam durante o dia. Buscavam a identidade e a encontravam... As horas se passariam, talvez ao raiar do dia terminasse a magia. Mas não naquele momento, não naqueles míseros instantes da realização do que todos dividiam – e desconheciam!

A banda parou para um breve intervalo. Os corpos se aglomerariam pelo chão em busca de um breve silêncio, ou da continuidade do sonho. Ele reconheceu alguém que procurou há alguns anos. Ainda se lembrou. Aproximou-se. Cumprimentou da mesma forma, tocando-se o peito, a face e a nuca - agora em nova ordem. Lançou um breve olhar pelo seu corpo avaliando uma possível companhia após a noite – pegaria o carro e iria a outro lugar? Sentou-se e conversaram sobre assuntos que não pertenciam ao ambiente. Breves assuntos que demonstrariam que, certamente, ele estava sozinho. Partiu.

A banda encerrou o intervalo. Teve sede e foi beber um pouco mais de água. Quis refrigerante e o tomou. A fumaça intensificou-se. Percebeu que havia figuras femininas, por detrás de um telão. Percebeu que elas estavam pelo salão. Por todo o salão. Não somente nos corpos camaradas... E a folia continuava... ele continuava... a magia... a possibilidade de um encontro... o encontro que o tornaria mais que o Outro.

Pudesse se perder na festa e o faria. Não obstante o medo tomou seu corpo. Lembrou-se do julgamento vil feito pelos homens. Temeu-o. Quis então fugir, esquecer do que sentia e procurar um novo abrigo... a noite terminaria. Talvez alguns conseguissem a celebração camarada. A alegria camarada e o amor camarada... mas não ele, naquela noite.

Tuesday, February 21, 2006

Café com creme e croissant de manteiga

Não tenho certeza de quando comecei a amá-la. Mesmo antes de conhecê-la já a tinha em um amor único dentro de mim. Era como se eu mesmo não existisse antes de descobrir que a amava, como se não me pudesse considerar um ser. E tudo há de se ter uma definição clara, uma idéia de existência, de ser. Amar Hélène era minha idéia de ser, um fim em si, não um meio. Eu tinha uma certeza em si, uma certeza de que havia um motivo para sobreviver e viver.

Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol nunca me havia aquecido tanto e a Champs-Elysée ao fundo nunca demonstrou tamanho fulgor: Hélène tinha luz. Senti-me ofuscado e, por um instante, percebi-me pequeno com meu charuto e a edição do Le Monde do dia anterior. Foi naquele instante, em uma manhã junina, clara pelo seu jeito infantil de receber o pequeno pão solicitado, que eu percebi amá-la e sabia que a amaria até o resto de meus dias.

Estava atrasado, mas não pude me levantar. Queria me esquecer de pegar TGV e do retorno à vida que levava no escritório, às piadas dos amigos e às incertezas de que o dia seria o suficiente a tudo que havia de fazer. Depois retornaria ao apartamento vazio, cuidaria de meu peixe e colocaria meu gato para dormir. Fui arrebatado de volta à realidade com o toque insistente de meu telefone. Não atendi. Olhei para o relógio e percebi que era hora de partir. Olhei uma vez mais a figura de Hélène. Ela repousou sua xícara e levantou os olhos.

De repente vejo uma garota que se aproximou com um olhar triste. Senti-me tomado por uma força maior e me comovi com a indigente: vi seus delicados pés marcados pela miséria e senti o cheiro de seu abandono. Ela tinha a pele coberta por uma fina camada de poeira, daquela das periferias de Paris onde os migrantes se perdem. Por um minuto meus olhos encheram-se de uma angústia acre. Um minuto que durou a eternidade, pois me veio à lembrança quando me aportei no cais vindo da Sicilia, das viajantes que tinham seus filhos nos braços e a esperança nos olhos. As tropas vivas de gente que se misturavam entre línguas irmãs e desconhecidas. Sentia-me perdido, desconhecido. Abraçado à minha mãe com um choro tímido de medo. E agora reconhecia-me a mim mesmo naquela pequena pobre que se aproximava de Hélène: via-me como o mesmo menino assustado, perdido diante da esperança com o sol quente a me ofuscar a vista!

Hélène a deixou aproximar-se e tomou-lhe as mãos. Pediu que se sentasse, e ordenou que lhe servissem o que comer. A criança debruçou-se sobre o seu ombro e se deixou chorar. Hélène a envolveu em um abraço e vi em seus olhos a própria felicidade. A garota alimentou-se fartamente e, agradecida, partiu. Eu sabia que a essa altura já havia perdido o TGV e não chegaria a tempo ao escritório. Não me importei. Estava deveras emocionado com Hélène e comovido com seu gesto. Amei-a ainda mais, mesmo sem conhecê-la.

Levantei-me disposto a abordá-la, já que fazia menção de retirar-se após acertado a comanda. Sentia em meu âmago um misto sabor de Troie e a Sicilia de minha mãe pareceu-me próxima. Fechei o Le Monde abandonado em minha mesa, apaguei o resto de charuto e dirigi-me, hesitante, em sua direção. Não sabia o que lhe dizer, senão que simplesmente a amava. A alguns passos parei. A cena que vi nunca mais saiu de minha retina: ela se levantou tímida e logo uma doce voz a chamou pelo nome. Uma canção feminina, sutil e de longos cachos dourados se aproximou de minha Hélène. Ela lhe tocou os lábios com intimidade e com ternura a envolveu em um abraço. Parei estático. Voltei e apanhei meu Le Monde: ainda pegaria o TGV para retornar à minha vida, ao meu trabalho, ao meu peixe e ao meu gato. Nos lábios um sabor estranho de café com creme e croissant de manteiga... ainda amaria Hélène!

Tuesday, February 14, 2006

Almoço

Encontraram-se em um café. Mal se reconheceram, pois há tempos não se viam. Não sabiam ao certo o porquê do encontro, apenas lá estavam. Sem máscaras. Sem desculpas pelo tempo ou horário. Não quiseram uma mesa, sairiam para um almoço. Era tempo de almoço. Acharam um local afastado onde não seriam reconhecidos. Temiam serem reconhecidos. E é assim que deveria ser: no anonimato do dia, entre a multidão sem rosto que caminhava no mesmo espaço físico.

Não pronunciariam seus nomes. Encontraram a cantina. Pararam. Entraram e pediram por uma mesa afastada, tranqüila e longe de suspeitas. Não deveriam ter consciência de quem eram. Tudo que envolvesse consciência ou razão daria fim ao encanto. Ao encontro. Pediram por massas, carne vermelha e sucos tropicais. Ainda tinham a mesma afinidade. Discutiram sobre amenidades, novelas, filmes e filhos. Falavam de forma comum e transigente. Como indigentes, como adúlteros!

Aos poucos as pessoas se aproximavam para compartilharem seus almoços. Aos poucos a casa se tornou cheia, com filas e pratos que se transbordavam de comida. Nem todos eram educados o suficiente para manejar os talheres sem aquele barulho ou para ao menos evitar que os pratos se parecessem com troféus de final de dia. Evitavam os olhares. Sentiam-se culpados. Todo aquele presente os remetia ao passado, onde palavras e sentimentos recolhiam-se sem precedentes. Não haveria precedentes pois tudo acontecia naquele momento. Retornavam ao que tinham. Ao que eram e representavam. Às máculas. Às mágoas. Às intermináveis discussões e promessas de mudança. E os pratos barulhentos. As mastigadas de boca aberta. As garfadas que transbordavam...

Já não tinham a mesma serenidade. Perdiam as máscaras a medida em que se saciavam. Seus olhos retomavam o rancor. Não, não eram perfeitos. Não tinham de ser perfeitos. Os humanos, quando juntos, descobrem que não são perfeitos! O encontro era um erro. Deveriam ter feito a despedida no café. Os cabelos dela estavam mais curtos e seus olhos menos tristes. As mãos dele estavam geladas. Deveriam partir... mas as massas, a multidão, os talheres...

Levantaram-se e ganharam a rua. Não tinham a mesma intimidade, aliás, perceberam que nunca houve intimidade. Não se conheciam, mas se descobriam e agora, finalmente, se reconheciam. Eram anônimos sem saber. Moravam na mesma casa. Tinham o mesmo casamento. Eram a chacota dos vizinhos: adúlteros de si mesmos. Fingiam sob o mesmo teto e encontravam-se tomados pelos instintos mais ínfimos e plenos. Como se fossem estranhos. Estranhos na culpa, nos odores das ruas. Caminhavam mudos emudecidos por um desejo confuso. Não olhavam os carros ou fumaça dos carros. Nem os mendigos que suplicavam por míseras moedas ou as crianças que cheiravam cola. Pararam sobre o viaduto e se olharam uma vez mais. Seria o fim. Precisavam voltar. Ainda que fosse para a mesma casa sem que soubessem.

O encontro não deveria ter ocorrido. As emoções que foram despertadas. Um para cada lado. Pararam. Viraram e se olharam. Separados apenas alguns metros. Apenas alguns anos. Apenas algumas mentiras e desculpas esfarrapadas. Lembravam-se dos filhos dos outros e de seus próprios filhos. Caminharam mais alguns passos e novamente olharam para trás. O almoço... o mendigo... a cola... Deveriam voltar: aos seus lares e às suas vidas. Aos seus filhos. Às suas novelas e vizinhos. Hesitam e retornam: ficam juntos um ao outro e bem próximos não iriam mais dizer uma palavra sequer. Juntos. Deram-se as mãos e foram passo a passo... o hotel estava próximo e não precisariam de palavras. A praça a luz do dia. A multidão sem rosto na ponte... se conheceriam, enfim. Ou mesmo se amariam, enfim!

Wednesday, February 08, 2006

Vaga Lume - Parte I

Lucius estava a vagar pela noite e observava a compenetração entre o sagrado e o profano: pessoas que se drogavam em frenesi e prostitutas se ofereciam por dez reais. Sentiu-se amargo quando ouviu, ao longe, tiros e arruaças. Os prédios ostentavam a estupidez da sociedade falocêntrica, justapostos, formando uma selva impregnada pelas vibrações de tristeza e dor. Sabia que estava sozinho na busca pelo nada...

Ajustou-se mais dentro da jaqueta. Ao levantar a gola para proteger o pescoço, sentiu o frio bater em seu rosto congelando-o até as entranhas. O odor fétido das poças de lama o engasgava em seu desespero, sua imaginação formava grandes monstros que o perseguiam e bradavam ferozmente em seu íntimo. Sentiu desejo de beber algo qualquer que vomitaria no dia seguinte. Sentiu asco de si mesmo ao perceber o quanto ainda estaria alheio às suas próprias angústias, à sua fome de dias ou meses sem a mínima expectativa de sanativo. Continuou a caminhar na busca de um destino.

Lucius caminhava sem rumo, procurava um meio de descarregar o seu ódio e isentar-se da culpa de ser a peste: sua existência era sua sentença de morte. Tropeçou. Caiu de boca no chão rijo e quase quebrou o resto de seus dentes, sentiu o cheiro da urina dos ratos e o gosto de fezes dos mendigos perdidos. Levantou-se. Seus olhos na face negra ficaram maiores enquanto esbravejava algum palavrão que traria no eco de retorno a briga do casal no prédio à sua esquerda. Parou. Lembrou-se de algo semelhante. Partiu, não se importava.

Estacionou-se, de repente, diante de um bar e reconheceu o ambiente: as mesmas luzes coloridas, as mesmas caras e as mesmas músicas. Entrou. Cumprimentou laconicamente o porteiro e pôs-se logo a procurar por uma presa fácil, precisaria de dinheiro para a corrida até em casa. Pediu uma vodka ao perceber na mesa à sua frente uma branquela a fumar. Exibiu-se. A branquela retribuiu. Cumprimentaram-se estabelecendo o contato dos anjos camaradas: tornaram-se os próprios anjos. Dançaram ao mesmo tempo em que pequenas luzes os iluminavam na pista, pequenos vaga-lumes pelo salão para ostentarem a liberdade de demônios no inferno...

A noite tornava-se cada vez mais densa. Pequeninas luzes cederam lugar à penumbra; não mais jazz ou blues. Agora, somente espasmos contidos e gritos fingidos de um prazer banal. A solidão daria lugar à fantasia, ao efêmero e ao intenso; ao ócio de dias inteiros envolvidos em viagens inócuas ao inconsciente desconhecido; ao consciente nunca encontrado e à consciência perdida em uma infância incerta.

A cidade sobreviveria: sirenes de polícia, badernas, prostitutas de dez reais e crianças pelas ruas. Chovia. Lucius voltaria a caminhar pelas ruas, em busca do mesmo interesse angelical, na procura de maior luz que os vaga-lumes para tirar a tinta de sua angústia, na procura de si mesmo e de sua humanidade, pela noite, pelo nada...


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btw, hoje saiu o resultado da USP... passei!!!!!

Tuesday, January 31, 2006

Neon

Há um vento que entra pelos buracos de minha janela que faz com que eu pense no que vou escrever. É um vento quase frio, quase solitário, quase como uma brisa carente que viaja milhas e milhas para encontrar repouso em um lugar qualquer... Com ele vejo pequenas luzes coloridas ao longe, pessoas perdidas em seus pensamentos, pessoas que sonham com as promessas de um novo começo após as eleições e outras tantas que não entendem que os anos passam, simplesmente.

O néon daquele anúncio do outro lado ilumina a parede de meu quarto: ele tem vida por um instante, quando projeta na tela fria de meu quarto a sombra de seres que habitam a noite metropolitana. A tela fosca pintada de branco, como os fantasmas que vagam, buscam abrigo, sonham e choram livremente! Ah, a metrópole. Um ano mais velha, quase uma senhora que abriga notívagos em seu seio...

Estou bem. Estou tranqüilo, repito a mim mesmo. Como se eu pudesse criar um estado de consciência onde todo o medo que tenho pudesse fugir pelos buracos de minha parede. Minha parede precisa de reformas, meus pensamentos também. Tudo o que tenho em casa está a se tornar velho e meu dinheiro é pouco para que eu troque ou mude tudo de lugar. Deixarei como está, assim posso me achar sem precisar ouvir meus próprios pensamentos. Assim posso escrever sem que tenha que pensar.

Peguei um filme qualquer para me deixar menos sozinho. Diz a garota da locadora que fala sobre os medos, tudo a ver! Sei que não gostarei dele, mas assim mesmo vou assistir, comer pipoca e tomar um leite velho, que deixei na geladeira por quase um mês. Pego novamente o lápis. Preciso escrever. Sei que a luz de néon vai atrapalhar meu programa. Sei que a música dos gritos vai se confundir com os latidos da vizinha, com as blasfêmias dos habitantes das ruas, com tudo o que não é sagrado ou santo... Grande metrópole, eu quase poderia dizer em uma poesia tão culpada por si; mas estou cansado e quero ver meu filme tranqüilo. Fecho a janela e pronto, tenho um novo mundo em meu quarto!

Fico a recordar de quando fiz a última viagem a São Sebastião para rever o mar. Estava bom, sem sol, sem aquele calor tipicamente tostador. Era inverno. Conheci algumas pessoas que nunca mais verei. Conheci alguns amigos de que nunca sentirei falta. Reconheci alguns lugares de que tinha me esquecido... tudo tão belo e estranho, por isso gostei: ir à praia, ver o sol nascer miúdo, escondido. Cinza e nublado. Vi também muitas montanhas a me saudarem de volta. Vi muito verde, muito azul e brinquei muito comigo mesmo. Nada de habitantes esdrúxulos das ruas; apenas um amontoado de carros importados e seres cheios de grana para comprarem garrafinhas de água por cinco reais.

Ontem eu trouxe uma companhia para casa, mas nada aconteceu. Descobri que não consigo pensar em nada senão amor. Gostaria de ter feito amor, mas nada me tira da memória um pássaro que conheci na adolescência. Acho que me apaixonei, depois acho que esqueci, depois acho que nunca soubemos de fato ou nunca entendemos disso. Sinto falta de suas cartas e sua presença, mas ela não se lembra que eu existo. Talvez um dia, a reler um texto qualquer de Sartre ela reveja quem eu fui. Por agora eu preciso voltar e apenas escrever para não perder o hábito...

Tudo passa, não é mesmo?

Wednesday, January 25, 2006

Distante...

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver em seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por estar cega.

Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir.

E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como cera e com a boca torta – entendeu que por isso quase não se comunicava. Tinha orelhas grandes, braços exageradamente compridos e muitas sardas por todo rosto. Riu timidamente para o espelho e limitou-se a reproduzir em um som quase inaudível seu próprio nome: Eveline! Gostou do que ouviu. Repetiu novamente como se somente agora se encontrasse e se admirasse com seus próprios olhos: eram tristes, longínquos, como se possuíssem o segredo da paz que emanava por todo seu ser. Amou-se intensamente nesse momento, percebeu o sentido que existia em seu espírito e compreendeu o significado de sua feiúra, pois era livre.

Em sua liberdade, o mundo lhe pareceu mais ausente por não entender sua diferença. Assim, passou a permanecer horas na janela de seu quarto, de onde se encantava com as cores e os cheiros de Ipanema, os burburinhos das pessoas e, principalmente, da vida comum que tinham. Alegrava-se em vê-las em suas próprias atitudes, em suas próprias vidas. Ria por sentir-se alheia e como em um canto sacro, sua alma exultava a cada pequenino ao longe na praia. Sentia-se ainda mais feia e amada por si. Sentia-se ainda mais presa ao seu silêncio, e era nessa prisão que tinha uma experiência única ao som de sua própria humanidade: sozinha, absoluta e perdidamente feliz.

Retornou ao colégio para concluir o ano letivo. Durante sua cegueira, a tranqüilidade repousava na ignorância de si mesma; mas, agora, ela era absoluta em sua feiúra: as pessoas se afastavam e comentavam em cochichos, sentavam-se longe e não a cumprimentavam. Eveline tinha prazer nesse distanciamento e sentia profundamente por nunca poder lhes ofertar o seu amor ou a luz de seu espírito. Nunca a conheceriam e isso só aumentava o abismo entre ela e o mundo...

Um dia, em seu quarto, chorou pela primeira vez. Assistia ao pôr-do-sol de sua janela e o mar lhe pareceu sublime. Ouviu um canto celeste que, retumbante, invadia todo seu ser. Sentiu-se leve e uma felicidade tomou-lhe o âmago com tal furor que arrancou de si o que lhe restava de humanidade. Virou-se ao espelho e, translúcida, despediu-se pela derradeira vez de seu corpo esquálido e sua boca torta para voar pela janela de seu quarto em direção a luz que a chamava. Abriu suas asas, soltou seu canto e se despediu do mundo, que nunca lhe pareceu tão distante. No horizonte, apenas se ouviu clamar Eveline!

Thursday, January 19, 2006

O céu

Ainda continuo em paz. É uma paz sofrida, quase como uma intempérie que assola minha alma que se dista para sobrevoar paisagens idílicas. Tenho medo dessa paz, em mim. Um medo quase incômodo, quase vivo, quase presente... e é desse quase o meu maior medo! O medo é e, ao mesmo tempo, não é. Alimenta a si mesmo para que se torne um fim em si - e isso, indubitavelmente, me assusta.

Acusam-me de descaso. Acusam-me de petulância por meu pedantismo: não entendem que estou em prece no silêncio, que me comunico com duendes e outras criações imaginárias que fogem de suas conceituações. Quase os incomodo, pois estou presente sem me fazer presente em uma frase qualquer. E a eles eu quase sou...

Inquirem-me sobre leituras e blasfemam com citações de falsa erudição. Vomitam suas filosofias fálicas e, assim, conceituam meu comportamento como discriminação ao que me é estranho... no fundo, eu me sinto no limite entre a bondade e a hipocrisia: sou hipócrita, finalmente, ao sorrir em complacência.

E é este o maior problema: a complacência, o estar em paz, mesmo com a música citadina do trânsito, do alheamento e da mediocridade. E assim permanecer, sem titubear diante desse nada que se sobressai de corpos que desconheço. Tomo meu chá e vejo televisão, como sempre, sem que isso me culpe por estar em paz.

Ontem um menino chegou e me perguntou sobre o céu. Quase lhe respondi que o céu não existia, mas preferi continuar no meu silêncio, como se respondesse que o céu seria o limite quando viesse ao meu canto, para apreciar de mim no santuário de minha loucura...

Wednesday, January 18, 2006

O Menino e a Vela

O menino acendeu a vela e se ajoelhou para rezar, com as mãos unidas em palma, levantadas para o céu. Nada de mais pedia naquela prece, apenas um pouco mais de tempo, apenas o tempo necessário para que fizesse o que sempre desejou.

Quis sair e andar pelas ruas, mas suas pernas estavam frágeis, seu corpo todo pedia pelo descanso merecido. Alguns corpos dormiam empilhados pelo seu quarto e poucos, além de algumas formas pensamento, podiam presenciar o ato de sublimação.

A vela ia a se queimar lentamente, como em um ritual onde o fogo ostentava todo o brilho que saída de seu âmago: o brilho do medo, da ausência, da sutileza de ser singular. E as palavras fluíam na mesma medida, na incerteza da intenção, da fé não inspirada e do tempo que se esvaía...

Ele só precisaria de um tempo, para encontrar o seu desejo!

Os seus joelhos já estavam marcados, suas mãos trêmulas balbuciavam o som inaudível de seus lábios, seus ouvidos procuravam pelo alto, na busca da prece, da oração para o céu.

Finda-se a chama. Seu rosto banhado de lágrimas acompanha, instintivamente, o sono dos corpos pelo seu quarto. Finda-se a sua reza. O menino se levanta. Sorri e sai.

Tinha o tempo agora. Para se estar livre!

Monday, January 09, 2006

Nem precisa...

Ele se chama Ailton e veio do Piauí há alguns anos. Conseguiu o serviço de zelador aqui no prédio e substitui a síndica quando ela não está. Ele é baixo, tem uma barriga enorme e exala um cheiro horrível como se sempre estivesse sem meias.

Não gosto como ele me olha. Parei de cumprimentá-lo e de chamá-lo pelo nome. Refiro-me, quando necessário, como moço, como "ou", como qualquer coisa do gênero... Já cheguei a chamá-lo de "coisinha". Ele não sabe que eu o ignoro, pois não haveria de ter desenvolvido alguma inteligência para tanto. Mas eu não me importo, sinto-me realizado por ignorá-lo e passar como se não existisse.

Ontem eu cheguei e estava completamente transtornado pela linguiça que comi na madrugada. Refiro-me ao alimento, certamente, não ao que imagina ser conotação sexual. Pois bem, estava muito mal que terminei por me esquecer que o ignorava. Cumprimentei-o e o chamei pelo nome. Ele me respondeu com um aceno, sem entender se realmente eu estava ali. Vomitei sobre a calçada, abri a porta e entrei...

Concluí que além de mal cheiro, ele é surdo...

Até logo,

E.

Sunday, January 08, 2006

Palavras, palavras, palavras

Neuci é uma negra gorda que mora no sétimo andar. Faladeira... adora visitar os vizinhos e sempre tem uma receita para passar. Assiste a todos os programas de culinária, depois que aposentara do banco por pressão alta.

Hoje ela estava no portão quando eu cheguei. Chegou das compras cansada, pois está novamente grávida. Ela tem mais de quarenta anos e não entendeu como após a menopausa conseguiria engravidar... eu a ajudei com as compras no elevador. Neuci me olhou agradecida e sorriu, como naquela música de Maysa... “palavras, palavras, palavras”

Até a próxima,

E.

Saturday, January 07, 2006

Culpa de quem?



Quero desistir de exaltar a metafísica. Nem sequer vou determinar o que é metafísica, qual é o poder a que se reporta. A hora é agora e o tempo é exatamente aquele que posso mensurar com meu relógio de pulso, que funciona apesar de adquirido nas lojas do comércio paralelo. Não quero pensar em consciência, em valores ou atributos outros que venham justificar: quero apenas falar, factualmente, de situações que pululam aos meus olhos.

Chove na capital. Molho-me completamente porque mesmo com um guarda chuva imenso não consigo estar nele por completo. E choro com a chuva porque encontro mendigos e pedaços humanos espalhados no caminho para casa. Choro torrencialmente, como a chuva, porque falo com minha irmã e testemunhamos diversos desabrigados que perderam tudo o que tinham. É certo que vão todos ao abrigo proporcionado pela prefeitura, mas não é o suficiente. A chuva está em São Paulo, corrijo, na periferia de São Paulo: há uma clara divisão entre a “chuva” e os “desastres” que acometem apenas os menos favorecidos – e não falemos, ainda, de valores. Não há desastres no Palácio dos Bandeirantes ou na Prefeitura Municipal. Não há sequer chuva onde se refugia o presidente para suas “tão merecidas” férias!

O ano mal começou e já observamos que será complicado para divisão de toda pizza. No Planalto já não se há o mesmo rigor para apuração dos fatos do fantasma “mensalão”. Assim como o ex-presidente Collor foi totalmente absolvido pela memória do povo brasileiro, celebram-se, hoje, metas alcançadas durante o ano e se abafam as declarações paquidérmicas de um governante manipulável... Há de se concordar que todos têm sua parcela de manipulabilidade, mas daí acrescer-se disso para se inocentar traz um desconforto indiscutível, pois, para mim o “eu não sabia” é improbidade!

Edmundo perde a carteira de motorista e Viola diz que a arma com a qual, em tese, ameaçaria sua ex-mulher é de coleção. Acredito tanto quanto consigo entender o relaxamento da prisão dos assassinos do casal Richthofen e da seqüestradora de bebês Vilma Costa. A salada desse início de ano também foi recheada com o caso do seqüestro do ônibus onde se confundiu uma das participantes por uma pessoa inocente – e a inocência era fato, não um valor!

Não sei mais o que dizer... fico a me remexer e continuo a observar as horas em meu investimento de R$ 15,00. Isento de sentimentos ou valores, estou a vivenciar a situação através das sensações primárias animais: sem metafísica! Acabo por achar a metafísica incipiente. Não que seja por si, mas diante de tanta evidência há de se contestar sua necessidade, sua plausibilidade e até mesmo sua existência.

Mas, de repente, eu paro e percebo que há um furor em mim que deseja aceitar sua culpabilidade: a metafísica é a responsável por tudo. É isso, a conclusão seria exatamente essa! É a metafísica que faz com que o caos se instaure e estejamos determinados a adorá-lo – agora sim temos os sentimentos!

Como eu disse, sou apenas um louco....

Até a próxima,

E.

Friday, January 06, 2006

Marseille...


Nesse mesmo bar onde estava, aos 11 anos de idade, ela fora barrada na porta do banheiro feminino porque a confundiram com um menino. Agora, sentada a beira mar e absolutamente adulta, com seios e cabelos longos, ela vê uma dupla inusitada na mesa à frente que gesticula e ri de forma que, juntos, representam a perfeição. O velho com sua cabeleira branca bem cuidada que se deixa acompanhar um garoto de quatorze anos simples e educado. Ambos têm modos diferentes de mover a cabeça, mas os olhos brilham juntos enquanto há um magnetismo qualquer que os fascina...

Ela pediu por um Martini seco e abriu seu livro preguiçosamente. Riu sozinha, pois na época em que acontecera o incidente do banheiro aquela cena dos dois sentados e rindo seria, no mínimo, abominável...

O calor carioca a deixava sem ritmo, mas ainda se surpreendia como amava aquela cidade. Amava ser anônima e saber que sabia disso. Amava ter consciência de quem era e, ainda assim, divertir-se por todos os lugares onde passava... sentia saudades de São Francisco e Marseille. Sempre Marseille... aquele baile de máscaras no ano da copa a havia marcado. Não que fosse traumático, mas foi onde se concebeu ser uma mulher andrógina, onde se encontrou a si mesma diante de tantas possibilidades da vida.

Seu Martini chegou e o livro que lia a elevava em espírito. De repente o casal se levantou e, de mãos dadas, caminhou em direção a orla marítima ainda em riso. Ela sorriu e fechou os olhos, pois ainda sentia o sabor dos beijos daquela pequena com seios mirrados que, com uma taça de Vermuth seco nas mãos, a envolveu no sonho de liberdade... ah Marseille...

Até a próxima,

E.

Thursday, January 05, 2006

Retorno


Ontem, quando atravessei o viaduto para entregar o filme na locadora, abri meus braços de forma a sentir mais esse frio de São Paulo, pois a temperatura não sai da casa dos 18 ºC. Ao passar por algumas pessoas, percebi que me olhavam de forma fixa, o que de certa forma me fez entender que talvez eu chame a atenção por ser belo ou ter total ausência de beleza (risos).

Fui à padaria, à tarde, comprar pães. Dei uma pequena ajuda a um transeunte que me pedira por comida, pequena por não ter muito o que oferecer... É o retorno, o meu retorno, à vida paulistana... sou humano, não é?

Tive uma inveja profunda de alguns colegas de trabalho. Uma inveja humana, não depreciativa, mas real. Uma inveja que me faz humano... agora sou humano... Lembrei-me de torcer pelo bem de todos, pois já é um novo ano. Lembrei de alguém distante e de seu riso contagiante, seu jeito meigo e pleno de dizer coisas boas mesmo quando agride... será que eu já disse o quanto amava?



Vou sair agora. Vou dançar a noite toda, rever alguns amigos e tomar um Gin com tônica, que é muito bom para mim. Vou curtir meu resfriado, tomar uma ou duas pastilhas de Vick e uma aspirina.

E espero que eu esteja em paz e em paz continue...

E.

Relembrar...

Não poderia deixar a primeira mensagem em branco, ou, ao mesmo tempo, não conseguiria redigir algo inédito o suficiente para que eu mesmo entendesse...

De qualquer forma, por agora, deixo uma frase e coloco meu pensamento a funcionar, aqui em mim, para externar quando possível...

E.