Você é Feliz - Parte I
Perguntaram-me se sou feliz e de repente não sei como responder... sou feliz? E se sou feliz, porque às vezes não estou feliz? E se não sou feliz, como às vezes estou feliz? Você realmente me pegou Kiko, me fez pensar no assunto de forma tão crua que me sinto demasiadamente humano.
Para me ajudar a responder a questão, recorro ao exemplo de um casal de amigos que se amam: Esther e Paulo. Ambos são evangélicos e ainda não se casaram. Sentem-se completos quando estão juntos, não precisam de palavras e apenas o toque suave de seus dedos faz com que sintam a força do amor. Eles saem juntos e juntos ainda conversam sobre o futuro, sobre o que acreditam e sobre tudo o que têm conquistado. Ela trabalha em uma loja de confecções e ele na construção civil: são pessoas simples, com gostos simples e não fazem sexo porque não sentem necessidade...
Sentem-se felizes com outros prazeres tão corriqueiros, não pensam em teatro e cinemas e quando se encontram falam sobre as alegrias do cotidiano, os pequenos problemas que resolvem e o quanto conquistam em suas vidas. Compraram um terreno recentemente e falaram com o pastor sobre a data de casamento. Ambos não sabem sobre cultura popular ou a última moda em ciência e filosofia. Pouco falam e de política lêem apenas o suficiente: consideram-se felizes e realizados! Às dificuldades, quando vêm, enfrentam tranqüilamente. Confiam em Deus e a alegria que têm no peito supera qualquer grande angústia que lhes aparecem.
Não sou como eles, Kiko. Às vezes, penso se felicidade não é um estado de espírito motivado por algo externo... Diz minha amiga Júlia que temos apenas momentos felizes, eu contesto. Sempre digo a ela que se isso é felicidade, então seremos infelizes na maioria das vezes e a alegria é apenas temporária! Ela não soube me responder... pobre Júlia, estava toda chorosa pelo acidente e por ter quebrado a clavícula... talvez por isso não pense em felicidade!
Pelo meu amor ao saber e por ter tanto ainda a aprender, conjugo minha alegria nos livros e nas piadas que faço sozinho enquanto arrumo a casa... sou feliz por ser, sem motivo, sem razão, sem necessidade. Sou feliz mesmo quando caço baratas e lembro de meu chefe ranzinza na empresa em que trabalho. Os momentos que me brindam com o êxtase eu vivo e os momentos em que tenho minha alegria à prova eu me permito chorar...
Acabo por pensar que sou naturalmente feliz e que os momentos de tristeza que tenho não afetam minha constante, só me fazem valorizar ainda mais aquelas horas em que não há motivo para chorar... Tenho momentos de tristeza, momentos de dor, mas SOU na maioria das vezes feliz.
Não sei se respondi, meu caro Kiko, mas como sei que nunca se permite ler de tudo que lhe envio, vou deixar minha alegria repousar agora com um bom analgésico às dores de cabeça. Vou me deitar com a certeza de estar bem ainda que as dores me visitem... soube que minha mãe está doente, talvez precise se internar e terei de viajar com urgência. Soube também que talvez perca minha tia logo, que talvez precise de mais dinheiro e, sobretudo, não estou mais apaixonado... tem tanto a acontecer e ainda assim continuo sereno, tenso, irritado e feliz! Saudades de você...
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