[ao som de 'La mamma morta' - Maria Callas]

Claire,

Tem chovido por esses dias na capital. O vento nos castiga com sua força e nos obriga a ter raízes firmes para que não esmoreçamos. Ele me arranca o guarda chuva quando passo pela gare e minha única saída é o abrigo oferecido pelas colegas que lá permeiam entre as sombras. Já é noite! [Moriva e mi salvava! poi a notte alta]

Por um instante em mim há uma saudade intensa do não saber. Sinto falta de fantasias que passeavam pela mente na ausência de certeza. Hoje eu sei, minha querida irmã, que o sentido não pode existir em palavras soltas ao vento e brincadeiras de criança (e como gostaria de voltar no tempo e estar naquele sítio de vovó à beira do riacho). [...Bruciava il loco di mia culla! Così fui sola!]

É estranho essa sensação de saudade que vem acompanhada pelo desejo de distância. É uma morte em vida, Claire, de um sentimento lindo que se cultivou sem que houvesse um motivo sequer para tanto... [Tu non sei sola!] ... e a chuva, continua... [fa della terra un ciel! Ah!] (se lembra de quando a vovó nos pegou roubando flores do jardim da dona Quitéria?)

Logo é noite alta e deparo-me com um fantasma. Com um guarda chuva me convida a tomar suco de laranja, comprar frutas e prometer um encontro no final de semana. Perguntamo-nos mutuamente porque ficamos tanto tempo longe e apenas me respondeu: "...porque não era em mim que estava seu pensamento nos últimos dias e não sei se é amor o que sentia por mim!" [Io son l'amore, io son l'amor, l'amor"] Parou depois disso e esperou que eu dissesse algo! Eu lhe disse apenas que tinha razão por não ser a única certeza de meu afeto, mas implorei que não duvidasse que ainda poderia ser amor!

Enfim partiu, chegara seu ônibus. Ao ver que partia, retornei a pensar na certeza que tive e o quanto gostaria de nunca tê-la. Talvez esse fantasma poderia estar no lugar de quem faz apenas uso de mim! Agora novamente eu sei que está certa, como sempre, por me achar passional... sinto como se ainda estivesse na gare, como se nunca tivesse saído de lá e nunca tivesse realmente amado. Sinto o mesmo vazio, Claire, a mesma distância. [Corpo di moribonda è il corpo mio.]

Sentia-me muito longe de mim, minha irmã, naquele momento! ... e a chuva...
Cheguei ao apartamento, subi e debrucei sobre a cama. Agora a chuva ia ao longe (como quando ficávamos no celeiro e adormecíamos com o tilintar da tempestade!) e dentro de mim o vento fazia a limpeza necessária.

Não há mais desejo! Enfim sinto-me livre de qualquer desejo! [Io son già morta cosa!] Parei por um momento e disse novamente a mim: não há mais desejo! Estou livre Claire... livre... talvez realmente aceite o encontro prometido e desenhe um novo final durante a semana que se passa... [...che a me venne l'amor!]

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