Você é feliz - Parte II

Continuei a pensar sobre felicidade e ontem isso me fez lembrar de um escrito que tive o prazer de ler há tempos sobre Nietzsche. O autor colocou na boca do filósofo o seguinte questionamento: “mas o que o motiva a fazer isso? Qual a verdadeira razão de tentar com tanta veemência a solução desse problema? Não me diga que por ser parte de sua profissão, senão teria que acreditar que o faz por bondade e não acho a bondade um bom motivador... não acho que o ser humano faça qualquer coisa gratuitamente, apenas para provocar no outro uma sensação de bem estar ou alívio...” Isso me fez refletir um pouco e passei a imaginar que não é de toda falsa a colocação...

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Não acho que há esmola dada sem segundo interesse, assim como não há relação humana que não permeie o egoísmo. Mas daí me questionei: onde está o egoísmo? Pois é... confundimos o amor platônico com o amor a um ideal inatingível, confundimos nossas paixões carnais com um amor sublime e a posse do outro – e conseqüentemente sua imagem incorruptível – se torna um requisito imprescindível para que continuemos a amar. Precisamos que o outro se encaixe em nossos ideais, em nossa imagem de perfeição para que o amor persista. Temos que ter uma espécie de poder, de fascínio para que o relacionamento aconteça. Como somos limitados!

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E muitas vezes o que nos motiva a continuar um contato é exatamente esse poder que exercemos sobre o outro ao nosso lado: seja em um ciúme bobo que o faz trocar de roupa, uma festa que se deixa de ir, uma cumplicidade no final de semana em que um está a trabalhar e o outro não sai. O que chamamos de consenso nessa relação nada mais é do que essa luta para ver quem tem o poder momentaneamente e é por esse poder que continuamos sempre a nos relacionar... o que chamamos de amor, no limite, não passa de uma aceitação do exercício do poder do outro sobre mim e vice versa.

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É esse egoísmo que nos move, essa sensação de vitória mesmo quando cedemos por saber que logo poderemos ser o que provoca. Essa sensação de vitória, de estar em evidência, se ser quem dá as cartas é que nos motiva. Em todas as relações precisamos colocar em evidência nossa opinião, mesmo na timidez de nosso riso. A todo o tempo precisamos nos provar, nos afirmar, nos colocar presente... quando há quem não o faz, consideramos fraco e morto, incapaz para a convivência no grupo.

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Poderia dizer estranho, mas acho quase formidável: a todo o momento incluímos e excluímos coisas de nossa vida conforme a sensação de vitória que isso nos dá. Seja um simples chicletes para nos dar um prazer momentâneo como o emprego que não nos paga o suficiente. Precisamos ter um certo controle, ainda que inconsciente, para continuar! Isso me lembra de um diretor que fez uma festa de final de ano para todos os funcionários e seus familiares em uma chácara muito agradável. Todos puderam ter um dia tranqüilo com comes, bebes e outras coisas típicas de natal. As crianças ganharam presentes, as esposas rápidos tratamentos de beleza e os homens (grande maioria de funcionários) jogaram futebol com o diretor. Ao final do dia o diretor fez um pronunciamento geral para anunciar o pagamento de participação em resultados: não poderia ser melhor, todos os funcionários aplaudiram, assim como as esposas e filhos presentes.

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Com esse exemplo muitos podem dizer que a empresa reconheceu o esforço dos funcionários e proporcionou essa festa a fim de reconhecimento... mas eu enxergo o contrário: eu vejo o diretor se afirmar sobre todos, mostrando seu poderio ao organizar a festa e distribuir alegrias. No fundo, o que ele queria ela ganhar aliados, fazer com que os funcionários trabalhassem ainda mais durante o ano vindouro e assim ter resultados ainda maiores.

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Há tanto que fervilha, mas não posso continuar por agora. Preciso evitar ser tão cáustico para não ganhar o rótulo de pessimista. Basta por agora pensar que a própria felicidade passa pelas relações de poder, de influência, de dominação que temos sobre o outro e, no fundo, essa sensação de vitória que temos a cada pequeno gesto é o que nos torna ainda mais felizes.

E.

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