Feliz Aniversário



Sei que logo será seu aniversário, mas não conseguirei falar. Não, eu não quero. Não quero falar com você ou saber de você. Eu resolvi ser egoísta agora, pois sinto que não conheci ainda alguém que consiga expressar tão bem o egoísmo como você.

Não é ódio que eu sinto, ou rancor, ou pena. Mas é algo que sinto. Talvez você tenha personalizado todo meu egoísmo, projetado, escarrado, solto. Toda minha maldade, direcionada a mim e ao que eu mesmo não gostava em mim. E eu entendi isso e superei.

Sei que a dor tem lhe feito companhia, e celebro isso. Sei que sente falta do que achávamos que tínhamos, mas eu não. Lembro-me do que falávamos e do quanto prometemos e não cumprimos... aliás, você não cumpriu. Você me disse palavras vazias e me fez acreditar que seria possível ter um novo começo.

Você conseguiu tirar de mim o meu pior, acho que deveria agradecer por isso. Eu enxerguei o meu pior, transmutado em seus olhos claros como se fossem promessas de liberdade. Eu enxerguei minha mentira, minha mesquinharia, minha capacidade de ferir em silêncio e destruir alguém. Porque você fez isso comigo... destruiu-me de dentro para fora, a ponto da morte me visitar e me levar ao fundo do inferno. E eu vivi nesse inferno, preso nas minhas próprias convicções projetadas em você.

Eu saí, finalmente. Resgatado por Orfeu, eu retornei para reconhecer minha própria grandeza sobre a qual um dia você pisoteou. E Orfeu tornou-se Fédro, caminhando ao meu lado e desfrutando de uma beleza mútua. Em Fédro eu me reconheço e posso, finalmente, esquecer-me de seu egoísmo profundamente cruel.

Espero que a dor continue acompanhando seus passos, que a solidão por onde passei venha lhe fazer companhia. Espero, realmente, que a morte o toque e o faça sentir o mesmo que senti nos anos que antecederam a chegada de Fédro. Que suas asas sejam cortadas, assim como projetivamente permiti que você cortasse as minhas... que você sinta a dor de Nigredo, no mais profundo abismo, para um dia se tornar livre.

Feliz Aniversário.


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