Vaga Lume - Parte II
Era apenas impressão, não tinha certeza. Nada sabia e sobre nada tinha certeza, tinha apenas a impressão do mesmo jeans rasgado e velho sobre a cadeira, da camiseta regata de cor escura e dos sapatos do outono. Não se lembrava da noite anterior e, tampouco, imaginava o quão distante estava do outono, das estações e de tudo quanto vivera. Até se perguntava se já havia vivido, mas não tinha resposta, era preciso que se descobrisse para imaginar se poderia algo descobrir... E era sempre assim que encontrava as piores respostas!
Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica em sociedade. Odiava o anonimato e mantinha-se sempre nele, não conseguia estabelecer vínculos com quem quer que fosse e isto o maltratava como nunca.
Lembrou-se de alguém distante, queria que estivesse por perto, para que em um abraço se sentisse mais humano. Pensou em ligar, em se mostrar vivo, em dar um sinal qualquer que lhe indicasse humanidade. Lucius já não era humano, não se sentia humano e ainda tinha aquela sua diferença a incomodar.
Viu parte de um vulto ao tentar se levantar da cama: deu um pulo súbito, desequilibrou-se e buscou apoio naquela cortina de cor carne do lugar onde estava. Tinha de ir embora, não sabia para onde e porque, mas deveria ir. Vestiu-se avidamente e desceu as escadas com uma euforia que já não sentia há tempos. Ganhou à rua, à multidão. Viu a moça de vestido amarelo que espantava os cães e pensou ter visto novamente o vulto, mas era apenas impressão. Esfregou as mãos na boca para limpar o resto de coisa qualquer da noite e cumprimentou a moça com um sorriso tão amarelo quanto seu vestido. Teve medo, e passou a caminhar de cabeça baixa, como se buscasse por um resto de ordem em seus pensamentos. Sabia que algo nascia em seu íntimo e se assustava: estaria farto de suas venturas errantes e de seus brados funestos pelos becos? Talvez farto de companhias itinerantes?
O vulto ainda seguia seus passos, cada vez mais o sentia próximo, como fantasma, como algo que vagava ao seu lado em semelhança... desconhecia quem fosse! Seria apenas impressão? Seu jeans velho e desbotado estaria a lhe cobrir sua impressão ou sua humanidade? Sua semente morta era apenas impressão? Seria seu vulto apenas a impressão de uma mudança? Lucius não saberia responder ao que questionava...
Parou sobre o viaduto, hesitou por um instante em cair. Seu corpo negro e esquálido cairia com a mesma velocidade da folha da árvore ao lado? Lembrou-se do outono e de seus sapatos surrados. Quis estar morto, desejou ardentemente cair e não mais embalar as fantasias estúpidas da noite. Novamente o vulto. Lucius hesitou. Parou, observou o vulto e o distinguiu, ele o conhecia.
Ainda olhou para o viaduto pela derradeira vez, antes de tomar o vulto pela mão e seguir seu trajeto pela praça. Via-se um sol tímido e ouviam-se as crianças que corriam por motivo qualquer. Não era apenas impressão, estaria vivo agora como humano...
Lucius se deixou envolver pelo lençol e já não se importava com o que sentia ao acordar: seu talo dormitaria e não seria certa a companhia naquele crepúsculo pela manhã. Virou-se para o lado a procura de um resto de cigarro, frustrou-se. Frustrou-se com a ausência de um corpo, de um sorriso sequer que cheirasse a bebida barata do bar de onde veio. Odiou-se! Não queria se levantar e se tornar mais um rosto na multidão da metrópole, na troca da convivência pacífica em sociedade. Odiava o anonimato e mantinha-se sempre nele, não conseguia estabelecer vínculos com quem quer que fosse e isto o maltratava como nunca.
Lembrou-se de alguém distante, queria que estivesse por perto, para que em um abraço se sentisse mais humano. Pensou em ligar, em se mostrar vivo, em dar um sinal qualquer que lhe indicasse humanidade. Lucius já não era humano, não se sentia humano e ainda tinha aquela sua diferença a incomodar.
Viu parte de um vulto ao tentar se levantar da cama: deu um pulo súbito, desequilibrou-se e buscou apoio naquela cortina de cor carne do lugar onde estava. Tinha de ir embora, não sabia para onde e porque, mas deveria ir. Vestiu-se avidamente e desceu as escadas com uma euforia que já não sentia há tempos. Ganhou à rua, à multidão. Viu a moça de vestido amarelo que espantava os cães e pensou ter visto novamente o vulto, mas era apenas impressão. Esfregou as mãos na boca para limpar o resto de coisa qualquer da noite e cumprimentou a moça com um sorriso tão amarelo quanto seu vestido. Teve medo, e passou a caminhar de cabeça baixa, como se buscasse por um resto de ordem em seus pensamentos. Sabia que algo nascia em seu íntimo e se assustava: estaria farto de suas venturas errantes e de seus brados funestos pelos becos? Talvez farto de companhias itinerantes?
O vulto ainda seguia seus passos, cada vez mais o sentia próximo, como fantasma, como algo que vagava ao seu lado em semelhança... desconhecia quem fosse! Seria apenas impressão? Seu jeans velho e desbotado estaria a lhe cobrir sua impressão ou sua humanidade? Sua semente morta era apenas impressão? Seria seu vulto apenas a impressão de uma mudança? Lucius não saberia responder ao que questionava...
Parou sobre o viaduto, hesitou por um instante em cair. Seu corpo negro e esquálido cairia com a mesma velocidade da folha da árvore ao lado? Lembrou-se do outono e de seus sapatos surrados. Quis estar morto, desejou ardentemente cair e não mais embalar as fantasias estúpidas da noite. Novamente o vulto. Lucius hesitou. Parou, observou o vulto e o distinguiu, ele o conhecia.
Ainda olhou para o viaduto pela derradeira vez, antes de tomar o vulto pela mão e seguir seu trajeto pela praça. Via-se um sol tímido e ouviam-se as crianças que corriam por motivo qualquer. Não era apenas impressão, estaria vivo agora como humano...
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