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Mostrando postagens de 2022

De profundis

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  Era fiel o pobre tolo, mesmo sozinho na prisão, onde seu amante nunca esteve. E clamava por Cristo, em um devaneio de fé, como se ali pudesse redimir-se do pecado de amar... e era esse seu único delito, pobre tolo, amar sem mácula aquele que um dia o condenou. Profundamente só e reflexivo, encontrava-se consigo mesmo e com as imagens de um inconsciente que abundava em sua consciência, deixando-o em um estado febril e delirante. Não mais o mundo ou a vida aos seus pés, apenas aquelas paredes frias de onde encontraria a própria liberdade: a condenação de ser livre, pois tornava-se quem era e quem deveria ser. Talvez os anos custassem sua juventude, mas não sua mente brilhante que saía pelos poros como vida em abundância. Tornava-se seu próprio Cristo, sem seu amante, sem a lasciva aproximação daqueles que estão presos na falsa liberdade de pertencer ao mundo. Era fiel o pobre tolo, a si mesmo. Não ao amante. Não ao afeto vil que o levaria à loucura, mas ao que se tornava em si mesm...

Um dia, Francisco

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Eu celebro o tempo que tive e a vida que tenho. Eu celebro o que sou e me torno. Eu celebro a mim.  A angústia passou, assim como o leite amargo que já não faz mais sentido… ele também passou, como todos os outros que nada ofereciam.  Eu celebro o tempo que sou, a queda que tenho e a vida que surge… as cores que ficam vívidas e os olhos cansados que precisam de lentes para ver. E agora, as lentes são minhas. Os meus (familiares) passaram, como disse Belchior, estão em casa (deles). Como diz a canção,  os meus cabelos um dia estiveram ao vento, e agora ele está no meu imaginário… o imaginário. Uma realidade interna, daquelas que são construídas pelo inconsciente, onde habitam os demônios de meu inferno. E os anjos do meu céu. E o Adão, negro, que com Eva prova do fruto proibido… da maçã que era banana, que era serpente, que era Satã e também era D’us na minha fábula de senix. Eu celebro o tempo… de quando eu ainda era capaz de amar Marina, ou Bruno, ou qualquer outro que m...

A mediocridade não vivida

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Hoje eu me levantei triste, profundamente triste. Ubatuba me saúda com uma paisagem linda pela janela, vejo o mar que é fascinante. E ainda assim estou triste, melancólico e solitário.  Sinto-me deslocado por gostar do que poucos gostam e estar com pessoas que me cobram para enturmar em seus barulhos, suas bebidas e pela busca desenfreada por prazer sexual. Sinto-me deslocado por não conseguir, ainda que às vezes, ser superficial.  Eu quero falar sobre espiritualidade, sobre filosofia e debates profundos sobre a existência... mas não é possível. Então, sozinho, observando o mar, questiono uma vez mais sobre a vida não vivida... sobre a vida que poderia ter sido com as companhias, as bebidas e a mediocridade que permeia a todos. Não, não é fácil ser diferente. Eu queria só por um momento gostar da mediocridade, do absurdo da mediocridade, do riso fácil e da alegria idiota que está em todos que se deleitam com músicas de funk e bebidas que se repetem... eu juro que queria, só po...

E isso, enfim, irá bastar... Marina

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  Há dias me lembro de você, Marina. Vejo suas fotos antigas e seus olhos nunca brilhavam ao meu lado… mas eu aprendi que recebemos do mundo e das pessoas o reflexo de nossas expectativas internas: e você nada mais me entregou senão o que eu esperava de você. Do que você tinha para entregar. Do que eu acreditava que poderia vir de você. É estranho me lembrar e ainda sentir. É estranho ainda ter emoção. É estranho desejá-la e amá-la e, ao mesmo tempo, desdenhá-la e odiá-la com toda profundidade possível. Sim, eu sei, sou contraditório porque estou machucado. E procurei você em outras pessoas, sem encontrá-la. E continuei a sofrer, calado e no choro solitário da noite, pela rejeição que vivi por me entregar demais. As palavras não são o suficiente, Marina... espero que a dor que senti ainda seja para você uma boa e perene companhia. E isso, enfim, irá bastar.

Mefistófeles e o encontro no deserto

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E então ele me perguntou, nesse deserto, quem eu era. Não, minto, antes, ele me perguntou se eu sabia quem eu era, se eu sabia porque estava ali. Eu me assustei, fiquei calado um momento ou outro, em dúvida sobre a própria jornada. Como se aquela pergunta, simples e direta, me trouxesse um calafrio e um medo profundo por não saber responder - embora a resposta sempre estivesse aqui, clara como a luz do sol escaldante do deserto, onde eu fugia de mim para não me tornar quem sou. Ele riu, como Mefistófeles, e caçou da minha perdição. Rodopiou pelo ar, levantando areia, dizendo que eu nunca sairia dali negando minha natureza... ele riu novamente, uma gargalhada dura que me fazia cair de joelhos diante da grandeza da minha alma, aquela que me conduziu ao deserto para jornada de auto descoberta de mim. Ah, minha alma, minha alma... porque me permite ver o inferno se ainda me assusto com as chamas de fogo que me queimam a carne.  Eu clamava e ele ria de mim. E repetia que eu fugia de mim...

Ser Mulher - Tornar-se Mulher

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Existem vários mitos do feminino, tantos quantos há mulheres para vivenciá-los. Eles podem ser agrupados em grandes tipos e serem representados por divindades em todas as culturas, como a sedutora Vênus, que nasce pura, ou a guerreira Artemis que carrega a sabedoria. Essas mesmas características estão em Ishtar, em uma outra época e cultura, ou em Matamba e Oshun nos mitos africanos. Exemplos para falar de apenas algumas das características do feminino, riquíssimo e vasto com lendas que envolvem desde as senhoras do destino à Grande Mãe que trouxe vida  todo planeta. Musas, senhoras, dona do mistério, guerreiras, símbolos do poder em todas as culturas: eis uma pequena fração do que é o feminino! Reconhecer o próprio feminino é tomar posse do próprio poder, que é criativo, transformador, regenerador, destrutivo e condutor. Conectar-se com os próprios ciclos e com os ciclos do planeta intensifica o poder e a sua expressão, como a Terra escurece-se no inverno e ressurge no verão, al...

A solidão e a liberdade

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Não há liberdade sem conhecer a solidão, sem saber quem é você quando há nada e ninguém que amarre seus pés impedindo a caminhada. A solidão não é um caminho de dor e sofrimento, é o reconhecimento da capacidade de escolha, sem se obrigar a satisfazer a um Outro que pede, ainda que em silêncio, que você seja de uma forma específica, seja uma pessoa específica, tenha um comportamento específico. A solidão liberta quando você se enxerga capaz de agir por si e somente por si, sem que haja qualquer justificativa moral ou ética diferente dos seus próprios valores... valores seus, somente seus, adquiridos ao longo da vida, por influência social e familiar, mas que se transformam em algo seu, consciente, totalmente individual... quem age pela própria ética, também é livre. Quem obedece por medo ou necessidade de pertencer, está com a alma aprisionada na escuridão. A dependência emocional, a necessidade de pertencimento, as amarras que fazem com que suas ações sejam limitadas e seu querer seja...

Frango com Quiabo

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Tem sido uma semana de altos e baixos, emocional, sobretudo. Os dias estão passando e sinto a vida entrando em mim, com todas miríades de cores e sentimentos, fazendo de minha realidade uma experiência única. Os dias são intensos, há muito o que perceber e sentir... como se todas as memórias ocupassem o mesmo espaço, ao mesmo tempo, para uma única vida. Marina se foi e me lembrei de Bea, a morta. Acho que nunca superei Bea verdadeiramente e, talvez, eu nunca supere Marina. E essa é a beleza dessa vida que entra em mim: não é preciso superar, apenas compreender. Nem tudo será como queremos, mas tudo será como construímos. Bea era fraca e obcecada por futilidades, mentiras e confusões... tinha um jeito único de fazer amor e isso me satisfazia, na época. Hoje, não seria o suficiente. Bea nunca seria o suficiente, Marina nunca seria o suficiente. Não por ela, que é simples e vazia, mas por mim mesmo. Acredito que enquanto eu não me tornar o suficiente por mim mesmo, com o que sou e me torn...

Adeus, Marina

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  Eu deixei de amar você, Marina. Parece que o tempo demonstrou que tudo passa, inclusive o amor. Estou finalmente livre e o que sinto em relação a você é apenas gratidão, porque aprendemos e crescemos juntos enquanto juntos estivemos. Vi sua foto na rede social e seu sorriso me lembrou seu riso fácil, cantando qualquer música aleatória, tomando vinho e fumando um cigarro de maconha… e como você gostava de maconha, Marina. A música alta, o vinho, seu riso e a maconha. É incrível como nos encontrávamos e nos perdíamos nesses lugares onde fingíamos uma alegria que estava longe de ser mútua. Eu, que sempre odiei maconha e música alta, me embriagava de vinho para ter sua companhia. Mas, como eu dizia, aprendemos e crescemos juntos. Você me devolveu a vontade de viver e aprendi a me amar enquanto você me amava. Você, que nunca havia sentido a vida, encontrava em mim um sentido em viver. Eu retomei meus projetos quando você soltava sua alegria e me contagiava com jovialidade e seu ...

A bola na cesta de basquete

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  “Sonhei que as pessoas vinham em grupo de três, eram brancas e pálidas, como se isentas de qualquer cor ou vida. O grupo pegava uma bola de basquete, também branca e sem cor, e jogavam para acertar a cesta logo a frente... se errassem, tentavam novamente. Se acertassem, então saltavam em um precipício para morte, pois haviam terminado o propósito e nada restava para ser feito. A vida se havia terminado, o sentido da vida se havia terminado e isso bastava a elas. Espantei-me ao vê-las morrendo completamente passivas, sem emoção no rosto, totalmente desprovidas de qualquer esperança ou motivação. E então, saio do local e vejo-me em meio a um rio cortando a floresta, sobre uma jangada improvisada, admirado com a beleza das cores e da vida que ali existe. Encantado com essa visão, quero registrá-la com fotos e guardar para que possa falar a todos de como há beleza na floresta.” Desperto, com espanto, e então A Voz me diz que tudo tem sua existência objetiva e subjetiva, pois as coi...

Reflexões sobre o instinto

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Dentro da clínica psicológica, percebemos que muita gente age totalmente tomada pelo instinto, de forma que a razão e a emoção têm influência secundária em suas decisões. Vivem com a ânsia da sobrevivência, focando apenas naquilo que pode satisfazer o prazer momentâneo e imediato. Parece que passam anos procurando tapar seus buracos de subsistência sem que possam se dar conta de que a vida vai além dos pequenos prazeres e caminhar pelo solo. Por serem ignorantes de que são dominados pelos seus desejos e faltas, perdem-se em teorias sobre o poder e eficiência, quando o “aqui e agora” se torna pano de fundo para decisões e ações que, na maioria das vezes, são incapazes de preencher o vazio que vivem – e desconhecem. Morrem sem terem encontrado um significado, são tomados por doenças físicas e psíquicas (e todas as doenças são primeiramente psíquicas) e sucumbem, definitivamente. Essa é a tal normalidade. Esse é o tal senso comum que dispensa conhecer algo além do que pode ser tocado,...