De profundis
Era fiel o pobre tolo, mesmo sozinho na prisão, onde seu amante nunca esteve. E clamava por Cristo, em um devaneio de fé, como se ali pudesse redimir-se do pecado de amar... e era esse seu único delito, pobre tolo, amar sem mácula aquele que um dia o condenou. Profundamente só e reflexivo, encontrava-se consigo mesmo e com as imagens de um inconsciente que abundava em sua consciência, deixando-o em um estado febril e delirante.
Não mais o mundo ou a vida aos seus pés, apenas aquelas paredes frias de onde encontraria a própria liberdade: a condenação de ser livre, pois tornava-se quem era e quem deveria ser. Talvez os anos custassem sua juventude, mas não sua mente brilhante que saía pelos poros como vida em abundância. Tornava-se seu próprio Cristo, sem seu amante, sem a lasciva aproximação daqueles que estão presos na falsa liberdade de pertencer ao mundo.
Era fiel o pobre tolo, a si mesmo. Não ao amante. Não ao afeto vil que o levaria à loucura, mas ao que se tornava em si mesmo. Era fiel, o pobre tolo, era fiel... e livre, enfim.

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