Lucía tinha olhos grandes e negros, como seus cabelos. Cabeleireira farta, sem corte definido que emolduravam seu rosto ao natural. Ela era natural. Algo de místico e torpe, um sorriso maroto, quase tímido, que arrancava de mim suspiros inocentes. Perdemos contato após a adolescência, quando me mudei para capital. Manaus já era uma cidade próspera, cheia de migrantes que vinham para conhecer o fenômeno econômico. Foi no último baile, enquanto dançávamos frenéticos ao som de “ L’ amour ”, que a percebi bela. Um sentimento forte me veio ao peito e tudo o que via era seu nome, seu cheiro, seu som. Foi nossa despedida, sem um beijo qualquer, sem um abraço qualquer ou um sorriso de até logo como fazíamos todas as noites. Ela continuou em Autazes. Eu lhe escrevia para dizer sobre o mundo que despontava, mas ela insistia em seus búfalos e as corridas matutinas. Lembrava-se de nossas idas ao Ribeira, quando pulávamos a cerca e mergulhávamos refrescados nas águas do Madei...