Thursday, December 27, 2007

Carta para A.

Oi A.,
 
Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...
 
Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seria mais fácil, mas como sempre tinha notícias do cafajeste, demorou um tempo por esquecê-lo!
 
Mas ela fez uma coisa que eu achei incrível: comprou linha na 25 de março, fez um suéter maravilhoso, colocou em um caixote junto com o restante de coisas que ele deixou na casa e enterrou no pasto do sítio de seu pai. Eu achei o máximo! Fez ritual e tudo, chamou os meninos, o padre de lá onde mora seu pai e até algumas pessoas da vizinhança. Ela dizia que era um memorial para um santo qualquer e fez uma festa com comes e bebes. Inacreditável. Até gente com viola e sanfona foi na festa e teve forró no final da noite! E sabe que depois disso foi que ela sarou e agora vai à Aparecida para agradecer a santa.
 
Até me inspirei nela. Bem que a Sílvia me havia falado. Ela agora mudou o guarda roupa, sai de final de semana e os seus meninos estão na escola particular. Que mudança, hein? Nem com o fantasma do ex-marido a rondá-la ela se deixa abater!
 
Bem, mas que seja... desculpa por falar tanto assim, mas eu queria mesmo era te convidar para festa dela que será no dia 14, lá no Cefet de Guarulhos. Vão todas as professoras amigas e vai ter muito o que comemorar... E se vier, peça para Claire vir também, estou com saudades daqueles quitutes que só ela sabe fazer...
 
Beijos,
 
E.

Sunday, December 23, 2007

Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.

 

E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.

 

E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca deixarei de ser. E ainda questiono, sou humano? Sim, sou humano, demasiado humano e estou no mundo. Ainda que sobrevoe pelos céus da erudição, sei que é o mundo onde experimentarei minha mais humana condição. E sei que nada é maior que a solidão do intelecto...

 

Detesto quando me sinto apegado a tudo que me cerca e detesto mais ainda quando esse apego me machuca. Detesto porque me cerceia a liberdade que tenho, pois preciso me conter para não machucar meu derredor. E assim tolho meu próprio ser interior para não corromper a massa com o rompante de minha liberdade de pensar. Tolho para que não se assustem quando virem que liberdade está em viver agora, sem nostalgia, sem planos que impeçam o presente. Tolho para que, mesmo sem querer, possa socialmente conviver, escutar e rir de piadas esdrúxulas que dizem das escatologias humanas. E ainda assim sou humano, demasiado humano para que algo humano me estranhe. Demasiado humano para fugir das leis humanas de nascer, viver e partir!

 

E mesmo Petrus passará, todavia. No momento certo ele irá partir, assim como todos: Laura, Horário, Lucas e Allan. No momento certo, após viver intensamente, ele irá deixar sua essência em mim para encontrar novos mundos que compreendam sua filosofia. Iremos, enfim.   Como todos os bípedes condenados a viver e partir sem que possam interferir nessa lei: nascer, viver e partir! E terei a liberdade de escolher entre partir e permanecer, ainda que em espírito possa apenas continuar e continuar e continuar eternamente? E terei a benção do retorno? E terei, Petrus?

 

Dormitarei na dúvida enquanto nasce em mim para depois viver em mim. Voarei e tocarei o alto, na mudança, uma vez mais...

 

Por enquanto....

 

E.

Saturday, December 22, 2007

Quinteto

 

Culpo os ares provincianos que limpam meu pulmão. Culpo a chuva e as músicas que abomino. Culpo também a inveja que enche meu peito ao ver todos casados e a celebrar os filhos que possuem. Culpo a simplicidade e a busca do aprimoramento, mesmo quando o fim é a única certeza que possuem. Culpo o sol a pino e os salgados servidos com refrigerantes da região. Culpo o carinho materno e os telefonemas familiares às festividades natalinas. Culpo o comércio repleto e os sorrisos que desafiam a economia... culpo a vida que possuem, que cultivam, que esperantam e jubilam.

 

E depois culparei meus livros. Culparei os fantasmas enterrados que retornam à herança. Culparei quando os busquei e os tornei vivos. Culparei a sinceridade com que me olhavam e pediam socorro. Culparei minha ignorância das palavras curtas e pensamentos retos.

 

Assim, para celebrar, terei apenas o quinteto abominável que ainda não culparei para que não existam em mim: Axé, funk, sertanejo, rap e forró.

 

Em paz,

 

(sem nome)

Tuesday, December 18, 2007

Colóquio

Não saberia a distância entre a filosofia e a poesia sacra. Não saberia sequer se poderia, com minhas tertúlias vespertinas, ter meu nome Petrus ou Paulus... ou mesmo retornar ao continente e saudar meus deuses de outrora.

 

Há dias em que tudo não passa de poesia e Pessoa invade meus olhos para, ao som de Guardador de Rebanhos, cantar meu sentimento frugal: "Não acredito em Deus porque nunca o vi..." E quando solto meu brado, percebo que nunca estive no mundo. E Pessoa se vai...

 

Não vou retornar aos vazios. Recuso-me meus vazios. Minhas letras dizem de epifanias nunca vividas, nunca sentidas. Há fantasmas por toda parte de meu ser que reclamam por atenção e outros que se perdem nos dias em que me cerco de livros e letras para passar o tempo. Eu nunca estive no mundo.

 

Disse uma vez um pequeno que sua garota veio pela internet. O outro, dizia sobre honras de pelos pubianos nunca aparados. E riam, inebriados pelo mundo, enquanto em silêncio eu buscava de Petrus e Paulus um sentido não vivido. E não sou do mundo. E não sou da vida. E não sou, por infortúnio, a mesma meretriz de antes que se fechava nas casas de tolerância.

 

E onde está o que sou se tudo o que sou dissolve-se em contato à realidade? Onde está o real se o que vejo vai-se ao vento quando o sol se vem? Já não sei!

 

A única certeza que tenho é da finidade... e isso dói.

 

Até logo,

 

(sem nome)

Sunday, December 02, 2007

Descanse em Paz... velho jovem


Nem sempre o alívio vem imediatamente após a ingestão do remédio e isso é o que há de mais assustador. Eliminam-se os sintomas, mas as causas dos dores ainda estão ali, latentes para serem combatidas pelos espíritos mais fortes... e isso é um saco! Se o corpo é liberto do mal que o assola, rendemo-nos solitários para combater as causas mais bizarras que nascem dos lugares mais recônditos do ser. Nossa responsabilidade se apresenta crua e nos chama a resolver problemas longínquos que pensávamos nunca existir.

 

Exatamente agora sei porque as aspirinas são tão comuns: elas nada fazem senão aliviar uma dor presente que pode atrapalhar o cotidiano. E como sinto falta do cotidiano e do medianismo que habita as ruas. Como sinto falta das expressões tacanhas que habitam o mundo e mergulham seus viventes em seus prazeres sem contestar origens e conseqüências! Como sinto falta da mediocridade que alegra os que não percebem os malefícios da descoberta, da "pílula" que o liberta da Matrix de ilusões capaz de satisfazer até o mais exigente dos seres...

 

Exatamente agora me recuso a chorar quando vejo quem sou. Exatamente agora preciso de todos os domingos que desenhei e dos poemas que escrevi para retornar à fantasia de minhas aspirinas, de minhas crenças sem razões e atos impensados que cometia em nome do esquecimento! Exatamente agora gostaria de não viver e descobrir quem sou...

 

Mas o tempo é inexorável amigo e sempre nos arrebata em direção à Lei. É hora de reconstruir e aprender conviver com a descoberta e deixar "de ser menino e fazer as coisas de menino". Calemo-nos nesse instante e façamos um minuto de silêncio: descanse em paz velho jovem!

 

E.

Tuesday, November 27, 2007

Todo dia ainda é domingo...

Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu a via, e sempre eu a via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito: às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns a todos e que juntas apetecia seu ser. Era feliz com isso!

Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia tão comum como os outros. Mas ela não veio.

Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela se havia mudado e fora se despedir de todos: iria morar com os filhos!

Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observá-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domingos? Levantei-me enfurecido, paguei e saí...

E.

Os domingos pela manhã

 
Diziam-me que nos segundos que antecedem seu último suspiro toda sua vida passa pelos seus olhos... estranho, não? Eu me senti completamente perdido por esses dias e toda minha vida, de tempo em tempo, passava diante de mim como um filme antigo, daqueles onde o mocinho sempre passa por enormes tribulações antes de salvar a mocinha do vilão... e eu era o vilão, a mocinha e o mocinho!!!
 
Não me salvei a mim mesmo, mas consegui chegar a tempo para evitar que o final se passasse sem que participasse dele. Estou bem agora.
 
Talvez eu tenha algum acesso de boa auto estima e volte a escrever com frequência, a dizer coisas interessantes e ser um ponto legal na vida de alguém. Caso eu consiga, ficarei bem e cuidarei para que minhas linhas cheguem a você, nas manhã de domingo, quando o leiteiro passar.
 
Beijos,
 
E.

Saturday, September 08, 2007

Retonar e reviver...

É estranho retornar. As ruas não são as mesmas e em cada passo uma memória que insiste em permanecer. Ela nunca esteve ausente, nunca se foi, sempre esteve ali, resistente ao tempo e às modificações exteriores do corpo. As rugas e alguns fios brancos que ainda restam em mim fazem jus ao tempo, ao tempo e à distância que se fez da última vez que lá estive... é estranho retornar.

Não há mais aquele ar lúdico próprio da primeira juventude. Não há mais. Como se a primeira infância, inocente, nunca houvesse passado... nunca houvesse existido e as palavras que outrora soavam tão sábias hoje não passam de jogos sem sentido. Não revejo a magia das vassouras voadoras que habitavam minha imaginação e mesmo aquela senhora idosa, cheia de força e fofocas, não mais está lá à janela como a bisbilhotar a vida alheia: é de seu velório que agora participo. Faz tempo, repito... muito tempo e retornar faz com que o tempo seja maior!

Os pequenos de outrora, ocupados com seus triciclos e caminhões de brinquedo, brindam o cotidiano com seus corpos torneados que despertam desejos indiscretos. Musas que antes escondiam a pureza agora dançam sob olhares contaminados de luxúria... o que se fez da cidade e dos lares que antes permaneciam invadidos pelo mato e pela calmaria dos roceiros? Onde estão os roceiros?

Pois é... estranho retornar e perceber a vida, mesmo com sentimentos que se fazem descobrir... estranho perceber que se finda um estágio e todo destino tem um fim. Estranho retornar e ter saudades, reconsiderar velhos hábitos e velhas atribuições: nada passou!

Calo-me uma vez mais e deixo o som do vento, que ainda é o mesmo, habitar minha mente áspera por novos caminhos...

Beijos,

E.

Sunday, June 10, 2007

Descobrimento

Em um primeiro momento eu estranhei completamente: todas pardas, sem qualquer pudor de demonstrar as vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que não me feriam a decência. Sentia-me a adentrar em nova fauna, talvez fosse um paraíso onde as naturezas se mesclavam e certamente eram tão férteis que poderiam me conduzir à liberdade. Perdia-me entre as belezas a medida em que avançava lentamente como um explorador inexperiente.

 

Algumas tinham em seus braços contas brilhantes e sobre os olhos tinturas que combinavam com as cores do beiço. Todas traziam cabelos distintos entre si: brilhosos e variados, curtos ou longos e, em alguns casos, amarrados com contas como as dos braços. Quem as visse com mamas tão fartas, diria serem ótimas parideiras, mães cuidadosas que ganharam desenvoltura com tantos filhos que tiveram. Sorriam de forma estranha e ainda assim não me incomodavam. Como se o fizessem naturalmente, como parte daquela sina de estarem ali nuas e avermelhadas pelas luzes do ambiente.

 

E de repente pude me sentir notado: minhas roupas eram estranhas e meu andar acanhado não combinava com o que via. O som que emitiam não era de língua conhecida, dançavam ao embalo de música tribal e apontavam-me seus dedos com unhas esmaltadas enquanto riam estranhamente. Assustei-me com aquele êxtase e pensei estarem em ritual étnico: talvez estivessem enfeitiçadas por um totem que eu não via naquele mundo que me descobria.

 

Foi quando me senti envergonhado e selvagem por desconhecer. Eu me senti selvagem e perdido: prestes a ser descoberto. Encontrava-me distante de meu habitat onde, embora sem tão farta fauna e flora, eu sabia onde pisava. Meu habitat poderia não ser um paraíso, mas, naquele céu de agora, eu me via sem meus limites e era como se um novo continente despontasse em mim.

 

E fui descoberto, fui visto, fui explorado pelos olhos e pelos risos que se dirigiam a mim.

 

Quis por um instante correr em direção a nau estacionada fora dali e me esquecer das tapuias de belas cabeleiras. Quis fugir para me esconder das faces que me buscavam e me despertavam a sensação que desconhecia. Que me buscavam na curiosidade, na ingenuidade virgem de meus poucos anos: aquelas tapuias seriam o próprio inferno que me levaria à liberdade!

 

Uma delas se aproximou e me tomou pelo braço. Todas pararam a dança e me tornei um foco no centro do círculo. Notei, então, outros avermelhados nus, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Outros que não faziam mais caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas, que as tinham como eram as minhas e que, aos poucos, tomavam forma e ficavam à mostra conforme a tapuia me tirava o traje provinciano. Eram outros que as acompanhavam e eu não notara antes pela cegueira de minha inocência: estavam todos nus e então nu eu me tornei.

 

Desceram todas de lugares que não sabia e aumentaram o círculo ao meu redor. Retomara a dança e abaixavam-se e levantavam-se em um ritmo que não soube precisar. Batiam palmas como se estivessem em um transe primitivo. Algumas surgiram pintadas acima da cintura e raspadas até por cima das orelhas; assim mesmo de sobrancelhas e pestanas. Traziam as testas, de fonte a fonte, tintas de tintura preta que parecia uma fita preta da largura de dois dedos. Cabelos mais compridos e mamas mais suculentas, mas suas vergonhas eram como as minhas e como as dos outros que acompanhavam as outras. Intimidei-me quando tocaram em meu corpo, mas acabei por aceitar o ritmo e passei a imitá-los na dança: abaixava e levantava-me como se soubesse o que era o ritual que os envolvia. Desconhecia a língua que falavam, mas me comunicava com todos em uma língua sem símbolos, sem verbos, sem fala... Agíamos conforme nossa natureza e estávamos todos descobertos.

 

A sensação se apoderou de mim e então pude sentir a liberdade. De salvador que pensei ser, eu me tornei salvo por aquela liberdade. Em mim havia agora um novo homem que aos poucos, lasso, descobria-se a si mesmo.   As fêmeas nuas e os machos que ali estavam sobre meu corpo foram a epifania que sempre procurei, que de sempre precisei. Eu fui descoberto e capturado. De explorador tornei-me a própria caça e então, finalmente, fui livre.

 

E.

Saturday, June 09, 2007

O sábado, ele e o filme francês

Tudo não passou de uma experiência mútua: sem desejo evidenciado, sem culpas, sem manipulações. Aconteceu de repente, num misto de energias e sentimentos do passado, guardados, contidos e mascarados pela amizade sincera.

Há tempos era apenas um garoto e Ela uma amadurecida idéia do que ele esperava. Trocavam informações de experiências, dela. Trocavam cartas e beijos virtuais que nunca aconteciam verdadeiramente! Tinham um medo, uma distância, uma exigência de silêncio que aos poucos os aproximava e os afastava. Tinham as almas sedentas e não poderiam saciar sem ultrapassar a limiar do sonho e do desejo negado.

Foram os mesmos até que tiveram a oportunidade. Foram anos até que houve a chance, única, de expressarem o que negavam veementemente. Ela sabia onde estava e ele, perdido, dizia a si mesmo que continuava o mesmo garoto! Talvez culpariam os vinhos e vodkas para justificar a entrega, um filme romântico que veio do velho continente e o avanço da hora. Talvez culpassem a distância que havia, a saudade ou até mesmo a ausência. Talvez nada culpassem e se afastassem pela manhã, sem que se lembrassem de quem eram.

Uma experiência mútua: o desejo seria suprimido, as culpas dispostas e as manipulações atribuídas ao causador da ebriedade. Tudo passaria de ser o de repente, o furor do passado guardado e o fator da amizade sincera, próxima e incapaz de negativas.

Mas aconteceu! E a beleza foi quando descobriram que nunca fora amor!

E.

Saturday, April 28, 2007

Algo que eu li e gostei...

"Eu já dei risada até a barriga doer, já fiquei um dia sem comer só pra me ver mais magro, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Já fiz cosquinha nos meus sobrinhos só pra pararem de chorar, Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo. Já quis ser médico,cientista,caçador e trapezista. Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone, já tomei banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo, Já fiz confissões antes de dormir num quarto escuro pro melhor amigo. Já confundi sentimentos, Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido.

Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus. Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais dificeis de se esquecer. Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já caí da escada de bunda. Conheci a morte de perto, e agora anseio por viver cada dia.

Já fiz juras eternas, já escrevi no muro da escola, já chorei sentado no chão do banheiro, já fugi de casa pra sempre, e voltei no outro instante.

Já saí pra caminhar sem rumo, sem nada na cabeça, ouvindo estrelas. Já corri pra não deixar alguém chorando, já fiquei sozinho no meio de mil pessoas sentindo falta de uma só.

Já vi pôr-do-sol cor-de-rosa e alaranjado, já bebi uísque até sentir dormentes os meus lábios, já olhei a cidade de cima e mesmo assim não encontrei meu lugar.

Já senti medo do escuro, já tremi de nervoso, já quase morri de amor, mas renasci novamente pra ver o sorriso de alguém especial.

Já acordei no meio da noite e fiquei com medo de levantar. Já apostei em correr descalço na rua, já gritei de felicidade, já roubei rosas num enorme jardim. Já me apaixonei e achei que era para sempre, mas sempre era um "para sempre" pela metade.

Já deitei na grama de madrugada e vi a Lua virar Sol, já chorei por ver amigos partindo, mas descobri que logo chegam novos, e a vida é mesmo um ir e vir sem razão.
Cheguei mais longe depois de acreditar que não podia mais, já fiz tantas coisas, mas sempre aprendi que o importante é saber até onde se pode chegar, e aceitar suas limitações.
Foram tantas coisas feitas, momentos fotografados pelas lentes da emoção, guardados num baú, chamado coração."

Sunday, March 18, 2007

Domingo de Sol

Hoje à tarde enquanto passava pela Praça Buenos Aires, vi duas velhinhas de mãos dadas que sorriam felizes a caminhar pelos jardins. Sorri de volta e questionei a mim mesmo se eram irmãs ou amigas de longa data... elas se sentaram em um banco próximo à fonte e recostaram-se uma na outra com uma intimidade única.

 

Tomei de meu jornal e me assentei sob as amendoeiras em uma cena típica de domingo. Tirei meu chapéu e ainda curioso olhava vez ou outra a dupla a minha frente que riam em intimidade crescente. Por um momento quis ir até elas e me ingressar na alegria contagiante, ainda que por apenas alguns instantes. Coloquei novamente meu chapéu, apoiei-me sobre a bengala e dirigi-me, recalcitrante, em direção às vozes.

 

Cumprimentei-as educadamente e perguntei de onde tiravam tanto gosto pela vida naquele domingo de sol. Elas tomaram a mão uma da outra e quase em uníssono responderam: da certeza de que comemoramos hoje 50 anos que estamos juntas como um casal feliz.

 

Como em um filme, eu apenas balancei minha cabeça, ajeitei meus óculos e pus-me a caminhar, pensativo, em direção a amendoeira onde leria meu jornal... como a vida é estranha, não?

 

E.

Wednesday, February 28, 2007

Só por hoje

Só por hoje preciso de um pouco menos de calor. Só por agora, neste exato momento, preciso me esquecer que tudo está onde deveria estar e toda a escolha que fiz tem uma razão que antes desconhecia...

Só por hoje vou pensar que aquela pequena que encontrei nunca me olhou senão como um amigo, ainda que lhe cobiçasse a intimidade...

Só por hoje vou pedir a mim mesmo que se apague de minha memória aquele que mais amei e nunca mereceu quem fui...

Só por hoje, vou tentar tomar mais um martini, trancar as portas e pensar: tudo passa, sempre!!!

Sunday, February 18, 2007

Natural

Perdi a mim mesmo naquele exato momento. Foi como se minha natureza mudasse, como se eu deixasse por um instante de ser eu mesmo. Ele, adormecido sob meus olhos, desnudava-se enquanto seus sonhos mais longínquos se compadeciam em movimentos rítmicos. Não tive coragem de tocá-lo: simplesmente o amei, profundamente! E disse a mim mesmo que teria jamais sua libido, teria jamais sua companhia se não fosse para o deleite de uma sincera amizade.

Foi-se minha natureza e todo o desejo que despertava em mim as suas curvas fálicas. Foi-se minha liberdade de tocá-lo uma vez mais, pois abri mão em nome do amor.

Por agora, ainda que lute, sei que não haverá mais guerra...

E.

Monday, January 01, 2007

Que venham os tédios!

Por favor, não me culpe por achar que lugar nenhum é meu nessa festa de família. Por favor, não me chame de estranho por eu querer dirigir a mim mesmo e me colocar acima do poder que os outros desejam exercer sobre mim. Não quero me importar com as opiniões externas e tampouco com as lástimas que me dizem ao confessar a mediocridade de suas vidas vazias: são todos vazios porque se colam à imagem que criaram para eles e seguem essa imagem fielmente.

 

Aquele o bonzinho e por isso mesmo não pode expressar sua raiva quando a criança lança seu vômito sobre ele. O outro, simpático, evita dizer à tia o quanto é feio seu vestido de chita... todos comprometidos com a imagem que lhe entregaram, amarrados em seus limites que são impostos pelos outros, sempre os outros!

 

Ah o poder! Sempre o poder. O que faria se não tivesse que pensar no que pensam de mim? O que faria se realmente encontrasse um lugar na festa e me colocasse sob a égide que desenham pela minha inteligência? Continuaria livre? Saberia soltar meu canto com a mesma intensidade e rir de pequenos besouros que rondam a porta de entrada? Conseguiria eu falar com os cães e dar-lhes comida quando todos bebericavam de cervejas e refrigerantes insólitos? Não sei!

 

Então não me culpe, por favor. Não me culpe por blasfemar e afastar a divindade como justificativa para meu erro. Não me culpe por achar o pecado minha expressão natural e encontrar na sexualidade o meu natimorto egoísmo... sim, natimorto e ressuscitado como fênix em cada corpo que olho e almejo para mim, sem dividir, sem pedir, sem libertar!

 

Agora preciso dormir, como sempre. Dormir para acordar para essa nova estação onde tudo é claro e preciso, pois pertence a mim...

 

Abraços,

 

E.