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Mostrando postagens de 2007

Carta para A.

Oi A.,   Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...   Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seri...

Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.   E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.   E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca...

Quinteto

  Culpo os ares provincianos que limpam meu pulmão. Culpo a chuva e as músicas que abomino. Culpo também a inveja que enche meu peito ao ver todos casados e a celebrar os filhos que possuem. Culpo a simplicidade e a busca do aprimoramento, mesmo quando o fim é a única certeza que possuem. Culpo o sol a pino e os salgados servidos com refrigerantes da região. Culpo o carinho materno e os telefonemas familiares às festividades natalinas. Culpo o comércio repleto e os sorrisos que desafiam a economia... culpo a vida que possuem, que cultivam, que esperantam e jubilam.   E depois culparei meus livros. Culparei os fantasmas enterrados que retornam à herança. Culparei quando os busquei e os tornei vivos. Culparei a sinceridade com que me olhavam e pediam socorro. Culparei minha ignorância das palavras curtas e pensamentos retos.   Assim, para celebrar, terei apenas o quinteto abominável que ainda não culparei para que não existam em mim: Axé, funk, sertanejo, rap e forró....

Colóquio

Não saberia a distância entre a filosofia e a poesia sacra. Não saberia sequer se poderia, com minhas tertúlias vespertinas, ter meu nome Petrus ou Paulus... ou mesmo retornar ao continente e saudar meus deuses de outrora.   Há dias em que tudo não passa de poesia e Pessoa invade meus olhos para, ao som de Guardador de Rebanhos, cantar meu sentimento frugal: "Não acredito em Deus porque nunca o vi..." E quando solto meu brado, percebo que nunca estive no mundo. E Pessoa se vai...   Não vou retornar aos vazios. Recuso-me meus vazios. Minhas letras dizem de epifanias nunca vividas, nunca sentidas. Há fantasmas por toda parte de meu ser que reclamam por atenção e outros que se perdem nos dias em que me cerco de livros e letras para passar o tempo. Eu nunca estive no mundo.   Disse uma vez um pequeno que sua garota veio pela internet. O outro, dizia sobre honras de pelos pubianos nunca aparados. E riam, inebriados pelo mundo, enquanto em silêncio eu buscava de Petrus e...

Descanse em Paz... velho jovem

Nem sempre o alívio vem imediatamente após a ingestão do remédio e isso é o que há de mais assustador. Eliminam-se os sintomas, mas as causas dos dores ainda estão ali, latentes para serem combatidas pelos espíritos mais fortes... e isso é um saco! Se o corpo é liberto do mal que o assola, rendemo-nos solitários para combater as causas mais bizarras que nascem dos lugares mais recônditos do ser. Nossa responsabilidade se apresenta crua e nos chama a resolver problemas longínquos que pensávamos nunca existir.   Exatamente agora sei porque as aspirinas são tão comuns: elas nada fazem senão aliviar uma dor presente que pode atrapalhar o cotidiano. E como sinto falta do cotidiano e do medianismo que habita as ruas. Como sinto falta das expressões tacanhas que habitam o mundo e mergulham seus viventes em seus prazeres sem contestar origens e conseqüências! Como sinto falta da mediocridade que alegra os que não percebem os malefícios da descoberta, da "pílula" que o liberta...

Todo dia ainda é domingo...

Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu a via, e sempre eu a via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito: às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns a todos e que juntas apetecia seu ser. Era feliz com isso! Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia tão comum como os outros. Mas ela não veio. Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela se havia mudado e fora se despedir de todos: iria morar com os filhos! Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observá-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domi...

Os domingos pela manhã

  Diziam-me que nos segundos que antecedem seu último suspiro toda sua vida passa pelos seus olhos... estranho, não? Eu me senti completamente perdido por esses dias e toda minha vida, de tempo em tempo, passava diante de mim como um filme antigo, daqueles onde o mocinho sempre passa por enormes tribulações antes de salvar a mocinha do vilão... e eu era o vilão, a mocinha e o mocinho!!!   Não me salvei a mim mesmo, mas consegui chegar a tempo para evitar que o final se passasse sem que participasse dele. Estou bem agora.   Talvez eu tenha algum acesso de boa auto estima e volte a escrever com frequência, a dizer coisas interessantes e ser um ponto legal na vida de alguém. Caso eu consiga, ficarei bem e cuidarei para que minhas linhas cheguem a você, nas manhã de domingo, quando o leiteiro passar.   Beijos,   E.

Retonar e reviver...

É estranho retornar. As ruas não são as mesmas e em cada passo uma memória que insiste em permanecer. Ela nunca esteve ausente, nunca se foi, sempre esteve ali, resistente ao tempo e às modificações exteriores do corpo. As rugas e alguns fios brancos que ainda restam em mim fazem jus ao tempo, ao tempo e à distância que se fez da última vez que lá estive... é estranho retornar. Não há mais aquele ar lúdico próprio da primeira juventude. Não há mais. Como se a primeira infância, inocente, nunca houvesse passado... nunca houvesse existido e as palavras que outrora soavam tão sábias hoje não passam de jogos sem sentido. Não revejo a magia das vassouras voadoras que habitavam minha imaginação e mesmo aquela senhora idosa, cheia de força e fofocas, não mais está lá à janela como a bisbilhotar a vida alheia: é de seu velório que agora participo. Faz tempo, repito... muito tempo e retornar faz com que o tempo seja maior! Os pequenos de outrora, ocupados com seus triciclos e caminhões de brinq...

Descobrimento

Em um primeiro momento eu estranhei completamente: todas pardas, sem qualquer pudor de demonstrar as vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que não me feriam a decência. Sentia-me a adentrar em nova fauna, talvez fosse um paraíso onde as naturezas se mesclavam e certamente eram tão férteis que poderiam me conduzir à liberdade. Perdia-me entre as belezas a medida em que avançava lentamente como um explorador inexperiente.   Algumas tinham em seus braços contas brilhantes e sobre os olhos tinturas que combinavam com as cores do beiço. Todas traziam cabelos distintos entre si: brilhosos e variados, curtos ou longos e, em alguns casos, amarrados com contas como as dos braços. Quem as visse com mamas tão fartas, diria serem ótimas parideiras, mães cuidadosas que ganharam desenvoltura com tantos filhos que tiveram. Sorriam de forma estranha e ainda assim não me incomodavam. Como se o fizessem naturalmente, como parte daquela sina de estarem ali nuas e averme...

O sábado, ele e o filme francês

Tudo não passou de uma experiência mútua: sem desejo evidenciado, sem culpas, sem manipulações. Aconteceu de repente, num misto de energias e sentimentos do passado, guardados, contidos e mascarados pela amizade sincera. Há tempos era apenas um garoto e Ela uma amadurecida idéia do que ele esperava. Trocavam informações de experiências, dela. Trocavam cartas e beijos virtuais que nunca aconteciam verdadeiramente! Tinham um medo, uma distância, uma exigência de silêncio que aos poucos os aproximava e os afastava. Tinham as almas sedentas e não poderiam saciar sem ultrapassar a limiar do sonho e do desejo negado. Foram os mesmos até que tiveram a oportunidade. Foram anos até que houve a chance, única, de expressarem o que negavam veementemente. Ela sabia onde estava e ele, perdido, dizia a si mesmo que continuava o mesmo garoto! Talvez culpariam os vinhos e vodkas para justificar a entrega, um filme romântico que veio do velho continente e o avanço da hora. Talvez culpassem a distância q...

Algo que eu li e gostei...

"Eu já dei risada até a barriga doer, já fiquei um dia sem comer só pra me ver mais magro, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Já fiz cosquinha nos meus sobrinhos só pra pararem de chorar, Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo. Já quis ser médico,cientista,caçador e trapezista. Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone, já tomei banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo, Já fiz confissões antes de dormir num quarto escuro pro melhor amigo. Já confundi sentimentos, Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido. Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus. Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais dificeis de se esquecer. Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já ca...

Domingo de Sol

Hoje à tarde enquanto passava pela Praça Buenos Aires, vi duas velhinhas de mãos dadas que sorriam felizes a caminhar pelos jardins. Sorri de volta e questionei a mim mesmo se eram irmãs ou amigas de longa data... elas se sentaram em um banco próximo à fonte e recostaram-se uma na outra com uma intimidade única.   Tomei de meu jornal e me assentei sob as amendoeiras em uma cena típica de domingo. Tirei meu chapéu e ainda curioso olhava vez ou outra a dupla a minha frente que riam em intimidade crescente. Por um momento quis ir até elas e me ingressar na alegria contagiante, ainda que por apenas alguns instantes. Coloquei novamente meu chapéu, apoiei-me sobre a bengala e dirigi-me, recalcitrante, em direção às vozes.   Cumprimentei-as educadamente e perguntei de onde tiravam tanto gosto pela vida naquele domingo de sol. Elas tomaram a mão uma da outra e quase em uníssono responderam: da certeza de que comemoramos hoje 50 anos que estamos juntas como um casal feliz.   ...

Só por hoje

Só por hoje preciso de um pouco menos de calor. Só por agora, neste exato momento, preciso me esquecer que tudo está onde deveria estar e toda a escolha que fiz tem uma razão que antes desconhecia... Só por hoje vou pensar que aquela pequena que encontrei nunca me olhou senão como um amigo, ainda que lhe cobiçasse a intimidade... Só por hoje vou pedir a mim mesmo que se apague de minha memória aquele que mais amei e nunca mereceu quem fui... Só por hoje, vou tentar tomar mais um martini, trancar as portas e pensar: tudo passa, sempre!!!

Natural

Perdi a mim mesmo naquele exato momento. Foi como se minha natureza mudasse, como se eu deixasse por um instante de ser eu mesmo. Ele, adormecido sob meus olhos, desnudava-se enquanto seus sonhos mais longínquos se compadeciam em movimentos rítmicos. Não tive coragem de tocá-lo: simplesmente o amei, profundamente! E disse a mim mesmo que teria jamais sua libido, teria jamais sua companhia se não fosse para o deleite de uma sincera amizade. Foi-se minha natureza e todo o desejo que despertava em mim as suas curvas fálicas. Foi-se minha liberdade de tocá-lo uma vez mais, pois abri mão em nome do amor. Por agora, ainda que lute, sei que não haverá mais guerra... E.

Que venham os tédios!

Por favor, não me culpe por achar que lugar nenhum é meu nessa festa de família. Por favor, não me chame de estranho por eu querer dirigir a mim mesmo e me colocar acima do poder que os outros desejam exercer sobre mim. Não quero me importar com as opiniões externas e tampouco com as lástimas que me dizem ao confessar a mediocridade de suas vidas vazias: são todos vazios porque se colam à imagem que criaram para eles e seguem essa imagem fielmente.   Aquele o bonzinho e por isso mesmo não pode expressar sua raiva quando a criança lança seu vômito sobre ele. O outro, simpático, evita dizer à tia o quanto é feio seu vestido de chita... todos comprometidos com a imagem que lhe entregaram, amarrados em seus limites que são impostos pelos outros, sempre os outros!   Ah o poder! Sempre o poder. O que faria se não tivesse que pensar no que pensam de mim? O que faria se realmente encontrasse um lugar na festa e me colocasse sob a égide que desenham pela minha inteligência? Contin...