Descanse em Paz... velho jovem


Nem sempre o alívio vem imediatamente após a ingestão do remédio e isso é o que há de mais assustador. Eliminam-se os sintomas, mas as causas dos dores ainda estão ali, latentes para serem combatidas pelos espíritos mais fortes... e isso é um saco! Se o corpo é liberto do mal que o assola, rendemo-nos solitários para combater as causas mais bizarras que nascem dos lugares mais recônditos do ser. Nossa responsabilidade se apresenta crua e nos chama a resolver problemas longínquos que pensávamos nunca existir.

 

Exatamente agora sei porque as aspirinas são tão comuns: elas nada fazem senão aliviar uma dor presente que pode atrapalhar o cotidiano. E como sinto falta do cotidiano e do medianismo que habita as ruas. Como sinto falta das expressões tacanhas que habitam o mundo e mergulham seus viventes em seus prazeres sem contestar origens e conseqüências! Como sinto falta da mediocridade que alegra os que não percebem os malefícios da descoberta, da "pílula" que o liberta da Matrix de ilusões capaz de satisfazer até o mais exigente dos seres...

 

Exatamente agora me recuso a chorar quando vejo quem sou. Exatamente agora preciso de todos os domingos que desenhei e dos poemas que escrevi para retornar à fantasia de minhas aspirinas, de minhas crenças sem razões e atos impensados que cometia em nome do esquecimento! Exatamente agora gostaria de não viver e descobrir quem sou...

 

Mas o tempo é inexorável amigo e sempre nos arrebata em direção à Lei. É hora de reconstruir e aprender conviver com a descoberta e deixar "de ser menino e fazer as coisas de menino". Calemo-nos nesse instante e façamos um minuto de silêncio: descanse em paz velho jovem!

 

E.

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