Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.

 

E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.

 

E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca deixarei de ser. E ainda questiono, sou humano? Sim, sou humano, demasiado humano e estou no mundo. Ainda que sobrevoe pelos céus da erudição, sei que é o mundo onde experimentarei minha mais humana condição. E sei que nada é maior que a solidão do intelecto...

 

Detesto quando me sinto apegado a tudo que me cerca e detesto mais ainda quando esse apego me machuca. Detesto porque me cerceia a liberdade que tenho, pois preciso me conter para não machucar meu derredor. E assim tolho meu próprio ser interior para não corromper a massa com o rompante de minha liberdade de pensar. Tolho para que não se assustem quando virem que liberdade está em viver agora, sem nostalgia, sem planos que impeçam o presente. Tolho para que, mesmo sem querer, possa socialmente conviver, escutar e rir de piadas esdrúxulas que dizem das escatologias humanas. E ainda assim sou humano, demasiado humano para que algo humano me estranhe. Demasiado humano para fugir das leis humanas de nascer, viver e partir!

 

E mesmo Petrus passará, todavia. No momento certo ele irá partir, assim como todos: Laura, Horário, Lucas e Allan. No momento certo, após viver intensamente, ele irá deixar sua essência em mim para encontrar novos mundos que compreendam sua filosofia. Iremos, enfim.   Como todos os bípedes condenados a viver e partir sem que possam interferir nessa lei: nascer, viver e partir! E terei a liberdade de escolher entre partir e permanecer, ainda que em espírito possa apenas continuar e continuar e continuar eternamente? E terei a benção do retorno? E terei, Petrus?

 

Dormitarei na dúvida enquanto nasce em mim para depois viver em mim. Voarei e tocarei o alto, na mudança, uma vez mais...

 

Por enquanto....

 

E.

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