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Mostrando postagens de maio, 2009

Ana

Penteava seus cabelos preguiçosamente a se mirar no espelho. Tinha um viço profundo, distante do tempo em que ainda não se sabia viva, não se sabia capaz dessa liberdade a se exaurir dos poros quase que involuntariamente. Olhos grandes e expressivos, lembra-se. Lábios carnudos, firmes e de um vermelho incomum. Amou-se enquanto se penteava. Amou-se tão profunda e lentamente que por um segundo sentiu-se transportar ao tempo recordado. Viu-se. Viu-se tão nítida que se emocionou. Viu-se tão viva que se quis e se quis tanto e tanto que se pôs a chorar. Ana, chamou-se a si mesma. Ana de Ana da igreja que foi mãe de sua mãe. Considerou-se filha da virgem. Da virgem que tanto lhe acompanhou nas noites em que chorou sorrateira escondida de todos. Que se escondeu de todos que apontavam seu pecado. Que apontavam Ana por ser João. Voltou. Um instante mudo lhe mareou os olhos. Corrigiu sua maquiagem e sorriu leve. Quis-se novamente. Não se deixaria abater pelos que condenavam seu amor. Desc...