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Mostrando postagens de dezembro, 2007

Carta para A.

Oi A.,   Ontem foi o aniversário de Bertha... fiquei preocupado como fazia tempo que não falava com ela, daí resolvi ligar para saber como estava e terminei por cumprimentá-la por seu aniversário – que nem ao menos me lembrava. Ela está envolvida na novena de Aparecida e parece que esse ano ficarão pelo menos 3 dias na cidade. Ela me pareceu feliz e perguntou quando poderíamos visitá-la. Parece que sarou daquelas dores de cabeça e atualmente pratica judô com a comunidade do bairro. É incrível, A., mas apesar dela morar na Saúde, que não é tão longe assim de minha casa, passamos muito tempo sem nos falar...   Eu soube que o ex-marido andou por rondá-la agora nas férias dos meninos. Ele é realmente um pássaro maldito, pois criou asas e saiu da gaiola para ter outras pessoas ao seu redor. E não é que a Bertha deu a volta por cima? Diz ela que aquelas dores de cabeça estavam diretamente relacionadas ao sumiço do homem... Se ele ainda tivesse morrido ou realmente desaparecido seri...

Nascer

Pensei diversas vezes em mudar o nome. Talvez o nome e o contexto, mas iniciar a mudança de alguma forma. Assim aos poucos, uma coisa de cada vez, uma coisa a cada dia, como uma força motriz que iniciada não poderia mais parar, mas que em pequenas dosagens deixasse sua marca indelével ao final.   E o nome seria Petrus. Isso mesmo. Petrus porque me lembra o entregador que foi ao apartamento onde estava na véspera de meu retiro. Talvez me sinta mais forte com o nome que ora me batizo. Talvez me sinta mais eu mesmo, pois fui quem escolheu o nome. Talvez não me sinta, mas serei quem quiser que eu seja. E serei Petrus, por enquanto. Petrus com essência de Petrus. Petrus porque o nome me seduz e me diz que posso tudo quando realmente desejo.   E tudo não poderia ser além do mundo, pois de alguma forma é preciso sobreviver no mundo. Embora o contato com os homens me deixe menos humano a cada dia, é preciso que existam para que eu saiba quem sou, ou o que me torno, ou o que nunca...

Quinteto

  Culpo os ares provincianos que limpam meu pulmão. Culpo a chuva e as músicas que abomino. Culpo também a inveja que enche meu peito ao ver todos casados e a celebrar os filhos que possuem. Culpo a simplicidade e a busca do aprimoramento, mesmo quando o fim é a única certeza que possuem. Culpo o sol a pino e os salgados servidos com refrigerantes da região. Culpo o carinho materno e os telefonemas familiares às festividades natalinas. Culpo o comércio repleto e os sorrisos que desafiam a economia... culpo a vida que possuem, que cultivam, que esperantam e jubilam.   E depois culparei meus livros. Culparei os fantasmas enterrados que retornam à herança. Culparei quando os busquei e os tornei vivos. Culparei a sinceridade com que me olhavam e pediam socorro. Culparei minha ignorância das palavras curtas e pensamentos retos.   Assim, para celebrar, terei apenas o quinteto abominável que ainda não culparei para que não existam em mim: Axé, funk, sertanejo, rap e forró....

Colóquio

Não saberia a distância entre a filosofia e a poesia sacra. Não saberia sequer se poderia, com minhas tertúlias vespertinas, ter meu nome Petrus ou Paulus... ou mesmo retornar ao continente e saudar meus deuses de outrora.   Há dias em que tudo não passa de poesia e Pessoa invade meus olhos para, ao som de Guardador de Rebanhos, cantar meu sentimento frugal: "Não acredito em Deus porque nunca o vi..." E quando solto meu brado, percebo que nunca estive no mundo. E Pessoa se vai...   Não vou retornar aos vazios. Recuso-me meus vazios. Minhas letras dizem de epifanias nunca vividas, nunca sentidas. Há fantasmas por toda parte de meu ser que reclamam por atenção e outros que se perdem nos dias em que me cerco de livros e letras para passar o tempo. Eu nunca estive no mundo.   Disse uma vez um pequeno que sua garota veio pela internet. O outro, dizia sobre honras de pelos pubianos nunca aparados. E riam, inebriados pelo mundo, enquanto em silêncio eu buscava de Petrus e...

Descanse em Paz... velho jovem

Nem sempre o alívio vem imediatamente após a ingestão do remédio e isso é o que há de mais assustador. Eliminam-se os sintomas, mas as causas dos dores ainda estão ali, latentes para serem combatidas pelos espíritos mais fortes... e isso é um saco! Se o corpo é liberto do mal que o assola, rendemo-nos solitários para combater as causas mais bizarras que nascem dos lugares mais recônditos do ser. Nossa responsabilidade se apresenta crua e nos chama a resolver problemas longínquos que pensávamos nunca existir.   Exatamente agora sei porque as aspirinas são tão comuns: elas nada fazem senão aliviar uma dor presente que pode atrapalhar o cotidiano. E como sinto falta do cotidiano e do medianismo que habita as ruas. Como sinto falta das expressões tacanhas que habitam o mundo e mergulham seus viventes em seus prazeres sem contestar origens e conseqüências! Como sinto falta da mediocridade que alegra os que não percebem os malefícios da descoberta, da "pílula" que o liberta...