Um dia, Francisco




Eu celebro o tempo que tive e a vida que tenho. Eu celebro o que sou e me torno. Eu celebro a mim. A angústia passou, assim como o leite amargo que já não faz mais sentido… ele também passou, como todos os outros que nada ofereciam. 

Eu celebro o tempo que sou, a queda que tenho e a vida que surge… as cores que ficam vívidas e os olhos cansados que precisam de lentes para ver. E agora, as lentes são minhas. Os meus (familiares) passaram, como disse Belchior, estão em casa (deles). Como diz a canção, os meus cabelos um dia estiveram ao vento, e agora ele está no meu imaginário… o imaginário. Uma realidade interna, daquelas que são construídas pelo inconsciente, onde habitam os demônios de meu inferno. E os anjos do meu céu. E o Adão, negro, que com Eva prova do fruto proibido… da maçã que era banana, que era serpente, que era Satã e também era D’us na minha fábula de senix.


Eu celebro o tempo… de quando eu ainda era capaz de amar Marina, ou Bruno, ou qualquer outro que me oferecesse uma xícara de café com leite amargo. Ainda gosto de leite amargo. E de Brunos e Marinas para me divertir por um momento ou dois. E depois, pelo que não representam, seguirão infantes fazendo coisas de infantes. Voando como borboletas. Soltando palavras sem sentido.


O tempo passou, meus cabelos caíram, meus olhos estão fracos e precisam de lentes para ver o colorido da vida externa… eu amo o tempo, a idade, a vida que tenho. Amo minhas fotos incríveis, meu riso e meu choro. 


Eu amo, sobretudo, quem sou.


Um dia, Francisco… mais um dia: o Mago, o Sábio e o Homem.

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