Reflexões sobre o instinto
Dentro da clínica psicológica, percebemos que muita gente
age totalmente tomada pelo instinto, de forma que a razão e a emoção têm
influência secundária em suas decisões. Vivem com a ânsia da sobrevivência,
focando apenas naquilo que pode satisfazer o prazer momentâneo e imediato. Parece
que passam anos procurando tapar seus buracos de subsistência sem que possam se
dar conta de que a vida vai além dos pequenos prazeres e caminhar pelo solo.
Por serem ignorantes de que são dominados pelos seus desejos
e faltas, perdem-se em teorias sobre o poder e eficiência, quando o “aqui e
agora” se torna pano de fundo para decisões e ações que, na maioria das vezes, são
incapazes de preencher o vazio que vivem – e desconhecem. Morrem sem terem
encontrado um significado, são tomados por doenças físicas e psíquicas (e todas
as doenças são primeiramente psíquicas) e sucumbem, definitivamente.
Essa é a tal normalidade. Esse é o tal senso comum que
dispensa conhecer algo além do que pode ser tocado, cheirado, visto e ouvido.
Na prática da Magia, muitos são convidados para aprofundarem
em uma seara que vai além do invisível, onde o contato com os habitantes do
além pode revelar segredos incríveis ao olho destreinado. Mortos podem levantar
e curas físicas podem acontecer. Renovações, novas conquistas, uma vida plena
que não necessariamente precisa ser fácil. Sim, a Magia pode e deve ser capaz
de trazer ao praticante o preenchimento de sua busca, a completude e a
satisfação de estar onde deveria estar.
Mas, o que impede que cada um alcance esse mérito?
A resposta é simples: o instinto. A natureza selvagem do ser
humano ainda é o maior impedimento de sua realização. É a sua preocupação com o
alimento que ainda não veio que o faz ter pouca energia para entender além do
alimento... e faz sentido que famintos não possam praticar Magia e que enfermos
tenham pouca energia a movimentar. Se suas necessidades animais não estão
satisfeitas, é a natureza animal que estará em evidência. Se as necessidades animais
forem adequadas ao que são, ou seja, à sobrevivência, então o ser é capaz de
buscar a verdadeira vida além da vida.
A beleza da Magia não está apenas em um ritual de cura ou
nas danças de nossos antepassados que se movem ao vento nas festas de
Egungun... a beleza da Magia está em sentir a plenitude, em encontrar o
equilíbrio e deixar de depender do seu lado animal para seguir vivo no planeta.
Esclareço: deixar de depender não é abandonar emprego, é não
ser escravo dele. É diferente. Não é menosprezar o dinheiro ou o sexo, é ter o
lugar adequado para cada uma dessas coisas sem ser tomado por elas como o único
fim da vida.
São reflexões intensas, eu diria... o verdadeiro poder está
em reconhecer que se tem poder, que pode dobrar a realidade e seus elementos
pela própria Vontade – e conhecer sua Vontade.
Mas... isso será um outro texto, por hoje é só.
Um abraço,
Fra.

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