O peru e a cigana

Nunca tinha pensado em quanto tempo passamos a comer ou a pensar em lembranças distantes. Como mulher, sinto meus dias cheios e os pensamentos fogem da lógica do cotidiano. Ontem, mal havia acordado, deixei as camas de meu apartamento penduradas no varal e desci ao açougue para comprar osso buco para o almoço. Ele não viria comer em casa, mas eu estava em uma manhã totalmente feliz. Uma alegria quase estranha, quase verde. Uma alegria capaz de dizer às flores de meu prédio o quanto as amo, ainda que não possam retribuir meu sentimento da mesma forma. Era uma sensação de plenitude por si, de existir por si. Mesmo sem que houvesse alguém por perto para me dizer que eu existia.

Entrei e pedi por uma peça pequena, pois estaria sozinha para o almoço. O moço, cansado, devolveu-me um sorriso amarelo e enigmático, como se não entendesse o que faria com ossos. Seus olhos penetravam-me a pele e corei ao perceber que ele não conseguiria perceber. Talvez lhe faltasse informação, por isso não me importei. Saí a assoviar e coloquei uma margarida nos cabelos: gosto de deixá-los soltos no verão. Quando pequena, minha tia sempre dizia que aos moços devemos saudar timidamente para que não nos achem assanhadas demais. Lembrei-me de titia e assoviei ainda mais alto, quase saltitante de volta ao lar onde eu seria gente grande!

Passei na banca e comprei uma nova revista. Continuei meu pequeno trote até em casa e ainda deu tempo de pegar uma receita na TV para o final de semana. Estaria com minha cunhada para uma pequena recepção. Ela, feliz com o nascimento de seu primeiro filho, distribuía mais do que sorrisos: estava mais disposta, mais mulher. Lembrei-me de quando se casou e, na noite de núpcias, jogou um vaso em meu irmão quando ele chegou bêbado da rua. Ela era terrível, mas se fazia respeitar. Eram felizes nesses anos que estavam juntos e aos poucos se descobriam. Meu marido os achava barulhentos, mas havia amor entre eles e isso, a mim, bastava!

Na sexta passada eu resolvi tirar da geladeira aquela coxa de peru que comprei para o Natal. Decidi que era para celebrar minha véspera de sábado. Fiz com gosto: depois de temperar com alecrim e alho poró, deixei-a no forno por pouco mais de 2 horas e assim, com uma taça de vinho tinto, fiz um brinde à solidão do dia. Ele estava fora, como sempre, e eu me perdia em minhas idéias de dona de casa e família. Vinham sempre à mente as experiências mais estranhas que tive, as pessoas com quem conversei sem notar a existência... É estranha essa sensação de culpa que temos após ter comido tanto, por isso viajamos em idéias que tínhamos quando jovens... foi apenas uma simples coxa de peru acompanhada de arroz branco, salada e um boa sobremesa de abóbora com coco: já vi que meu natal será sem peru e oxalá sem que ele esteja em casa. Não importa, vou a Minas e passo com minha cunhada barulhenta.

Só sei que, depois da feita, desci para caminhar e terminei por me encontrar com uma cigana na praça. Ela me parou e pediu qualquer coisa para saciar sua fome. Ela tinha dedos compridos e unhas esmaltadas em preto. Tive medo e me assustei com as bijuterias que lhe cobriam o corpo macilento, sua pele escarrada pelas mentiras que o tempo lhe impunha aos ombros. Não sei exatamente que tipo de lembrança me tinha vindo à mente, mas o peru dentro de mim deus sinais de que precisaria sair a qualquer custo!

Ela se aproximou de mim e disse uma palavra qualquer no ritual que só ela mesmo entendia. Sorri. Mas em vias do incômodo, foi um sorriso sarcástico, irônico e tímido. Fingi que compreendia seu dialeto e ignorei seu cheiro. Lembrei-me do meu peru e voltei a caminhar com pressa para evitar um acidente antes de chegar a minha casa... Será que ele chegaria, finalmente?

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