Carta a Leila

Não quero ser pessimista ou demasiadamente dramático nas minhas palavras. Também não quero recorrer a mitomania para exemplificar essas dores de cabeça que mais parecem dores de parto... o parto de palavras que ainda irão surgir de mim em notas mal escritas e enviadas a ti como prova de minha sanidade. Não, minha Leila, não sou louco! Antes fosse para me unir aos demônios invocados por Dostoievski ao assassinar o conceito do divino Deus em sua literatura, ou talvez para negar minha responsabilidade e conclamar um positivismo barato ao dizer que isso é apenas uma fase e logo tudo voltará a progredir! Recuso-me a ser louco e sobretudo progredir enquanto não usar o ceticismo e a falta de fé como ferramentas de busca da verdade.

Não consigo dormir e vejo o sol nascer pela janela. Da mesma janela onde pela primeira vez vi Cécile despida a caminhar pelo viaduto a ofertar seu corpo por um pedaço de pão. Eu dei-lhe o pão na ocasião e depois de fazê-la apaixonar pelo que não sou a dispensei como se dispensa um cão. Não me odeia por isso, Leila, assim como eu também não me exalto por não ter a virtude da caridade... não sei mentir e fingir que sou digno e beato quando minha carne clama por outra carne sobre a cama. Cécile tinha seus seios intumescidos ao meu toque e corava quando suave minha mão deslizava pelas suas nádegas brancas. Ainda posso sentir a mesma ereção e o mesmo prazer quando evoco seu cheiro e me lembro de suas lágrimas ao enxotá-la nua na chuva naquela manhã de sábado. Era muito cedo e fazia um frio glamoroso, tépido aos que tinham coração europeu. Ela implorou por meu afeto e eu em um sorriso diabólico lhe disse que levasse para longe aquele esqueleto usado! Não quero ser demasiadamente dramático, por isso encerro o episódio de Cécile enquanto levanto meu cálice de brandy.

Quero agora questionar minhas possibilidades para não me tornar vítima de mim mesmo. Quero recusar ter fé ou esperança para procurar em mim respostas a tudo que sou. Resposta às possibilidades do que sou ou do que posso ser. Possibilidades tolhidas anteriormente pela vergonha e a incerteza, pela interferência da moral que me era externa e cegava meu entendimento com a exaltação de virtudes e regras para ser. Repudio-as, Leila. Repudio as regras para encontrar a essência. Repudio, nesse momento, toda inquisição fomentada nas esquinas e livros que ditam os costumes desse tempo. Repudio, definitivamente, Leila, as exigências de sucesso e de comportamento. E que não me venham com fórmulas e remédios: não preciso de remédio para suportar a realidade que encontrarei. Os remédios não resolvem Leila, apenas nos permitem conviver com o problema sem muito questioná-lo... não precisarei deles!

Como gosto dessa carnalidade de Mozart. Escuto-a repetitivamente e exausto sinto minhas dores de cabeça partirem. É como se me embriagasse por sua música e me perdesse com uma boa dose de brandy. É como se nada mais importasse senão essa minha presença irritante em mim. Preciso me esquecer de Cécile. De alguma forma ela ainda vem e me faz lembrar de certa humanidade. Não posso aceitar isso. Não posso aceitar que tenha algo de comum em mim. Não posso aceitar que venha a piedade ou a moral resgatar o que já se havia condenado!

Talvez seja apenas o começo, Leila. Apenas um começo...

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