A Cabrita Inês

Era Chico. Simples assim: Seu Chico. Um senhor de baixa estatura, gordinho e sorridente que morava pelos arredores da São João com seu amigo Osvaldo. Eram muito conhecidos pelos arredores, pelo jogo do bicho que traziam como distração ou pelas histórias da época em que foram arrolados na Guerra do Paraguai. Osvaldo era mais alto, sisudo com seu bigode e cabeleiras cinza. Sempre dizia de sua família no Paraná, para onde voltaria se conseguisse a sorte grande na milhar. Um dia desses ainda acertaria e mudaria seu destino. A cidade era pacata, aconchegante e sem muitas emoções em seu cotidiano. Embora com o nome de Brisas Suaves em Tupi Guarani, eram as altas temperaturas do verão que a caracterizavam.

O fato acontecera há cerca de dois anos, em meados de setembro. Tudo começou com um pagamento inusitado que Seu Osvaldo recebera por ter acertado na milhar da federal: uma pequena cabrita. Não é preciso dizer o quanto isso o deixou louco, já que sonhava com o dinheiro que lhe devolveria ao Paraná. Entrou em casa frustrado, quase a afastar os que lá foram para receber a benzedura de Seu Chico. Resmungou durante horas, irritado com a situação e sem saber o que fazer com uma filhote de cabra na cidade. Seu Chico tentou animá-lo, disse que poderiam vendê-la em Boa Vista dos Andradas ou simplesmente tomar-lhe conta já que ainda não tinham filhos. Com muito custo, resolveram por criá-la: deram-lhe o nome de Inês!

Inês cresceu saudável e corria pela casa como um ser humano. Era dócil, mansa e muito amiga das crianças que iam ao Seu Chico, levadas pelas mães para eliminar quebrantes e vento virado. Quase não a viam como um animal, tamanho envolvimento tinham pelos seus “bééés” que enchiam toda casa de vida. Seu Osvaldo mudou-se para o quarto da frente, junto com Seu Chico, e deixaram o quartinho dos fundos para cabra. Davam-lhe arroz, batatas e algumas outras verduras ricas em cálcio: diziam que era para que seu leite fosse bom e os ovos fartos. Um dia sozinho em casa, perdido em seus pensamentos e a fumaça de seu cachimbo, eis que Seu Chico escuta Inês reclamar de alguma coisa. Não, não era um festival de “bééés” que se fizeram ouvidos, mas alaridos altos de palavras em um português claro! O velho quase morreu de susto e mal Osvaldo adentrou pelo portão já gritou ao amigo que a cabra era abençoada por Oxossi.

Invadidos por uma alegria sem igual, foram ao quarto de Inês e a encontraram em um canto, olhando a ambos com um sorriso irônico de quem se diverte com a ignorância alheia. Do sorriso a gargalhada, a cabra se expunha em idéias de alto nível e teorias sobre o que nunca ouviram falar. Abobados pelo transe das palavras, imaginavam o quanto poderiam ganhar com a maravilha quando, de repente, Inês pára e se recolhe aos “bééés” que estavam acostumados: alguém batera na porta da frente. A cabrita não falaria com estranhos!

Durante um tempo imaginaram o que fazer com Inês; talvez fosse finalmente o caminho para que seus dias de penúria ficassem no passado e a vida valesse alguma coisa. Mas a cabra não falava com estranhos. Pensavam em registrar a conversa em um gravador de mão, mas temiam que fossem desacreditados. E a cabra falava sobre tudo, contava sobre todos e sabia sobre a vida de quem quer que morasse no vilarejo. De certa forma os dias passaram a ser agitados, pois quando não havia filas às benzeduras de Seu Chico, esgotavam o tempo com as histórias mais engraçadas sobre a população. Divertiam em segredo, já que talvez ninguém nunca acreditasse que Inês de fato conversasse com eles.

Mas a lua de mel encerrara-se em alguns meses: não tinha sentido de continuar. De repente a cabra deixou de ser um animal para tomar parte da família. Ela deixou de ser cabra, deixou de ter um sentido claro para existir. Não produzia o leite e seus ovos eram poucos. Apesar das opiniões e observações, a cabra tornou-se um animal inútil e improdutivo. Chico e Osvaldo hesitaram e temeram ser uma ofensa a Oxossi. Blasfemariam em achá-la inútil? Talvez nunca mais acertassem uma milhar no jogo do bicho! De certa forma amavam Inês, mas não conseguiriam manter a situação de um animal falante e improdutivo. Pensaram em uma saída e a única que encontraram foi sacrificar Inês para comerem de sua carne no natal.

Comentários

Anônimo disse…
coitada da Inês....mas como todo ser humano.....cheio de imperfeições....rs
Elton, tô com saudades!
Me liga vc sabe meu numero! a cobrar!

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