Kajal e Tertúlia

Não é tão simples assim me lembrar de Mariana. Dentro de mim ainda paira a força de seu olhar, a saudade de como éramos quando juntos e de tudo o que vivíamos em nosso esforço diário para sermos apenas comuns. Nunca fomos e por isso tudo era contra nós. Hoje quando passo de ônibus pela Avenida da Saudade, vejo ainda o velho cemitério onde a encontrei em êxtase em uma noite de lua cheia, completamente ensandecida e correndo pelos túmulos. Eu vi aquele vulto branco pular sobre as lápides frias e rir descaradamente como se possuída por uma força maior, uma força que lhe arrebatava o senso e a razão para lhe despejar felicidade... nua e totalmente molhada pela chuva, Mariana tinha os olhos muito abertos, cheios de um sentimento que anos depois saberia vir das drogas que usava para ficar lúcida. Sua lucidez era uma grande ironia, o que todos chamavam loucura.

O ônibus continua seu trajeto e vira próximo ao asilo Vicente de Paula, a continuar seu percurso em direção ao bairro Matarazzo. Em alguns minutos estarei em casa e minha esposa me saudará com um beijo, me perguntará sobre o dia e comeremos algo que ela fez durante a tarde após ter aprendido no programa de culinária. Não sei ainda se amo minha mulher ou se me acostumei com ela. Acho que me acostumei com sua presença quase imperceptível, seu andar sutil e seu jeito doce de me implorar por amor. Nesse momento ela me faz odiar a mim mesmo por meus pensamentos irem até Mariana: a louca que mordia meus lábios e me exigia sobre ela como prova de minha animalidade. Ao lado dela me sentia vivo, me sentia humano e profano. Ao seu lado tornei-me notívago e fui invadido pela mesma alegria que fluía por seus poros, quando éramos inseparáveis pelo nosso desejo de viver em intensidade. E vivíamos, sobretudo.

Desço no ponto próximo a antiga Algodoeira e logo avisto minha esposa ao portão. Ela sorri displicentemente e meus dois pequenos correm ao meu encontro, agitados e embalados pela inocência da infância. Uma inocência bela de quem ignora a maldade ou mundo... simplesmente inocência! Eles se entrelaçam em mim e caminhamos sorridentes a saudar os vizinhos e a ouvir com atropelos das histórias da escola, das frutas roubadas ou dos doces que puderam ser consumidos antes de jantar. Ao chegar ao portão minha esposa ri e diz para que se lavem para jantar. Beija-me suavemente nos lábios, diz algo de rotina e me avisa sobre uma carta que chegou de Santos com um nome estranho que não conseguiu entender. Na hora fico pálido e minhas pernas tremem fora do meu controle. À mente apenas um nome passou a me ocupar os pensamentos... não poderia ser! Após dez anos na obscuridade. Sem notícias. Sem... eu sabia que ainda... Mariana!

Disfarço, pego o envelope e saio na desculpa de me trocar para jantar. A mesma caligrafia e o mesmo código no remetente. Seco. Um envelope pardo, escuro, sem capricho. Ela sempre odiou ser comum, embora buscasse isso a todo momento. Odiava as aparências. Odiava ser percebida. No primeiro jantar que fizemos juntos, quando ela abaixou os olhos por um momento, eu tive a certeza de que a amaria até o final dos dias. Ela era intensa, reconhecia em mim o que em mim eu mesmo não encontrava. Com ela eu era apenas homem, não marido, pai, membro de associação. Era apenas um homem que amava uma mulher e estava com ela!

Sua carta era simples e breve: “vou para Madrid com nosso filho, preciso que assine o documento e me devolva o quanto antes!”. Sem emoções. Sem aquela tertúlia de que partilhávamos nas tardes, nas manhãs em que às margens do São José fumávamos baseado e prometíamos sermos eternos. Ali, em uma única linha, todo o passado tornava-se passado, uma página que não mais estaria na memória. Mariana... como um sonho adolescente deixado para trás! Mesmo o filho que carregava meu nome perdia-se naquela distância... Não mais seus lábios enegrecidos por kajal, não mais as idas ao bosque ou os poemas soturnos de que partilhávamos. Uma folha de papel, apenas!

Assinei. Fechei o envelope e sequei um resto de suor que me descia pelo rosto. Troquei minhas roupas e desci para jantar com minha família, embora em mim, ainda, sempre haveria o toque... Mariana!

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