A alegria camarada...

Deixou-se embalar na melodia. Talvez pudesse reconhecer mais rostos se a fumaça se dissipasse. Veria os cúmplices da noite, velhos e novos conhecidos. Abraçaria a todos os que estavam presentes com certo desejo, disfarçando, ao máximo, o que todos conheciam... E tudo era permitido naquela noite, a população da outra margem se cegaria em busca da alegria que envolve os camaradas... todos os camaradas!

Alguém se lembraria de beber algo. Ele se lembrou de procurar por alguém especial. Mas estava sozinho. A banda continuava embalando os foliões. Corpos sem rostos que se despiam de todos os pudores em busca do contato efêmero. A banda. Ele se perdeu na multidão. Misturou-se àqueles que o condenavam. Era o Outro. Apenas o Outro.

Riu mostrando seus dentes brancos e fez uma cara patética, ao acompanhar alguém que lhe envolvia a cintura. Já pertencia àquela festa. Já era ele a própria festa... e as dores... e os medos... e parte dos foliões que se procuravam... a alegria... a intrigante e desconhecida - porém sempre vivida - alegria camarada!

Alguns sucessos antigos envolveram o salão. Uns cantavam, pulavam ou olhavam, vez ou outra, para companhia. A fumaça dissipou-se - ou ele aprendeu olhar através dela - e ele viu conhecidos de outras épocas. Cumprimentou-os. Tocou-lhes a nuca, a face e o peito. Não havia resistência, todos aceitariam e se tocariam, naquela noite. Se estavam em busca de seu segredo, deu-lhes a cumplicidade. Roubou-lhes, mesmo que por meros instantes, a sensualidade que escondiam durante o dia. Buscavam a identidade e a encontravam... As horas se passariam, talvez ao raiar do dia terminasse a magia. Mas não naquele momento, não naqueles míseros instantes da realização do que todos dividiam – e desconheciam!

A banda parou para um breve intervalo. Os corpos se aglomerariam pelo chão em busca de um breve silêncio, ou da continuidade do sonho. Ele reconheceu alguém que procurou há alguns anos. Ainda se lembrou. Aproximou-se. Cumprimentou da mesma forma, tocando-se o peito, a face e a nuca - agora em nova ordem. Lançou um breve olhar pelo seu corpo avaliando uma possível companhia após a noite – pegaria o carro e iria a outro lugar? Sentou-se e conversaram sobre assuntos que não pertenciam ao ambiente. Breves assuntos que demonstrariam que, certamente, ele estava sozinho. Partiu.

A banda encerrou o intervalo. Teve sede e foi beber um pouco mais de água. Quis refrigerante e o tomou. A fumaça intensificou-se. Percebeu que havia figuras femininas, por detrás de um telão. Percebeu que elas estavam pelo salão. Por todo o salão. Não somente nos corpos camaradas... E a folia continuava... ele continuava... a magia... a possibilidade de um encontro... o encontro que o tornaria mais que o Outro.

Pudesse se perder na festa e o faria. Não obstante o medo tomou seu corpo. Lembrou-se do julgamento vil feito pelos homens. Temeu-o. Quis então fugir, esquecer do que sentia e procurar um novo abrigo... a noite terminaria. Talvez alguns conseguissem a celebração camarada. A alegria camarada e o amor camarada... mas não ele, naquela noite.

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