A aliança
Ele entrou na loja e procurou alguém que o ajudasse encontrar os doces para o aniversário de sua avó. Ela faria 90 anos, estava lúcida e feliz pela companhia dos netos e filhos que viriam de longe. Lembrou-se de quando ela o levou àquela loja pela primeira vez, os doces fascinavam-no de tal forma que tudo queria adquirir. Longos anos, talvez 20 anos atrás, quando ela, a avó, estava mais lúcida e serelepe, enquanto ele, um pequeno adolescente, lutava com espinhas e desejos por meninas da escola. Foi longe o pensamento... sorriu de pensar. E procurou com os olhos alguém que o ajudasse com os doces.
Logo avistou Julia que o reconheceu e abriu um largo sorriso de satisfação. A mesma Julia de anos atrás, agora com os cabelos grisalhos e o andar mais lento. Ele retribuiu a recepção e logo se aquietou novamente: não gostava muito de demonstrações públicas de afeto. Ele, que tanto gostava de abraçar na infância e adolescência, agora procurava se conter e discretamente se mostrar. Era melhor assim, pensava, pois não eram mais as meninas da escola que desejava em pensamento. Julia o levou aos doces que sabia gostar, falando sem parar do tempo que não se falavam. Perguntou de sua vó, dos irmãos, dos primos e todos aqueles que iam há tantos anos comprar os doces de aniversário.
Olhou para Julia como se a visse pela primeira vez. Perguntou-lhe quanto tempo ela estava ali e soube que há mais de 30 anos ela atendia os fregueses com o mesmo sorriso farto e simpático. Hoje ela já tinha seus 60, ou mais, talvez. E ela disse dos próprios netos, mostrou-lhe as fotos e orgulhosa disse o quanto era feliz estando com eles aos finais de semana. Ela permaneceu na cidade, no mesmo vilarejo, e estava completamente adaptada àquela vida simples. Ele pensou no quanto tentou se adaptar, mas nunca conseguira. Ouvia-a falar e perdia-se nos próprios devaneios, nas brincadeiras da rua e quando se descobriu diferente: sim, era diferente.
Em um dado momento, Julia pergunta-lhe sobre sua vida, se havia se casado e tido filhos, pois nunca mais o vira sequer pela internet. Ele, sem jeito, volta a se ajeitar e se conter, e responde apenas que segue estudando. Ela se dá por satisfeita. Ele paga e sai com os doces que tinha comprado.
Foram longos 20 anos sem voltar ao vilarejo. Tudo parecia estranho e pequeno. As ruas de Paris eram mais largas, tinham seu charme com os cafés, turistas e os ratos que corriam escondidos pelos cantos. Comparou aquela cidade com a sua Paris e riu. Sentiu falta dele, que ficou em Paris. Queria ele tivesse vindo ao aniversário de sua avó, mas sabia que enfrentar a família era algo que não conseguiria. Sentiu falta dele. Do cheiro que ele tinha de almíscar e sândalo, notas do seu perfume favorito. Do jeito peculiar que ele tentava falar em português. Das músicas que ouviam e o riso que surgia sempre que alguma ou outra palavra os lembrava de comida: sim, eram ambos glutões. Ele... o que estaria fazendo?
Pegou o carro para retornar à casa dos pais, da avó, dos irmãos e primos que ficaram. De repente, como se tivesse se dado conta, percebe que estava sem aliança. O anel com o nome dele. Onde ficou? Por que tirou? Por que não mostrava aos seus quem era de verdade?
Parou o carro. Procurou o anel nos bolsos e o colocou. Arrumou o cabelo do jeito que gostava. Colocou uma música da Piaf que apreciava com ele e assumiu-se a si mesmo, ali, quem era. E então voltou a dirigir.

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