O Canto de Ossanha
Leôncio nunca esteve certo sobre sua idade, recolher latinhas dos restos de lixo fazia-o tão indigente quanto aquele que as jogava nas ruas. Às vezes perdia seu próprio nome, entre buzinas e gritos de motoristas apressados que trombavam em seu carrinho humilde, abarrotado de papelão e com um velho rádio que sempre tocava a mesma estação. Quando havia sol, armava-se de óculos escuros. Na chuva, cobria os pés descalços com pedaços de sacolas de mercado e barbantes como cadarços. Era assim: um ser oculto que transitava pelos caminhos paulistanos, totalmente à margem de quem o via e não o percebia entre aquilo que já não mais servia.
Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber.
Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo sofria de bronquite desde a adolescência, o que diziam os vizinhos ser por uma paixão mal resolvida que teve há muitos anos. Gerusa jurava que ainda conquistaria o pobre homem... E foi em uma dessas crises que ele, enfim, encontrou sua natureza. Enquanto Gerusa achava que um bom passe de caboclo poderia limpar o pulmão de seu futuro amado, durante o culto no terreiro ela percebeu que nunca o tinha conhecido...
Sentaram-se nos bancos de madeira que, ordenadamente, estavam colocados pelo salão. Encolheram-se em um cantinho, em silêncio, a aguardar o início dos trabalhos. Ele, nas mãos, trazia apenas os calos de sua luta diária. Ela, o rosário ganho de sua avó durante a primeira comunhão. De repente o som dos atabaques invade o salão, seguido de palmas e de um canto alegre a ritmar uma dança viva, que se inicia lentamente e ganha corpo na medida em que todos se envolvem... Gerusa sorri e olha para Leôncio, que permanece de olhos fechados, como a acompanhar na mente o ritmo frenético dos negros que tocavam!
Sem que ela entendesse, Leôncio, de súbito, solta um grito como ave de rapina e começa a rir ironicamente, a gesticular como se abrisse caminho entre matas e a se envolver em uma dança retumbante pulando com um pé só... balança a cabeça enquanto dança, dança e dança em um transe profundo, como se encontrasse consigo mesmo, como se enxergasse, finalmente, a sua verdadeira majestade, sua plena natureza entre os ritos sagrados que se estabeleciam diante de seus olhos naquele terreiro... Gerusa se assusta, vê transformado seu querido e meigo Leôncio em um rosto duro carregado pelos anos e forças das folhas!
Todos abrem espaço e saúdam o Orixá: Ossanha descera como benção e o terreiro festeja com um som mais intenso de atabaques, corpos se contorcem jubilantes diante da visão faceira daquele que é o dono da cura. Os risos se expandem e Gerusa, assustada, chora pela androginia daquele novo ser que agora celebra a sua liberdade. Os cantos se alastram ainda mais e muitas velas são apagadas, como se um vento soprasse por todo o templo e trouxesse a imagem das matas antigas, onde Ossanha reinava ao lado de seu amado Oxossi!
Leôncio perde-se novamente sem nome ou identidade. Perde-se daquelas ruas onde indigente se entrança pelos becos a procura de material para seu mínimo sustento. Perde-se de sua bronquite e de sua paixão mal resolvida... perde-se, completamente, de si mesmo para tornar-se aquele que com canto de ave de rapina abre e confirma a força do lugar. Longe dos ares plebeus e dos matizes de carros e buzinas, Leôncio está alheio à sua anterior insignificância, pois deixa de ser parte de uma massa silenciosa para ter referência em seu brado, em seu fumo enrolado e suas ervas aromáticas... assim torna-se majestade, dono do destino de quem o busca e senhor dos que o servem. Não mais Leôncio amado por Gerusa, mas o senhor dos caminhos: Ossanha!
Ele não se importava. Se sua imagem fosse capaz de despertar pena, seria por não saberem a dimensão em que estava. Aquele corpo franzino, arqueado e amarelado pelo tempo, tinha em si um outro universo cuja divindade poucos se poderiam perceber.
Descobriu-se ao acaso, quando se deixou levar pela vizinha Gerusa durante uma das suas crises de bronquite. Ele mesmo sofria de bronquite desde a adolescência, o que diziam os vizinhos ser por uma paixão mal resolvida que teve há muitos anos. Gerusa jurava que ainda conquistaria o pobre homem... E foi em uma dessas crises que ele, enfim, encontrou sua natureza. Enquanto Gerusa achava que um bom passe de caboclo poderia limpar o pulmão de seu futuro amado, durante o culto no terreiro ela percebeu que nunca o tinha conhecido...
Sentaram-se nos bancos de madeira que, ordenadamente, estavam colocados pelo salão. Encolheram-se em um cantinho, em silêncio, a aguardar o início dos trabalhos. Ele, nas mãos, trazia apenas os calos de sua luta diária. Ela, o rosário ganho de sua avó durante a primeira comunhão. De repente o som dos atabaques invade o salão, seguido de palmas e de um canto alegre a ritmar uma dança viva, que se inicia lentamente e ganha corpo na medida em que todos se envolvem... Gerusa sorri e olha para Leôncio, que permanece de olhos fechados, como a acompanhar na mente o ritmo frenético dos negros que tocavam!
Sem que ela entendesse, Leôncio, de súbito, solta um grito como ave de rapina e começa a rir ironicamente, a gesticular como se abrisse caminho entre matas e a se envolver em uma dança retumbante pulando com um pé só... balança a cabeça enquanto dança, dança e dança em um transe profundo, como se encontrasse consigo mesmo, como se enxergasse, finalmente, a sua verdadeira majestade, sua plena natureza entre os ritos sagrados que se estabeleciam diante de seus olhos naquele terreiro... Gerusa se assusta, vê transformado seu querido e meigo Leôncio em um rosto duro carregado pelos anos e forças das folhas!
Todos abrem espaço e saúdam o Orixá: Ossanha descera como benção e o terreiro festeja com um som mais intenso de atabaques, corpos se contorcem jubilantes diante da visão faceira daquele que é o dono da cura. Os risos se expandem e Gerusa, assustada, chora pela androginia daquele novo ser que agora celebra a sua liberdade. Os cantos se alastram ainda mais e muitas velas são apagadas, como se um vento soprasse por todo o templo e trouxesse a imagem das matas antigas, onde Ossanha reinava ao lado de seu amado Oxossi!
Leôncio perde-se novamente sem nome ou identidade. Perde-se daquelas ruas onde indigente se entrança pelos becos a procura de material para seu mínimo sustento. Perde-se de sua bronquite e de sua paixão mal resolvida... perde-se, completamente, de si mesmo para tornar-se aquele que com canto de ave de rapina abre e confirma a força do lugar. Longe dos ares plebeus e dos matizes de carros e buzinas, Leôncio está alheio à sua anterior insignificância, pois deixa de ser parte de uma massa silenciosa para ter referência em seu brado, em seu fumo enrolado e suas ervas aromáticas... assim torna-se majestade, dono do destino de quem o busca e senhor dos que o servem. Não mais Leôncio amado por Gerusa, mas o senhor dos caminhos: Ossanha!
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