Marseille...


Nesse mesmo bar onde estava, aos 11 anos de idade, ela fora barrada na porta do banheiro feminino porque a confundiram com um menino. Agora, sentada a beira mar e absolutamente adulta, com seios e cabelos longos, ela vê uma dupla inusitada na mesa à frente que gesticula e ri de forma que, juntos, representam a perfeição. O velho com sua cabeleira branca bem cuidada que se deixa acompanhar um garoto de quatorze anos simples e educado. Ambos têm modos diferentes de mover a cabeça, mas os olhos brilham juntos enquanto há um magnetismo qualquer que os fascina...

Ela pediu por um Martini seco e abriu seu livro preguiçosamente. Riu sozinha, pois na época em que acontecera o incidente do banheiro aquela cena dos dois sentados e rindo seria, no mínimo, abominável...

O calor carioca a deixava sem ritmo, mas ainda se surpreendia como amava aquela cidade. Amava ser anônima e saber que sabia disso. Amava ter consciência de quem era e, ainda assim, divertir-se por todos os lugares onde passava... sentia saudades de São Francisco e Marseille. Sempre Marseille... aquele baile de máscaras no ano da copa a havia marcado. Não que fosse traumático, mas foi onde se concebeu ser uma mulher andrógina, onde se encontrou a si mesma diante de tantas possibilidades da vida.

Seu Martini chegou e o livro que lia a elevava em espírito. De repente o casal se levantou e, de mãos dadas, caminhou em direção a orla marítima ainda em riso. Ela sorriu e fechou os olhos, pois ainda sentia o sabor dos beijos daquela pequena com seios mirrados que, com uma taça de Vermuth seco nas mãos, a envolveu no sonho de liberdade... ah Marseille...

Até a próxima,

E.

Comentários

Kiko disse…
fez bem em publicar... embora tenha me dito que não ia faze-lo.....,

"Keep Blogging"
Anônimo disse…
Congratulações pelo seu blog ou espaço aberto para elucubrações precoces (ou seriam ejaculações?) ou painel-esfinge onde se lê : "decifra-me".
Em tudo, como sempre, as pegadas sutis da camaleoa furtiva conduzindo ao abismo qualquer promessa de compreensão.
No entanto, esse texto, mais autobiográfico, não poderia ser.
Beijos e boa sorte!
A.

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