O céu

Ainda continuo em paz. É uma paz sofrida, quase como uma intempérie que assola minha alma que se dista para sobrevoar paisagens idílicas. Tenho medo dessa paz, em mim. Um medo quase incômodo, quase vivo, quase presente... e é desse quase o meu maior medo! O medo é e, ao mesmo tempo, não é. Alimenta a si mesmo para que se torne um fim em si - e isso, indubitavelmente, me assusta.

Acusam-me de descaso. Acusam-me de petulância por meu pedantismo: não entendem que estou em prece no silêncio, que me comunico com duendes e outras criações imaginárias que fogem de suas conceituações. Quase os incomodo, pois estou presente sem me fazer presente em uma frase qualquer. E a eles eu quase sou...

Inquirem-me sobre leituras e blasfemam com citações de falsa erudição. Vomitam suas filosofias fálicas e, assim, conceituam meu comportamento como discriminação ao que me é estranho... no fundo, eu me sinto no limite entre a bondade e a hipocrisia: sou hipócrita, finalmente, ao sorrir em complacência.

E é este o maior problema: a complacência, o estar em paz, mesmo com a música citadina do trânsito, do alheamento e da mediocridade. E assim permanecer, sem titubear diante desse nada que se sobressai de corpos que desconheço. Tomo meu chá e vejo televisão, como sempre, sem que isso me culpe por estar em paz.

Ontem um menino chegou e me perguntou sobre o céu. Quase lhe respondi que o céu não existia, mas preferi continuar no meu silêncio, como se respondesse que o céu seria o limite quando viesse ao meu canto, para apreciar de mim no santuário de minha loucura...

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