Neon
Há um vento que entra pelos buracos de minha janela que faz com que eu pense no que vou escrever. É um vento quase frio, quase solitário, quase como uma brisa carente que viaja milhas e milhas para encontrar repouso em um lugar qualquer... Com ele vejo pequenas luzes coloridas ao longe, pessoas perdidas em seus pensamentos, pessoas que sonham com as promessas de um novo começo após as eleições e outras tantas que não entendem que os anos passam, simplesmente.
O néon daquele anúncio do outro lado ilumina a parede de meu quarto: ele tem vida por um instante, quando projeta na tela fria de meu quarto a sombra de seres que habitam a noite metropolitana. A tela fosca pintada de branco, como os fantasmas que vagam, buscam abrigo, sonham e choram livremente! Ah, a metrópole. Um ano mais velha, quase uma senhora que abriga notívagos em seu seio...
Estou bem. Estou tranqüilo, repito a mim mesmo. Como se eu pudesse criar um estado de consciência onde todo o medo que tenho pudesse fugir pelos buracos de minha parede. Minha parede precisa de reformas, meus pensamentos também. Tudo o que tenho em casa está a se tornar velho e meu dinheiro é pouco para que eu troque ou mude tudo de lugar. Deixarei como está, assim posso me achar sem precisar ouvir meus próprios pensamentos. Assim posso escrever sem que tenha que pensar.
Peguei um filme qualquer para me deixar menos sozinho. Diz a garota da locadora que fala sobre os medos, tudo a ver! Sei que não gostarei dele, mas assim mesmo vou assistir, comer pipoca e tomar um leite velho, que deixei na geladeira por quase um mês. Pego novamente o lápis. Preciso escrever. Sei que a luz de néon vai atrapalhar meu programa. Sei que a música dos gritos vai se confundir com os latidos da vizinha, com as blasfêmias dos habitantes das ruas, com tudo o que não é sagrado ou santo... Grande metrópole, eu quase poderia dizer em uma poesia tão culpada por si; mas estou cansado e quero ver meu filme tranqüilo. Fecho a janela e pronto, tenho um novo mundo em meu quarto!
Fico a recordar de quando fiz a última viagem a São Sebastião para rever o mar. Estava bom, sem sol, sem aquele calor tipicamente tostador. Era inverno. Conheci algumas pessoas que nunca mais verei. Conheci alguns amigos de que nunca sentirei falta. Reconheci alguns lugares de que tinha me esquecido... tudo tão belo e estranho, por isso gostei: ir à praia, ver o sol nascer miúdo, escondido. Cinza e nublado. Vi também muitas montanhas a me saudarem de volta. Vi muito verde, muito azul e brinquei muito comigo mesmo. Nada de habitantes esdrúxulos das ruas; apenas um amontoado de carros importados e seres cheios de grana para comprarem garrafinhas de água por cinco reais.
Ontem eu trouxe uma companhia para casa, mas nada aconteceu. Descobri que não consigo pensar em nada senão amor. Gostaria de ter feito amor, mas nada me tira da memória um pássaro que conheci na adolescência. Acho que me apaixonei, depois acho que esqueci, depois acho que nunca soubemos de fato ou nunca entendemos disso. Sinto falta de suas cartas e sua presença, mas ela não se lembra que eu existo. Talvez um dia, a reler um texto qualquer de Sartre ela reveja quem eu fui. Por agora eu preciso voltar e apenas escrever para não perder o hábito...
Tudo passa, não é mesmo?
O néon daquele anúncio do outro lado ilumina a parede de meu quarto: ele tem vida por um instante, quando projeta na tela fria de meu quarto a sombra de seres que habitam a noite metropolitana. A tela fosca pintada de branco, como os fantasmas que vagam, buscam abrigo, sonham e choram livremente! Ah, a metrópole. Um ano mais velha, quase uma senhora que abriga notívagos em seu seio...
Estou bem. Estou tranqüilo, repito a mim mesmo. Como se eu pudesse criar um estado de consciência onde todo o medo que tenho pudesse fugir pelos buracos de minha parede. Minha parede precisa de reformas, meus pensamentos também. Tudo o que tenho em casa está a se tornar velho e meu dinheiro é pouco para que eu troque ou mude tudo de lugar. Deixarei como está, assim posso me achar sem precisar ouvir meus próprios pensamentos. Assim posso escrever sem que tenha que pensar.
Peguei um filme qualquer para me deixar menos sozinho. Diz a garota da locadora que fala sobre os medos, tudo a ver! Sei que não gostarei dele, mas assim mesmo vou assistir, comer pipoca e tomar um leite velho, que deixei na geladeira por quase um mês. Pego novamente o lápis. Preciso escrever. Sei que a luz de néon vai atrapalhar meu programa. Sei que a música dos gritos vai se confundir com os latidos da vizinha, com as blasfêmias dos habitantes das ruas, com tudo o que não é sagrado ou santo... Grande metrópole, eu quase poderia dizer em uma poesia tão culpada por si; mas estou cansado e quero ver meu filme tranqüilo. Fecho a janela e pronto, tenho um novo mundo em meu quarto!
Fico a recordar de quando fiz a última viagem a São Sebastião para rever o mar. Estava bom, sem sol, sem aquele calor tipicamente tostador. Era inverno. Conheci algumas pessoas que nunca mais verei. Conheci alguns amigos de que nunca sentirei falta. Reconheci alguns lugares de que tinha me esquecido... tudo tão belo e estranho, por isso gostei: ir à praia, ver o sol nascer miúdo, escondido. Cinza e nublado. Vi também muitas montanhas a me saudarem de volta. Vi muito verde, muito azul e brinquei muito comigo mesmo. Nada de habitantes esdrúxulos das ruas; apenas um amontoado de carros importados e seres cheios de grana para comprarem garrafinhas de água por cinco reais.
Ontem eu trouxe uma companhia para casa, mas nada aconteceu. Descobri que não consigo pensar em nada senão amor. Gostaria de ter feito amor, mas nada me tira da memória um pássaro que conheci na adolescência. Acho que me apaixonei, depois acho que esqueci, depois acho que nunca soubemos de fato ou nunca entendemos disso. Sinto falta de suas cartas e sua presença, mas ela não se lembra que eu existo. Talvez um dia, a reler um texto qualquer de Sartre ela reveja quem eu fui. Por agora eu preciso voltar e apenas escrever para não perder o hábito...
Tudo passa, não é mesmo?
Comentários
"Acho que me apaixonei, depois acho que esqueci, depois acho que nunca soubemos de fato ou nunca entendemos disso..."
Texto bom, último parágrafo excelente. Vai firme
Disse bem, "tudo passa". Passa sim e é importante a gente se reconstruir.