Café com creme e croissant de manteiga
Não tenho certeza de quando comecei a amá-la. Mesmo antes de conhecê-la já a tinha em um amor único dentro de mim. Era como se eu mesmo não existisse antes de descobrir que a amava, como se não me pudesse considerar um ser. E tudo há de se ter uma definição clara, uma idéia de existência, de ser. Amar Hélène era minha idéia de ser, um fim em si, não um meio. Eu tinha uma certeza em si, uma certeza de que havia um motivo para sobreviver e viver.
Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol nunca me havia aquecido tanto e a Champs-Elysée ao fundo nunca demonstrou tamanho fulgor: Hélène tinha luz. Senti-me ofuscado e, por um instante, percebi-me pequeno com meu charuto e a edição do Le Monde do dia anterior. Foi naquele instante, em uma manhã junina, clara pelo seu jeito infantil de receber o pequeno pão solicitado, que eu percebi amá-la e sabia que a amaria até o resto de meus dias.
Estava atrasado, mas não pude me levantar. Queria me esquecer de pegar TGV e do retorno à vida que levava no escritório, às piadas dos amigos e às incertezas de que o dia seria o suficiente a tudo que havia de fazer. Depois retornaria ao apartamento vazio, cuidaria de meu peixe e colocaria meu gato para dormir. Fui arrebatado de volta à realidade com o toque insistente de meu telefone. Não atendi. Olhei para o relógio e percebi que era hora de partir. Olhei uma vez mais a figura de Hélène. Ela repousou sua xícara e levantou os olhos.
De repente vejo uma garota que se aproximou com um olhar triste. Senti-me tomado por uma força maior e me comovi com a indigente: vi seus delicados pés marcados pela miséria e senti o cheiro de seu abandono. Ela tinha a pele coberta por uma fina camada de poeira, daquela das periferias de Paris onde os migrantes se perdem. Por um minuto meus olhos encheram-se de uma angústia acre. Um minuto que durou a eternidade, pois me veio à lembrança quando me aportei no cais vindo da Sicilia, das viajantes que tinham seus filhos nos braços e a esperança nos olhos. As tropas vivas de gente que se misturavam entre línguas irmãs e desconhecidas. Sentia-me perdido, desconhecido. Abraçado à minha mãe com um choro tímido de medo. E agora reconhecia-me a mim mesmo naquela pequena pobre que se aproximava de Hélène: via-me como o mesmo menino assustado, perdido diante da esperança com o sol quente a me ofuscar a vista!
Hélène a deixou aproximar-se e tomou-lhe as mãos. Pediu que se sentasse, e ordenou que lhe servissem o que comer. A criança debruçou-se sobre o seu ombro e se deixou chorar. Hélène a envolveu em um abraço e vi em seus olhos a própria felicidade. A garota alimentou-se fartamente e, agradecida, partiu. Eu sabia que a essa altura já havia perdido o TGV e não chegaria a tempo ao escritório. Não me importei. Estava deveras emocionado com Hélène e comovido com seu gesto. Amei-a ainda mais, mesmo sem conhecê-la.
Levantei-me disposto a abordá-la, já que fazia menção de retirar-se após acertado a comanda. Sentia em meu âmago um misto sabor de Troie e a Sicilia de minha mãe pareceu-me próxima. Fechei o Le Monde abandonado em minha mesa, apaguei o resto de charuto e dirigi-me, hesitante, em sua direção. Não sabia o que lhe dizer, senão que simplesmente a amava. A alguns passos parei. A cena que vi nunca mais saiu de minha retina: ela se levantou tímida e logo uma doce voz a chamou pelo nome. Uma canção feminina, sutil e de longos cachos dourados se aproximou de minha Hélène. Ela lhe tocou os lábios com intimidade e com ternura a envolveu em um abraço. Parei estático. Voltei e apanhei meu Le Monde: ainda pegaria o TGV para retornar à minha vida, ao meu trabalho, ao meu peixe e ao meu gato. Nos lábios um sabor estranho de café com creme e croissant de manteiga... ainda amaria Hélène!
Eu a vi uma única vez: usava de um vestido curto de verão que acompanhava o balançar de seus cabelos ao sabor do vento. Azul. Eu me sentava de costas em direção ao Sena e ela a poucos metros de meu campo de visão. Senti-me atraído pelos seus olhos vítreos, verdes e penetrantes como esmeraldas. Ao atendente ela pediu um café com creme e croissant de manteiga. Sua voz doce com um sotaque peculiar recordou-me dos carnavais em Marseille e da beleza das ruas. Não sabia seu nome, mas, imediatamente, como em um retorno à Troie, a imaginei Hélène. O sol nunca me havia aquecido tanto e a Champs-Elysée ao fundo nunca demonstrou tamanho fulgor: Hélène tinha luz. Senti-me ofuscado e, por um instante, percebi-me pequeno com meu charuto e a edição do Le Monde do dia anterior. Foi naquele instante, em uma manhã junina, clara pelo seu jeito infantil de receber o pequeno pão solicitado, que eu percebi amá-la e sabia que a amaria até o resto de meus dias.
Estava atrasado, mas não pude me levantar. Queria me esquecer de pegar TGV e do retorno à vida que levava no escritório, às piadas dos amigos e às incertezas de que o dia seria o suficiente a tudo que havia de fazer. Depois retornaria ao apartamento vazio, cuidaria de meu peixe e colocaria meu gato para dormir. Fui arrebatado de volta à realidade com o toque insistente de meu telefone. Não atendi. Olhei para o relógio e percebi que era hora de partir. Olhei uma vez mais a figura de Hélène. Ela repousou sua xícara e levantou os olhos.
De repente vejo uma garota que se aproximou com um olhar triste. Senti-me tomado por uma força maior e me comovi com a indigente: vi seus delicados pés marcados pela miséria e senti o cheiro de seu abandono. Ela tinha a pele coberta por uma fina camada de poeira, daquela das periferias de Paris onde os migrantes se perdem. Por um minuto meus olhos encheram-se de uma angústia acre. Um minuto que durou a eternidade, pois me veio à lembrança quando me aportei no cais vindo da Sicilia, das viajantes que tinham seus filhos nos braços e a esperança nos olhos. As tropas vivas de gente que se misturavam entre línguas irmãs e desconhecidas. Sentia-me perdido, desconhecido. Abraçado à minha mãe com um choro tímido de medo. E agora reconhecia-me a mim mesmo naquela pequena pobre que se aproximava de Hélène: via-me como o mesmo menino assustado, perdido diante da esperança com o sol quente a me ofuscar a vista!
Hélène a deixou aproximar-se e tomou-lhe as mãos. Pediu que se sentasse, e ordenou que lhe servissem o que comer. A criança debruçou-se sobre o seu ombro e se deixou chorar. Hélène a envolveu em um abraço e vi em seus olhos a própria felicidade. A garota alimentou-se fartamente e, agradecida, partiu. Eu sabia que a essa altura já havia perdido o TGV e não chegaria a tempo ao escritório. Não me importei. Estava deveras emocionado com Hélène e comovido com seu gesto. Amei-a ainda mais, mesmo sem conhecê-la.
Levantei-me disposto a abordá-la, já que fazia menção de retirar-se após acertado a comanda. Sentia em meu âmago um misto sabor de Troie e a Sicilia de minha mãe pareceu-me próxima. Fechei o Le Monde abandonado em minha mesa, apaguei o resto de charuto e dirigi-me, hesitante, em sua direção. Não sabia o que lhe dizer, senão que simplesmente a amava. A alguns passos parei. A cena que vi nunca mais saiu de minha retina: ela se levantou tímida e logo uma doce voz a chamou pelo nome. Uma canção feminina, sutil e de longos cachos dourados se aproximou de minha Hélène. Ela lhe tocou os lábios com intimidade e com ternura a envolveu em um abraço. Parei estático. Voltei e apanhei meu Le Monde: ainda pegaria o TGV para retornar à minha vida, ao meu trabalho, ao meu peixe e ao meu gato. Nos lábios um sabor estranho de café com creme e croissant de manteiga... ainda amaria Hélène!
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