Simples demais


Tudo começa pelo olhar. Ela usa um tênis velho, uma camiseta surrada e uma saia feita de barra de calça de veludo da tia. Não sei exatamente que tipo de veludo ou de gosto ela tem, mas interpreto no olhar que é apenas um contato. Ela diz sobre a combinação de chocolate e canela que irá desfrutar no intervalo e eu digo que prefiro morango com sorvete ou iogurte natural. E tudo é muito natural: o olhar, o tênis e o jeito como eu olho quando ela não está olhando. Acredito que existe algo além do contato.

 

Também lhe contei sobre meu besouro de estimação. Ela riu sem graça e disse ter um gato, pois isso é mais comum. Eu a acho comum. Incrivelmente comum e adorável. Às vezes me pergunto o que fui fazer na USP senão encontrá-la. Ela não sabe. O que sabe é que há muitos ao seu redor e qualquer um pode ser escolhido, qualquer outro, qualquer que seja simplesmente comum...

 

Ela cantarola algo e brinca com os cachinhos do cabelo enquanto espera seu chocolate com canela. Vejo aquele garoto de sardas que se aproxima e faz a corte. Ela pára, repousa a xícara e lhe dá um afago no rosto. Ele sai triunfante, vermelho e submisso para se perder em meio à confusão do intervalo. Ela sorri, suave, e limpa os lábios com o guardanapo antes de sair de braços com um outro de óculos, espinhas pelo rosto e cabelo penteado com gel.

 

Quando falamos de música o seu comum tornou-se distante de mim. Ela conhece compositores e discute melodias enquanto eu me perco entre a MPB de Maurício Ranieri. Seu sorriso agora foi forte e me cortou por dentro. Senti-se estranho: pelo meu besouro, meu gosto de sorvete e minha música simples demais. Nunca lhe seria suficiente.

 

É hora de voltar. Entramos. Sentamo-nos próximos e continuamos a estudar: ela em seu mundo comum, rodeada de súditos e eu, o mortal, preso ao que penso e sem entender aquele primeiro olhar...

 

[E.]

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