O nada

 

Há um silêncio negro que me corta o corpo de maneira que eu perceba o quanto estou só. Não uma solidão apenas física, ilustrada por meu quarto vazio e sem camas, mas uma dor intensa, moral, que me retira qualquer alegria que possa existir. Uma solidão sem vontade, onde o desejo se esvai e a única atração que tenho é de calar-me nesse escuro e permanecer inerte como se fosse partir da vida.

 

Já não me recordo do riso que possa ter tido, assim como também não sei de efêmeros sonhos que tenham se passado. Nada me seduz e o que faço é comer, num prazer oral desmedido, para que assim o tempo se vá rapidamente. E assim aumentei dez quilos como resposta de meu corpo.

 

Estou saturado de filosofia e toda administração científica me causa pesadelos diuturnos. O tédio se instaura, como órfão permanente, e não sei mais o que posso fazer para me livrar das companhias que se aproximam sem me tirar o sentimento de solidão. Há uma necessidade desse silêncio negro, ainda que me machuque e me faça perceber a finitude de meu corpo.

 

 Nada, absolutamente, é o que vejo: o nada toma forma, manifesta-se como os mosquitos verdes que se sentam em minha pele putrefata da ignorância desse lugar enquanto me escondo no fundo de meu abrigo. Tudo me irrita e já não há prazer em caminhar de moto pelas estradas, em alta velocidade, em um desafio à gravidade. O nada permanece, me acompanha, me diz constantemente que sou parte dele e ele parte de mim.

 

Fogem-me as palavras. Fogem-se todas as citações de tudo quanto li, fogem-se meus desejos carnais e mesmo os mais belos mancebos, com falos em riste à flor da idade, me sucumbem para que me sacie em seus corpos. Foge de mim qualquer explicação teórica para o desespero, de forma que eu compreenda sua origem e possa combatê-lo como algo vil. Sinto-me frágil e sem sentido.

 

De nada adianta escrever, pois ainda assim estarei sem sentido. Ficarei, em silêncio, com o tédio e envolvido por meu nada enquanto tento ter um sono para que o tempo passe.

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