A Bela e a Rosa

As tardes do centro sempre são povoadas por seres retumbantes de luz. Brilhos e paetês cobrem as belas que se mostram ao crepúsculo, ávidas por serem admiradas e, ao mesmo tempo, tomadas pelos seres que as admiram. São as belas do centro: as bacantes. Usam grandes sapatos com saltos, vestidos curtos e coloridos com pequenos truques que escondem o que carregam no íntimo.

 

Ontem, pela avenida principal, uma das belas caminhava impávida, olhando intensamente para seu reflexo no pequeno espelho, como se em cada rosto que encontrasse pela rua o avistasse fulgurante. Suas curvas finas se contrastavam com o frio das ruas, por onde seus pensamentos tomavam as formas místicas de seu desejo interior. Usava óculos grandes, unhas imensas e bem pintadas, dedos cobertos de anéis e outras jóias dignas de sua classe.

 

Mesmo quando tropeçava nos paralelepípedos, mantinha sua pose altiva, capaz de conduzir o último dos distraídos a um banquete real... Tivesse asas e voaria como Ícaro, a buscar sua Vênus para saudá-la no Olimpo, todavia, as únicas ferramentas de vôo eram suas costas marcadas do tempo em que desconhecia sua própria natureza. Mas era Bela, sobretudo.

 

Enquanto continuava sua odisséia entre as fumaças de carros e seu dissimulado dissabor por estar sozinha, parou por um instante diante de um edifício, onde a reluzir singela, uma pequena rosa concorria em sua beleza para também ser admirada. Uma única flor, imponente, a brilhar como Fênix entre os lixos citadinos. A Bela e a flor.

 

Uma rainha carmesim que imperava majestosa, não obstante os súditos que compartilhavam das pedras e espinhos do cenário. A Bela, impassível, não viu quando os moradores se aproximaram da sacada: embevecidos a invejar sua ousadia, cobiçavam seus lábios aumentados em pintura e suas sombras brilhantes. Cobiçavam também seus ombros largos e sua voz pastosa, viciada em cigarros baratos dos lugares onde dançava. Almejavam à sua liberdade, como fôlego para vida que não tinham.

 

De repente, a Bela amarra seus cabelos em um rabo e salta o portão. Vai de encontro a rosa e a arrebata, vitoriosa, de meio dos espinhos e pedras do jardim. A dama de vermelho, a pingar ainda o orvalho matutino, une-se à sua dona sob olhares tantos de um protesto mudo de súditos frustrados. A Bela retorna ao portão, solta seus cabelos e neles pousa sua flor.

 

A Bela e a rosa: traziam no âmago a simultaneidade das almas que escondem seu segredo, numa cidade fria, de pessoas frias, numa tarde fria. De vestes curtas no vermelho sangue da rosa e em suas louras mechas, a bela desfilava triunfante, pela cidade de Morpheu... a brilhar e brilhar...  a Bela e a rosa!

 

Bea

Comentários

Tide disse…
Gostei muito das tuas cronicas estou tentando falar com vc ja te mandei 2 e mails se puder me ligar agradeço estou sem cred ou responda meus emails estou esperando ass tideblog
Anônimo disse…
Oi,

Eu li o conto do Silviano no livro Os 100 melhores contos brasileiros do século XX.
Gostei do texto, mas achei a linguagem muito formal e rabiscada e a Bela é romantizada demais.

Abraços!

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