A despedida do peixe
Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário. Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria.
Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias.
Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de mim fugiu. Minha música fugiu. Sua foto no canto da prateleira está distante. A própria vida que tinha, está distante.
Vou tirar as flores do vaso, tirar minha roupa da atmosfera e brindar o branco de minha sala com uma saudade de quando estávamos no Velho Mundo. Grande viagem. Conhecemos Veneza e o Sena sempre pareceu mais belo, quando admirado dos cafés parisienses onde relembrávamos da poesia de Pessoa. Ah, Pessoa... o Tejo e a saudade de sua família!
Antes de ir, ele deixou um bilhete com a última canção que tivemos juntos. Lembrou-se da primeira voz que soltou nosso riso e me emocionou com a caligrafia singela. Ele tinha anseio de novos oceanos e de uma vida fora do aquário. Ele tinha anseio de encontrar a si mesmo em mares de fúria e calmaria, longe da rotina de móveis e porcelanas que tiravam seu dourado pelo cinza.
Acho que consigo entender minha dor e aceitar sua distância: meu peixe era livre, ainda na prisão de cristal. Seu canto aumentava ao sabor de sua consciência de liberdade. Seu canto o fazia ímpar e mesmo os objetos o saudavam a majestade. Era o meu peixe, belo, livre. Hoje, é uma lembrança que me leva às lágrimas na casa vazia...
Comentários
adorei...
triste mas adorei...
partidas sempre sao ruins, triste, mas sao um processo natural das coisas, tanto com morte, quanto com mudan;as de caminho... mas nao se preocupe... ele era livre, feliz... vc tbm eh...
sei la...
Fim
Nada é eterno, e, mesmo com a tristeza pela partida e a preocupação com os que ficam, uma hora o mar irá nos chamar...
E nesse mar haveremos de encontrar novas possibilidades, outras vidas e momentos que só poderão ser verdadeiramente desfrutados por termos aprendido a dar valor ao mar quando estávamos no aquário...
Muito bom o texto, depois quero ler os antigos com mais calma...
Um abraço
mas ja dizia sarah kane:
"quando te encontrei, parei de me procurar"
é estranho viver experiencias com um companheiro e de repente ser largado neh?
acho q sou tao medroso que fujo antes q fujam de mim rs (foi uma risada triste ate )
de fato resolvi ler seus contos
capaz q se torne uma tarefa matinal
go on man
.pastel.