A feia

Há tempos não se via no espelho. Não se sabia gorda ou magra, alta ou baixa. Por não se enxergar, esquecia-se de si mesma e do mundo: e essa era a grande paz de seu espírito! Sentia-se suficiente em si, não se relacionava com os outros e, por isso, experimentava a solidão singularmente. Era calada. Se lhe falavam, respondia através de monossílabos; se não, permanecia por dias trancada em seu mutismo, com nada a se envolver ao seu redor. Essa era a sua paz que a invadia e a desnudava por se acreditar cega.

Fizeram-na acreditar, por insistência, que recobraria a consciência de si mesma ao enxergar. Com a luz a lhe invadir novamente a retina, poderia mudar o seu destino. Aceitou para que lhe permitissem o seu silêncio, enquanto esperava. Quase muda, tomou óculos de avançado grau para que enxergasse como uma garota de sua idade. Não compreendia a necessidade de ser apenas mais uma garota, mas assim se deixou conduzir.

E foi então que se descobriu feia. Reconheceu-se magricela, branca como cera e com a boca torta – entendeu que por isso quase não se comunicava. Tinha orelhas grandes, braços exageradamente compridos e muitas sardas por todo rosto. Riu timidamente para o espelho e limitou-se a reproduzir em um som quase inaudível seu próprio nome: Eveline! Gostou do que ouviu. Repetiu novamente como se somente agora se encontrasse e se admirasse com seus próprios olhos: eram tristes, longínquos, como se possuíssem o segredo da paz que emanava por todo seu ser. Amou-se intensamente nesse momento, percebeu o sentido que existia em seu espírito e compreendeu o significado de sua feiúra, pois era livre.

Em sua liberdade, o mundo lhe pareceu mais ausente por não entender sua diferença. Assim, passou a permanecer horas na janela de seu quarto, de onde se encantava com as cores e os cheiros de Ipanema, os burburinhos das pessoas e, principalmente, da vida comum que tinham. Alegrava-se em vê-las em suas próprias atitudes, em suas próprias vidas. Ria por sentir-se alheia e como em um canto sacro, sua alma exultava a cada pequenino ao longe na praia. Sentia-se ainda mais feia e amada por si. Sentia-se ainda mais presa ao seu silêncio, e era nessa prisão que tinha uma experiência única ao som de sua própria humanidade: sozinha, absoluta e perdidamente feliz.

Retornou ao colégio para concluir o ano letivo. Durante sua cegueira, a tranqüilidade repousava na ignorância de si mesma; mas, agora, ela era absoluta em sua feiúra: as pessoas se afastavam e comentavam em cochichos, sentavam-se longe e não a cumprimentavam. Eveline tinha prazer nesse distanciamento e sentia profundamente por nunca poder lhes ofertar o seu amor ou a luz de seu espírito. Nunca a conheceriam e isso só aumentava o abismo entre ela e o mundo...

Um dia, em seu quarto, chorou pela primeira vez. Assistia ao pôr-do-sol de sua janela e o mar lhe pareceu sublime. Ouviu um canto celeste que, retumbante, invadia todo seu ser. Sentiu-se leve e uma felicidade tomou-lhe o âmago com tal furor que arrancou de si o que lhe restava de humanidade. Virou-se ao espelho e, translúcida, despediu-se pela derradeira vez de seu corpo esquálido e sua boca torta para voar pela janela de seu quarto em direção a luz que a chamava. Abriu suas asas, soltou seu canto e se despediu do mundo, que nunca lhe pareceu tão distante. No horizonte, apenas se ouviu clamar Eveline!

Comentários

Anônimo disse…
Obrigado pelos comentários!

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