Salomão Negão


"Seu nome era Salomão. Não como aquele do livro sagrado, que tinha como pressuposto uma sabedoria divina. Era Salomão na simplicidade. Na ignorância. Salomão negão. Era quase um trocadilho. Era quase uma realidade que se expressa em seus gestos toscos da periferia que habitava.

 

Eu o reconheci na piscina como alguém da região. Ele andava tranqüilamente pelo local, exibindo-se como uma pequena mercadoria que tinha entre as pernas mais que uma ferramenta de trabalho. Era negro. Tão alto quanto rebelde. Tão quente quando o calor da piscina e os gestos obscenos que fazia para atrair a freguesia.

 

Ele me olhou profundamente e sorriu como animal. Ele demonstrava um cio em que me reconhecia. Ele sabia de meus desejos e, fortunadamente, envolvia-me em uma crosta de lascívia que tanto me excitava. Salomão. Salomão negão. Alto e quente. Magro e feio como são os que habitam o longínquo leste da cidade.

 

O SESC estava inabitado quando finalmente me aproximei. Ele sorriu novamente e hesitei em retribuir o gesto repentino com que me tomou. Ele me fez de presa, levou-me a um canto qualquer e copulou-me tão imediatamente quanto possível aos animais no cio. Fez-me de fêmea, de conquista, de utilidade por um momento.

 

Deixei-me conduzir pelo momento. E por outro. E por outros tantos durante os meses que se seguiram. Ele fazia acrobacias e tomava-me com uma violência desejada. Ele penetrava-me com tanta força e maestria que me sentia possuído por seres diferentes a cada vez. Tocava-me e abria-me repetidamente. Cuspia-me e penetrava-me uma vez mais enquanto gritava em um misto de prazer e dor. Salomão. Salomão, negão. Salomão que falava pouco e errado. Que gostava de forró e ritmos próprios dos que freqüentavam lugares ermos para lembrarem as origens.

 

Um dia cansei-me de Salomão. Precisava experimentar outros ritmos e me esquecer de que pertencia àquele mundo. Cansei-me de ser negão. Tão quanto Salomão. Cansei-me do extremo leste, da violência amável com que me possuía. Cansei-me de que éramos e arrisquei por outros caminhos.

 

Ainda sinto por Salomão negão. E sinto ainda mais por sentir que em mim ainda insiste o desejo. O desejo que sou. O desejo que tenho."


Comentários

Kiko disse…
Então quer dizer que o cara do texto experimentou o Salamão do Salomão!!

Sem vergonha....

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