Ele, o demônio
Hoje meu demônio me visitou novamente. Chegou em silêncio, sentou-se ao meu lado e permaneceu... como sempre, não interagia, mas ali estava, altivo e completo. Eu entendia sua presença, entendia sua manifestação quando meu peito estava repleto de vazio. Ele, o demônio, não era o vazio e, tampouco, habitaria meu vazio. Ele, o demônio, era o que eu traria para evitar o vazio sem perceber que ele sempre se esquivava dessa tarefa: a ele não cabia preencher o que não lhe pertencia.
Foi uma semana intensa, comecei a dizer. Ele, o demônio,
acenou com a cabeça como se quisesse que eu continuasse a falar. Foi uma semana
intensa, repeti. Os desequilíbrios emocionais me trariam rompantes de raiva e
tinha de me conter para a ninguém ofender. Em alguns momentos, minha melancolia
tomava corpo e me afundava em um sono intenso de horas a fio. Ele, o demônio,
continua impassível e nada dizia. Seus olhos fitavam-me como se me perscrutassem,
mas não me sentia incomodado. E continuei a falar. E continuei a contar do medo
que tinha de não conseguir avançar ou ser. Meu medo de ser, repeti. Como se
pudesse evitar o natural: eu era.
Mas, o que sou e o que significa “ser”, eu lhe perguntei.
Ele, o demônio, levantou-se e olhou-me ainda mais profundamente e sorriu.
Inquiri novamente e ele esboçou um sorriso e saiu.
Ser... o que é ser?
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Elton Francisco - São Paulo-SP, Out-19-2020 - 12:46 AM
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