A Rezadeira do Pelourinho



Olhei pela janela e o Pelourinho estava vazio, todos se recolheram para evitar a peste. Meu corvo veio suave e pousou sobre meu ombro esquerdo. Eu estava silente, quieto e compenetrado em mim mesmo na solidão de meu apartamento: sem maconha, sem uísque e sem a companhia de Alice, minha companheira, que foi arrebatada pela peste.

Meu corvo gralhou algo e avistei, do outro lado da rua, uma janela quase aberta, meio escura, onde uma velha sorria por entre as frestas da cortina. Tinha um olhar profundo, da idade e da sabedoria do tempo... era a rezadeira do Pelourinho, deduzi. Aquela tanto procurada em tempos de crise, que benzia as crianças e aconselhava tantas outras que já estavam na fase adulta. Tinha a pele enrugada e cinza, um sorriso perfeito e todos seus dentes eram claros. Senti de ir até ela, pedir um alento nesse luto que me consumia sem Alice.

Antes de bater em sua porta, ela a abriu, simplesmente, e disse que me esperava. Usava máscara, agora, e uma grande mesa tinha tantas velas e cartas que me assustei. Ela me indicou onde sentar, disse algumas palavras em dialeto e tirou a máscara para se comunicar - mas pediu que eu permanecesse com a minha. 

Meu corvo estava na janela, quieto, observando o encontro. Ela olhou para ele de soslaio e nada disse. Embaralhou as cartas e antes de tirá-las perguntou-me quem era Alice... gelei. Como ela poderia saber se eu estava na cidade há menos de dois dias, justamente para me recuperar de sua perda? Respondi que era minha companheira. Ela nada disse e continuou com as cartas de Tarot.

A primeira que saiu foi a Morte e ela disse que o tempo de Alice havia passado e agora eu precisaria aprender com meu próprio tempo. Em seguida, ela tirou o Cinco de Espadas e então disse que era tempo de aprender sobre mim, enquanto o Diabo caía junto à Estrela e ao Seis de Copas

Ela ficou silente, novamente, e sem que houvesse uma nova carta, apenas me perguntou de que eu fugia... comecei a chorar. A velha rezadeira olhou-me com seus olhos negros e com uma voz rouca disse: até quando irás fugir de ti mesmo? Até quando irás mentir de tua natureza?

Por um momento recuperei a consciência e vi meu corvo voar... era como se ele partisse. Um sol suave entrou pela janela e então, finalmente, a velha continuou seu jogo, dizendo que as coisas poderiam mudar, se eu realmente quisesse. 

A sequência veio com o Eremita, Nove de Ouros, o Enforcado e a Lua. Ela sorriu, vi seus dentes brancos refletirem contentamento e percebi o que me trouxe ali... ela disse, como em uma sentença: aceitas tua solidão como aprendizado para o encontro contigo mesmo, pequeno. Irás conhecer-te a ti mesmo, enquanto um novo sol brilhará em ti.

De alguma forma, um alívio veio até mim e senti que havia encontrado a resposta de que necessitava. Levantei-me e tirei algumas notas do bolso, sem perguntar o preço, e deixei-as sobre a mesa. A velha agradeceu e eu voltei para meu apartamento... precisava fazer um bom almoço, afinal um novo dia surgiu.

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