Concubina, a louca
Ela tinha dedos largos, cumpridos e cheios de marcas do tempo. Do cigarro barato e dos bordéis que freqüentava no centro da Lapa. Da cabeleira vasta e vermelha, poucos fios caiam-lhe sobre as têmporas acinzentados pela escolha da vida que tinha. Poucos dentes compunham-lhe a face cansada, sua boca rota e os olhos vítreos como se mortos para a luz ofuscantes e mofos das camas onde se vendia. E se declarava concubina, a louca. Sim, em sua insanidade imaginava-se capaz de sonhos, de devaneios onde seu poder se misturava às bebidas quentes de final de noite e suas roupas, rasgadas, seu preço barato pago pelos caixeiros viajantes.
Apelidavam-lhe de bruxa. Sempre em desalinho, tentava sanar sua carência nos jogos de azar onde apostava sua indecência por moedas de barro. Dizia-se conhecedora dos segredos da vida, mas os únicos que habitavam sua mente eram das lembranças pérfidas de quando tentava exalar maldade e despertava alguma compaixão. E se declarava concubina, a louca.
Viveu até os 40 anos, quando a peste finalmente a recolheu. Em seu último suspiro, dado ao lado de uma foto, declarava-se inocente por ter dado a luz a única criatura que um dia amou...
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