Tornar-se

Há tempos eu o notava pelo campus, sempre com seu jeans surrado e sua camiseta branca, comum, que lhe marcava o tórax. Tinha os olhos escuros, cabelos curtos e a barba sempre por fazer. Um jeito moleque, de riso fácil que cativava qualquer que se aproximasse sem intenção. Ele nunca tinha intenção. Talvez lhe faltasse a malícia dos que experimentam e conhecem a maldade do mundo, dos que conhecem o mundo.


E foi na sexta, antes do feriado de todos os santos, enquanto eu caminhava absorta e perdida nos cálculos mentais de minha vida acadêmica, que eu o topei de supetão e fui lançada ao chão. Ele também quase caiu e eu, vermelha, não me cabia de vergonha. Não conseguia levantar o rosto e ouvia um dos cães a ladrar quase uníssono com o riso dele, que se divertia a mirar-me.

Tateei o chão, cega, em busca de meus óculos. Ele se inclinou e ajudava-me a levantar, repetindo sua falta de intenção. O cão, em algum lugar, continuava a ladrar e em mim um calor descia.


Quanto não quis sua aproximação e agora, ali, meu desejo crescente se perdia em um misto de vergonha de mim mesma, com minha saia de barra de calça e minhas sandálias franciscanas. Senti seu perfume e, de repente, tomada de coragem, eu lhe sorri de volta, tentando minimizar o quanto estava perturbada. Aceitei sua ajuda e, ainda bamba pelo inusitado da situação, levantei-me.


Agradeci e desculpei-me. Sentia-me desnudada, sem muita coragem de me permitir sonhar ou fantasiar com ele agora a minha frente. Adorei-o.  Um adorar mudo, sem intenção e sem o riso fácil que imaginava quando solitária. Ele me responde de pronto e sai, sem que o registro daquele encontro lhe passasse percebido. Mesmo abalada, retomei minha direção a caminhada. Tive-o próximo por um instante, mas notei que estávamos distantes e não sabia, naquilo, se poderíamos nos aproximar.


Passei da euforia ao silêncio e assim permaneci durante todo o feriado. Algo crescia em meu íntimo e eu sabia que de nada adiantaria exigir da vida que me respondesse, de imediato. Como se, de repente, eu deixasse de ser o que sempre fora para me tornar algo estava adormecido em mim, há tempos.  E mesmo sem intenção, foi ele quem me despertara em mim o que recrudescia, o que tomava forma e surgia como um novo ser, um novo mim. Ainda que eu buscasse sentido, de nada me seria possível me alimentar agora, pois eu desconhecia o alimento de que meu corpo necessitava.


O feriado terminou e voltei. A ressaca pairava sobre o campus e percebi-me a caminhar com passos firmes, eu simples e leve ao mesmo tempo. Não mais a saia de barra de calça, mas um vestido claro e longo, de decote ousado e detalhes em vermelho. Passei pela cantina em direção à quadra e sorri, sem intenção, quando um dos cães perdidos vem até mim saudando-me com seu rabo a abanar. Abaixo-me suave e brinco com suas orelhas. Meu riso vem fácil e sinto-me bem com isso. Talvez seja a flor que coloquei em meus cabelos, ou o novo adorno com que me brindo. Tornei-me...


E então o vejo em seu grupo de amigos, distante. Ao se aproximar, quase sem me reconhecer, espanta-se com meu jeito leve e meu riso fácil. Assusta-se com minha falta de intenção e apenas mira-me, suave, antes de continuar sua caminhada. Dou-me por satisfeita, pois finalmente ele me notou pelo que sou e não sabia e não pelo que sonhava em encontrar nele.


Laura P – Nov-11-2010 – 8:04 PM

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