Eternamento menino

Quase nada posso dizer e minha boca seca diante do que penso. Há um silêncio mudo e sem cor que se instala em mim. Um arrependimento quase real, quase vivo, de quando não me lembro de ser melhor. E nunca o fui.

Pensei ter sufocado para sempre aquele desejo de morte que havia em meu íntimo. Pensei ter sufocado e perdido, para sempre. Mas esse para sempre insiste em me visitar enquanto nas paredes desse hotel procuro te ver uma vez mais. Enquanto na solidão que escolhi ainda vejo teu riso maroto, quase infantil. Teu riso da infância perdida, roubada pelos anos de trabalho, pelos anos de quando não sabias sorrir.

Talvez o excesso de champagne me tenha tragado a consciência ou me arrebatado à lucidez. Não sei dizer, não sei confessar, não sei procurar. Não teremos sexo. Não te posso ter amor. Não te posso confessar por nossa indistinção e pelos laços de família que nos proíbem o amor, a paixão, o tesão. Tampouco sei o quanto me desejarias.

O meu sonho insiste em ter-te sempre menino, milagrosamente e eternamente menino. Como se habitasses minha aldeia e eu te levasse ao Tejo para te apresentar ao mundo ainda a descobrir. Como se habitasses em minha tenda e te alimentasses das flores de meu jardim, das cores de meus sonhos, da vida dentro de mim. E és eternamente terno e menino, capaz e vivo, mesmo sem que estejas em minha aldeia.

Ontem comprei-te um pequeno gracejo que te darei quando me visitares. Um gracejo lúdico, para que te recordes de mim quando eu partir novamente. Sim, partirei. Irei para meu Tejo e minha aldeia que não te podem ainda abrigar. Para onde ainda somente em sonho sinto tua presença viva, lúbrica e doce, a saciar meu espírito rebelde. Dar-te-ei teu gracejo e brindarei com mais champagne nossa derrocada distância.

Preciso partir agora e direi a todos que ainda és menino.

E.

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