Superação

Enquanto caminhava pelo calçadão, confessava a si mesma que o melhor a ser feito era esquecer. Repetia como um mantra o quanto teria de força para se esquecer, para superar e continuar sem se prender ao que passou.

 

Ainda que se lembrasse de Fausto, de Goethe, e ressentia-se por não haver um Diabo a quem confessar seu medo e frustração. Ressentia-se porque o que havia, em seu íntimo, nada mais era que uma canção mórbida para matar sua raiva, seu rancor e seu desejo real de devolver cada lágrima que caiu de seus olhos.

 

Não seria um deles, dizia. Não, não seria. Conseguiria prender uma vez mais seu lado nefasto e deixaria que sua luz, ainda que fraca, brilhasse. Não queria a luz, todavia. Não queria ter bondade alguma ou qualquer outra coisa que não deixasse seu íntimo sair e tomar todo seu corpo.

 

Parou. Sentou-se em um banco qualquer e, alquebrada, balançava-se para frente e para trás em um ritmo suave, como as ondas às suas costas, como os pássaros que paravam diante de si a pedir uma migalha qualquer de alimento. Um ritmo suave como as batidas de seu coração, como a lembrança de quando menina levou sua primeira surra, deu seu primeiro beijo e perdeu seu primeiro amor. De quando adolescente corria na areia deixando seu cabelo solto ao vento, à chuva, ao sonho. De quando as opiniões ainda eram importantes porque as pessoas eram importantes.

 

Epifania, assim definiu sua iluminação. Viu-se acima daquele mal infante que não mais importava. Viu-se acima daquele que diria dela limites que não a definiam. Viu-se acima do julgo daquele que sequer a conhecia.

 

Levantou-se e riu por um momento. Um riso tímido, quase escondido, brotou em seus lábios. Aos poucos tomou força e tornou-se uma gargalhada, desmedida, viva, cheia da graça. Uma gargalhada sem término, sem compromisso, sem qualquer outra necessidade senão soltar-se e durar-se.

 

Ao longe quem quiser ouviria o som dessa alegria repente, dessa liberdade crescente, dessa vida nascente. Viva, ela soltou seus braços e continuou sua caminhada. Cônscia. Plena. Energicamente capaz de qualquer coisa.

 

O calçadão nunca foi tão belo e a luz da tarde nunca tão perfeita. Nada mais importava, pois sua raiva havia se tornado indiferença. Seu rancor perdeu-se e o desejo real de devolver as lágrimas não mais importava. O motivo não mais importava. Eles não mais importavam...

 

Elton // Fev-24-2010

 

Comentários

Tainá disse…
Nossa! Você escreve muito bem. Vi o link pro seu blog em uma comunidade no orkut sobre crônicas e resolvi visitar.
Continue atualizando.
Tenho uma coluna de crônicas no meu blog. Se se interessar em dar uma olhada, será muito bem vindo.

Abraço.

Tainá.

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