Se a dor o visita, é tempo de mudar!
Daniel,
há dias que não paro para escrever e hoje meus pensamentos estão quietos e tumultuados ao mesmo tempo. Escrever, talvez, me faça sentir melhor. Acho diferente perceber que a dor e o incômodo servem para que mudemos, para que queiramos mudar e retornar a uma situação de maior conforto. É desconfortável perceber o erro: de julgamento, de expectativa, de desejo.
Decepção é a melhor palavra para descrever meu interior nesse instante. Uma decepção comigo mesmo, de me permitir a um novo embuste. Errei, Daniel, ao esperar e acreditar em quem não é nada além do que sempre foi. Sinto-me estranho, mas acho que é o aprendizado ao perceber que ser humano é permitir-se ao erro.
Ele, a quem julguei, parecia-me terno e inteligente. Alguém merecedor de confiança e amor. Sim, o meu sentimento mais nobre e sincero que não hesitei em entregar pelo juízo de minha intuição. Errei, Daniel, errei profundamente e minha intuição que parecia tão treinada me desperta à humildade. Desço de minha arrogância para me reconhecer falível, para me conceber capaz de aprendizado. Eu posso aprender com isso e a dor nada mais é que o alento ao crescimento.
Quando os amigos se afastam é porque nunca o foram de verdade. Quando os amigos deixam de ser amigos é porque a palavra que diziam não era suficientemente real para durar a eternidade.
E como adivinhar, Daniel, quando entregamo-nos e o retorno é não recíproco? E como adivinhar, Daniel, que o amor de repente é apenas unilateral? Como adivinhar que, às vezes, entregamo-nos por completo e o que recebemos é nada além do que a pessoa é capaz de dar? E se esse limite, dela, não nos for o suficiente? Como deixar de sentir o mesmo amor que sentíamos antes? Não deixamos, Daniel... não deixamos!
E é por isso que aprendo com essa dor da decepção. A decepção do castelo de expectativas que construí em minha mente, mas nunca existiu. Um castelo que não poderá existir porque ele, objeto de meu amor, está longe de ser mais do que é: uma criança que tem os pés descalços e limpos do pecado. Uma criança que ainda não aprendeu a falar e perceber algo que vá além de seu próprio conforto. Uma criança, carente, que acaba de perder a minha mais nobre intenção: eu desiti. Desisti de cativar, de conviver, de partilhar quem sou.
O erro, Daniel, me ensina a valorizar a mim e a aceitar quem sou. É preciso que eu sinta a solidão antes de me tornar o que escolhi ser. E brilhar pelo que escolhi ser. E viver pelo que escolhi ser.
Foi apenas um desabafo, meu caro. De alguém que de repente se sente humano demais para falar.
Um beijo saudoso,
E.
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