A decadencia da verdade

[Agosto, 23-2006]

Hoje eu queria fingir que sou uma pessoa diferente. 


Vou me deixar acreditar que é natal, que estou na casa de amigos acompanhado de Elenice, minha querida esposa e nosso filho João Francisco está conosco. À meia noite abrimos a garrafa de vinho e cantamos alegres ao trocarmos presentes... Elenice me abraça com carinho e me beija nos lábios. Ela diz que esse será mais um natal feliz, que seremos sempre felizes e nada irá nos separar.

 

Lembro-me de quando nos conhecemos em uma excursão para Rio Bonito. Era primeira vez que ela viajava sozinha e eu passei a ampará-la em todos os passeios pelos lugares inusitados. Acho que nos apaixonamos ainda no ônibus, mas como eu era tímido, só depois de alguns meses é que aconteceu o primeiro beijo. Depois de um ano de casados veio nosso grande afeto: João Francisco. Nasceu com 3,5 kg, cabeludo e vermelho. Ela dizia que seus olhos verdes se pareciam com os meus, e eu dizia que seus cabelos claros eram da herança de seus avós. Ah, como amei ser pai desde o primeiro momento.

 

Mas é natal. Amanhã iremos almoçar na casa de seus pais, uma reunião de família que já é tradicional. Eles moram aqui mesmo no Sumaré e todos irão prestigiar o peru preparado por seu pai. Sinto que somos felizes, temos familiares que nos compreendem e amamos um ao outro.

 

Em uma semana voltaremos a correria: Elenice nas aulas de arte na Unesp e eu continuarei com meus projetos na consultoria... tudo muito tranquilo!

 

Talvez daqui a pouco isso passe e eu verei que não consigo acreditar que sou diferente. Não consigo acreditar que não há Elenice, João Francisco ou uma consultoria. Não há natal e não há casa no Sumaré...
 
Estou triste, todavia!
 
El

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