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Charles Chaplin

Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E então, pude relaxar.    Hoje sei que isso tem nome... Auto-estima. Quando me amei de verdade, pude perceber que minha angústia, meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou indo contra minhas verdades. Hoje sei que isso é...Autenticidade. Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de... Amadurecimento. Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é... Respeito. Quando me amei...

Apenas até logo

Já fazia tempo que não me preocupava tanto com a beleza ou qualquer outro aspecto externo ao me encontrar com pessoas. Muitas vezes ainda questionava em minha mente se havia algo mais por detrás da imagem, se em nudismo haveria de se revelar algo de extraordinário ou até mesmo bizarro... uma vez foi com um desses que se conhece pela Internet, no momento em que ele se descreveu comecei a criar em mim a idéia de como ele seria sem roupa, pelado e indefeso diante de mim: ri muito! Ele não era de todo magro ou feio no sentido laico da palavra, mas tinha um ar tão inocente quanto viril. Sim, conseguia ser viril e, ao mesmo tempo, perdido em seu corpo esguio e marcado pela ausência de experiência.   Mas isso foi antes, quando eu ainda habitava longinquos espaços e acreditava que estava apaixonada. Foi antes de ir a uma festa, em alguma sexta-feira, e ter experiências novas com pessoas novas e ambientes novos.   Lembro-me de que cheguei e pedi um dry martini enquanto sentav...

Uma nesga de felicidade

Ela tinha as mãos enrugadas pelo tempo, dedos marcados e sulcos profundos na face que denotavam um sofrimento passado. Entrou e sentou-se sem cerimônia. Olhou ao lado, repousou sua bolsa, tomou seus óculos de algum pacote e os colocou, suave. Abriu a sacola que trazia, tirou algum pedaço de pano com agulha e linha e passou a trabalhar, suave. Olhos compenetrados, mãos que rapidamente davam vida a um pedaço de pano, branco. Como seus cabelos, brancos. Como suas unhas e um pedaço de dente que se via no sorriso... Havia um prazer incomensurável no que fazia, enquanto embalada ao ritmo do vagão se perdia alheia aos dramas alheios que se misturavam aos cheiros do sábado, da vida, da solidão de tantos que se uniam em busca de um destino qualquer, suave e distante. Chega seu destino. Recolhe seu patuá, guarda na sacola e pega sua bolsa, ao lado. Tira seus óculos e suave desce, em sua estação, em seu ritmo em sua vida...  

J.

Ainda que eu busque contatos e fatos, nenhum me levará ao sentimento que tenho por você. Ainda que todos me julguem pela loucura de meu peito, ainda que eu seja condenado por invadir sua família... ainda que eu sofra e caia em esquecimento, sei o que trago no peito.   Não há motivos que me levem a desistir de você. Não, não há razões que me possam me impedir de amá-lo, de desejá-lo e lutar para que fiquemos juntos.   Sim, eu te amo J., te amo muito mais do que eu mesmo imaginava.   Até logo, muito logo.   E.

Caipiras

Não posso mentir que me sinto traído pelo desejo quando aspiro essa simplicidade tão tosca.   Não, eu não posso. Jamais poderia negar que me atrai essa sertaneja vida, essa beleza rústica que me obriga viajar.   Aspiro, por um momento, a fala que possuem e o jeito com que tocam.   Volto. E de dentro de mim percebo que sou um deles.   E.

Lucía

Lucía tinha olhos grandes e negros, como seus cabelos. Cabeleireira farta, sem corte definido que emolduravam seu rosto ao natural. Ela era natural. Algo de místico e torpe, um sorriso maroto, quase tímido, que arrancava de mim suspiros inocentes. Perdemos contato após a adolescência, quando me mudei para capital. Manaus já era uma cidade próspera, cheia de migrantes que vinham para conhecer o fenômeno econômico. Foi no último baile, enquanto dançávamos frenéticos ao som de “ L’ amour ”, que a percebi bela. Um sentimento forte me veio ao peito e tudo o que via era seu nome, seu cheiro, seu som. Foi nossa despedida, sem um beijo qualquer, sem um abraço qualquer ou um sorriso de até logo como fazíamos todas as noites. Ela continuou em Autazes. Eu lhe escrevia para dizer sobre o mundo que despontava, mas ela insistia em seus búfalos e as corridas matutinas. Lembrava-se de nossas idas ao Ribeira, quando pulávamos a cerca e mergulhávamos refrescados nas águas do Madei...

Fausto

...e ainda que eu quisesse, não lhe poderia responder com sinceridade. Naquele momento eu me sentia a própria dor, eu me sentia a própria angústia. A intensidade com que vivia me fez pensar em Fausto, em sua exacerbação de sentimentos e sua obsessão por construir. Não que eu tivesse em mim o Diabo para dar-me o que pedi, mas o percebia na sua mais nobre clareza, em cada centímetro de meu egoísmo, de minha vaidade, de meu orgulho.   Eu era o Diabo em mim e poderia amar-me. Doce ou amargo, tinha ambos sem julgamentos que pudessem corromper a minha essência, a minha unidade, o meu ser. Quis remover a máscara e já não faria diferença. Eu não era aquela máscara, mas aquela máscara se tornou parte de mim. Sim, eu a havia construído e ela nada mais foi do que reflexo do que tinha em meu interior.   E ele se calou com meu silêncio, levantou-se e fez menção de sair. Impedi-o por um momento. Eu o queria por perto, sabia disso. Disse-lhe que ficasse, pois ainda que não o quisesse como amigo...