O Não-Ser e o Nada

 

Hoje o dia está mais claro.

 

Há um cheiro estranho que me faz pensar no Nada. 

 

Como se houvesse um novo tempo. Um tempo onde o Nada pode ser compreendido. Onde o novo Abismo nos leva a uma queda sem fim, em direção a um novo que ainda não consigo definir.

 

Por que aqui estamos? Por que aqui vivemos?

 

Musifin segue ao meu lado e suspira sons inaudíveis em meu ouvido. Não consigo me ligar a ele e não sei como compreender essa falta de conformismo que me abarca o Ser. O Nada me provoca e sinto-me com não pertencimento. Eu não pertenço ao Nada.

 

Há um novo ânimo, sinto, sem que eu compreenda o que isso tudo significa. Sem que eu compreenda o ânimo que se imiscui com esse pensar constante na falta de sentido. O pensar mental. Um pensar que questiona a tudo e a todos sem que haja uma resposta a tudo. Há algo além do Nada. Há algo que suprime o entendimento e nos move animadamente. E nos faz sentir. E me faz sentir. E me faz ser.

 

Ele, Musifin, me faz pensar que há mais do que apenas seguir com a vida e seus sabores. Há algo mais do que terminar um curso, conseguir um emprego e se acasalar. Há algo mais audacioso do que simplesmente o não-ser no meio onde todos não são. O não-ser é apenas comum e existe. O não-ser existe e caminha na mediocridade, pois ele também é medíocre. O não-ser possui um sentido estranho que é a própria falta de sentido.

 

E o que é esse algo ou o sentido? E o que nos prende? E que vida é essa vida, onde o sentido não é perceptível aos sentidos? O que é e o que faz sentido. Musifin, de uma vez por todas, diga-me sobre o sentido!

 

Em vão questiono. Ele não me responde.

 

Musifin se cala e eu fecho os olhos, em uma frustração de quem busca algo além da percepção, em uma frustação que vem de sempre, em uma procura de sempre por algo que preencha um vazio natimorto. Há algo de fantástico na falta de sentido e nesse vazio. O vazio do não-ser que se busca ser. O vazio de o Nada que se esvaiu profundamente de tudo o que não era para que venha a ser...

 

Volto-me para dentro e no silêncio desse Nada, vejo uma luz tênue que se forma. Uma luz de percepção, de quase compreensão. Uma luz que ultrapassa o acasalamento, o emprego e o filho. O carro novo, a cerveja e os amigos. Uma luz sutil e que brilha entre a sombra do vazio. Percebo que o vazio é, gradativamente, preenchido por essa luz... e essa luz invade-me para expulsar o vazio de si mesmo, o vazio do não-ser e do Nada que por tanto tempo se apoderou do espaço.

 

Ela, a luz, permite que eu enxergue Musifin em um sorriso claro. Ele contempla meu deslumbre e sorri, condescendente, como se há tempos esperasse que eu compreendesse. Calo-me, pois há uma nova dor que desconhecia. A dor do romper, do renascer, do compreender.

 

A luz segue seu caminho e apenas deixa uma sensação de que tudo será diferente. De que tudo, como agora escuto de Musifin, está apenas a começar...

 

Francisco

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