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Domingo de Sol

Hoje à tarde enquanto passava pela Praça Buenos Aires, vi duas velhinhas de mãos dadas que sorriam felizes a caminhar pelos jardins. Sorri de volta e questionei a mim mesmo se eram irmãs ou amigas de longa data... elas se sentaram em um banco próximo à fonte e recostaram-se uma na outra com uma intimidade única.   Tomei de meu jornal e me assentei sob as amendoeiras em uma cena típica de domingo. Tirei meu chapéu e ainda curioso olhava vez ou outra a dupla a minha frente que riam em intimidade crescente. Por um momento quis ir até elas e me ingressar na alegria contagiante, ainda que por apenas alguns instantes. Coloquei novamente meu chapéu, apoiei-me sobre a bengala e dirigi-me, recalcitrante, em direção às vozes.   Cumprimentei-as educadamente e perguntei de onde tiravam tanto gosto pela vida naquele domingo de sol. Elas tomaram a mão uma da outra e quase em uníssono responderam: da certeza de que comemoramos hoje 50 anos que estamos juntas como um casal feliz.   ...

Só por hoje

Só por hoje preciso de um pouco menos de calor. Só por agora, neste exato momento, preciso me esquecer que tudo está onde deveria estar e toda a escolha que fiz tem uma razão que antes desconhecia... Só por hoje vou pensar que aquela pequena que encontrei nunca me olhou senão como um amigo, ainda que lhe cobiçasse a intimidade... Só por hoje vou pedir a mim mesmo que se apague de minha memória aquele que mais amei e nunca mereceu quem fui... Só por hoje, vou tentar tomar mais um martini, trancar as portas e pensar: tudo passa, sempre!!!

Natural

Perdi a mim mesmo naquele exato momento. Foi como se minha natureza mudasse, como se eu deixasse por um instante de ser eu mesmo. Ele, adormecido sob meus olhos, desnudava-se enquanto seus sonhos mais longínquos se compadeciam em movimentos rítmicos. Não tive coragem de tocá-lo: simplesmente o amei, profundamente! E disse a mim mesmo que teria jamais sua libido, teria jamais sua companhia se não fosse para o deleite de uma sincera amizade. Foi-se minha natureza e todo o desejo que despertava em mim as suas curvas fálicas. Foi-se minha liberdade de tocá-lo uma vez mais, pois abri mão em nome do amor. Por agora, ainda que lute, sei que não haverá mais guerra... E.

Que venham os tédios!

Por favor, não me culpe por achar que lugar nenhum é meu nessa festa de família. Por favor, não me chame de estranho por eu querer dirigir a mim mesmo e me colocar acima do poder que os outros desejam exercer sobre mim. Não quero me importar com as opiniões externas e tampouco com as lástimas que me dizem ao confessar a mediocridade de suas vidas vazias: são todos vazios porque se colam à imagem que criaram para eles e seguem essa imagem fielmente.   Aquele o bonzinho e por isso mesmo não pode expressar sua raiva quando a criança lança seu vômito sobre ele. O outro, simpático, evita dizer à tia o quanto é feio seu vestido de chita... todos comprometidos com a imagem que lhe entregaram, amarrados em seus limites que são impostos pelos outros, sempre os outros!   Ah o poder! Sempre o poder. O que faria se não tivesse que pensar no que pensam de mim? O que faria se realmente encontrasse um lugar na festa e me colocasse sob a égide que desenham pela minha inteligência? Contin...

Sou brega sim!

E daí se eu adoro casamentos? Não é preciso ser diferente o tempo todo... Chamem-me de brega, de antigo e até mesmo de contraditório, mas isso foi uma manifestação que eu achei absolutamente válida. Pois é, ainda que alguns achem que seja ultrapassado, mas eu chorei sim e achei a cerimônia uma coisa linda, cheia de vida e com muito brilho... o noivo que me entra com a 9ª de Beethoven e de fraque cinza... a noiva que antes de sua anunciação foi aguardada sob o som de "My Way" pela orquestra da igreja que estava toda enfeitada de branco e margaridas... não, não me condenem, eu me emocionei e percebi que sentia falta de estar nisso.   O amor deve ser celebrado. É incrível quanto amamos e perdemos tempo em esconder isso... são as pressões da vida, da moral e de uma ética (?) que nos fazem acreditar. É incrível como sempre nos tolhemos de viver com intensidade essa vontade de expressar, ainda que com infantilidade, esse desejo pelo outro. Amei ver todos os convidados com lág...

Você é feliz - Parte II

Continuei a pensar sobre felicidade e ontem isso me fez lembrar de um escrito que tive o prazer de ler há tempos sobre Nietzsche. O autor colocou na boca do filósofo o seguinte questionamento: “mas o que o motiva a fazer isso? Qual a verdadeira razão de tentar com tanta veemência a solução desse problema? Não me diga que por ser parte de sua profissão, senão teria que acreditar que o faz por bondade e não acho a bondade um bom motivador... não acho que o ser humano faça qualquer coisa gratuitamente, apenas para provocar no outro uma sensação de bem estar ou alívio...” Isso me fez refletir um pouco e passei a imaginar que não é de toda falsa a colocação... . Não acho que há esmola dada sem segundo interesse, assim como não há relação humana que não permeie o egoísmo. Mas daí me questionei: onde está o egoísmo? Pois é... confundimos o amor platônico com o amor a um ideal inatingível, confundimos nossas paixões carnais com um amor sublime e a posse do outro – e conseqüentemente sua imagem...

Assim Seja!

Claire,   Antes de dormir me vi com o pensamento em você, em tudo o quanto falávamos e tudo o quando passamos em relação ao "estar sozinho". Temos muito em comum dessa distância do mundo em que vivemos. Parece que muitas vezes não conseguimos fazer parte desse cotidiano, desse comum constante que observamos sem nos deixar contaminar.   Quando eu mesmo me observo de longe, percebo que há muito por resolver à minha própria estima. Às vezes é como se eu não soubesse me amar, como se não estivesse ali, como se passasse desapercebido por onde quer que fosse... mas é apenas impressão! Por mais que achemos, não conseguimos passar desapercebidos e por onde quer que passemos deixamos nosso rastro: um pouquinho de nós a quem encontramos pelo caminho. Por mais que duvidemos, temos um ar especial que nos aproxima somente de seres também especiais e, por serem raros, sentimo-nos sozinhos a maior parte do tempo.   Não podemos pertencer ao comum, ...