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Todo dia ainda é domingo...

Sentava-se e sempre pedia a mesma coisa: bananas, mel e coca cola. Quando eu a via, e sempre eu a via, procurava não transparecer a estranheza que ia em meu peito: às vezes fingia que lia o jornal, outras vezes sorria laconicamente como a desejar "bom apetite"! Era diferente, nos domingos de manhã, observar aquela senhora idosa com coisas tão comuns a todos e que juntas apetecia seu ser. Era feliz com isso! Na última semana ela não foi. Pensei que talvez se atrasasse, fiquei um pouco mais que o costume na padaria, sentado no mesmo lugar a torcer que ela aparecesse para tornar meu dia tão comum como os outros. Mas ela não veio. Eram 10h quando tive a ousadia de perguntar ao garçom que sempre a atendia... ele disse que ela se havia mudado e fora se despedir de todos: iria morar com os filhos! Por um momento me enfureci: como seus filhos poderiam tirar de mim o prazer de observá-la aos domingos? Como tiraram de mim aquela epifania tão doce que rotineiramente habitava meus domi...

Os domingos pela manhã

  Diziam-me que nos segundos que antecedem seu último suspiro toda sua vida passa pelos seus olhos... estranho, não? Eu me senti completamente perdido por esses dias e toda minha vida, de tempo em tempo, passava diante de mim como um filme antigo, daqueles onde o mocinho sempre passa por enormes tribulações antes de salvar a mocinha do vilão... e eu era o vilão, a mocinha e o mocinho!!!   Não me salvei a mim mesmo, mas consegui chegar a tempo para evitar que o final se passasse sem que participasse dele. Estou bem agora.   Talvez eu tenha algum acesso de boa auto estima e volte a escrever com frequência, a dizer coisas interessantes e ser um ponto legal na vida de alguém. Caso eu consiga, ficarei bem e cuidarei para que minhas linhas cheguem a você, nas manhã de domingo, quando o leiteiro passar.   Beijos,   E.

Retonar e reviver...

É estranho retornar. As ruas não são as mesmas e em cada passo uma memória que insiste em permanecer. Ela nunca esteve ausente, nunca se foi, sempre esteve ali, resistente ao tempo e às modificações exteriores do corpo. As rugas e alguns fios brancos que ainda restam em mim fazem jus ao tempo, ao tempo e à distância que se fez da última vez que lá estive... é estranho retornar. Não há mais aquele ar lúdico próprio da primeira juventude. Não há mais. Como se a primeira infância, inocente, nunca houvesse passado... nunca houvesse existido e as palavras que outrora soavam tão sábias hoje não passam de jogos sem sentido. Não revejo a magia das vassouras voadoras que habitavam minha imaginação e mesmo aquela senhora idosa, cheia de força e fofocas, não mais está lá à janela como a bisbilhotar a vida alheia: é de seu velório que agora participo. Faz tempo, repito... muito tempo e retornar faz com que o tempo seja maior! Os pequenos de outrora, ocupados com seus triciclos e caminhões de brinq...

Descobrimento

Em um primeiro momento eu estranhei completamente: todas pardas, sem qualquer pudor de demonstrar as vergonhas, tão altas e tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que não me feriam a decência. Sentia-me a adentrar em nova fauna, talvez fosse um paraíso onde as naturezas se mesclavam e certamente eram tão férteis que poderiam me conduzir à liberdade. Perdia-me entre as belezas a medida em que avançava lentamente como um explorador inexperiente.   Algumas tinham em seus braços contas brilhantes e sobre os olhos tinturas que combinavam com as cores do beiço. Todas traziam cabelos distintos entre si: brilhosos e variados, curtos ou longos e, em alguns casos, amarrados com contas como as dos braços. Quem as visse com mamas tão fartas, diria serem ótimas parideiras, mães cuidadosas que ganharam desenvoltura com tantos filhos que tiveram. Sorriam de forma estranha e ainda assim não me incomodavam. Como se o fizessem naturalmente, como parte daquela sina de estarem ali nuas e averme...

O sábado, ele e o filme francês

Tudo não passou de uma experiência mútua: sem desejo evidenciado, sem culpas, sem manipulações. Aconteceu de repente, num misto de energias e sentimentos do passado, guardados, contidos e mascarados pela amizade sincera. Há tempos era apenas um garoto e Ela uma amadurecida idéia do que ele esperava. Trocavam informações de experiências, dela. Trocavam cartas e beijos virtuais que nunca aconteciam verdadeiramente! Tinham um medo, uma distância, uma exigência de silêncio que aos poucos os aproximava e os afastava. Tinham as almas sedentas e não poderiam saciar sem ultrapassar a limiar do sonho e do desejo negado. Foram os mesmos até que tiveram a oportunidade. Foram anos até que houve a chance, única, de expressarem o que negavam veementemente. Ela sabia onde estava e ele, perdido, dizia a si mesmo que continuava o mesmo garoto! Talvez culpariam os vinhos e vodkas para justificar a entrega, um filme romântico que veio do velho continente e o avanço da hora. Talvez culpassem a distância q...

Algo que eu li e gostei...

"Eu já dei risada até a barriga doer, já fiquei um dia sem comer só pra me ver mais magro, já chorei até dormir e acordei com o rosto desfigurado. Já fiz cosquinha nos meus sobrinhos só pra pararem de chorar, Eu já fiz bola de chiclete e melequei todo o rosto, já conversei com o espelho, e até já brinquei de ser bruxo. Já quis ser médico,cientista,caçador e trapezista. Já me escondi atrás da cortina e esqueci os pés pra fora. Já passei trote por telefone, já tomei banho de chuva e acabei me viciando. Já roubei beijo, Já fiz confissões antes de dormir num quarto escuro pro melhor amigo. Já confundi sentimentos, Peguei atalho errado e continuo andando pelo desconhecido. Já raspei o fundo da panela de arroz carreteiro, já me cortei fazendo a barba apressado, já chorei ouvindo música no ônibus. Já tentei esquecer algumas pessoas, mas descobri que essas são as mais dificeis de se esquecer. Já subi escondido no telhado pra tentar pegar estrelas, já subi em árvore pra roubar fruta, já ca...

Domingo de Sol

Hoje à tarde enquanto passava pela Praça Buenos Aires, vi duas velhinhas de mãos dadas que sorriam felizes a caminhar pelos jardins. Sorri de volta e questionei a mim mesmo se eram irmãs ou amigas de longa data... elas se sentaram em um banco próximo à fonte e recostaram-se uma na outra com uma intimidade única.   Tomei de meu jornal e me assentei sob as amendoeiras em uma cena típica de domingo. Tirei meu chapéu e ainda curioso olhava vez ou outra a dupla a minha frente que riam em intimidade crescente. Por um momento quis ir até elas e me ingressar na alegria contagiante, ainda que por apenas alguns instantes. Coloquei novamente meu chapéu, apoiei-me sobre a bengala e dirigi-me, recalcitrante, em direção às vozes.   Cumprimentei-as educadamente e perguntei de onde tiravam tanto gosto pela vida naquele domingo de sol. Elas tomaram a mão uma da outra e quase em uníssono responderam: da certeza de que comemoramos hoje 50 anos que estamos juntas como um casal feliz.   ...