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Hoje é dia do Perdão

O circo sempre foi um acontecimento marcante durante minha infância. Lembro-me de que meu pai sempre procurava um tempo para que fossemos todos juntos, ele e meus irmãos, ver os animais e as atrações que sempre nos deixava sem fôlego, loucos na primeira fila, imaginando como que cada um daqueles personagens conseguiam ser mais e mais interessantes.  O meu irmão do meio, Marcus, adorava se aproximar dos animais selvagens e se deliciava em silêncio, com os olhos brilhantes, quando um deles soltava um ou outro som característico. Eu, ah, eu ria com os palhaços e pensava em ser como os equilibristas que ficavam no alto sobre uma fina corda... Incrível como essa nostalgia nos envolve por completo quando permitimos. Um despertar de simplicidade, sem mácula, que aquece o peito e enche os olhos com lágrimas de gratidão. É bom ser grato e celebrar um passado que nos marcou tão bem. E o que nos tornamos, hoje, em função da alegria de ontem... e a alegria e hoje, de agora, desse m...

A Lenda de Kundú

Ele tinha pouco mais de 5 anos quando viu sua mãe ser devorada pela Grande Serpente. A tradição de seu povo indicava que a cada ano, na noite mais longa do inverno, a Grande Deusa viria para buscar um morador como sacrifício. Sabia-se que, com isso, sempre haveria fartura e prosperidade a Aldeia. Seu pai procurou educá-lo nos costumes, mas, aos 13 anos, Kundú começou a revelar sua natureza bélica, questionando as tradições e a submissão de todos aldeiantes. Ele, Kundú, inconformava-se com a idéia de que os mais antigos fossem consumidos pela Grande Deusa em troca da continuidade da raça. E ele pensava, sozinho, em uma maneira de tornar-se tão grande quanto a Deusa Serpente, enfrentá-la e vencê-la de forma a não mais submeter-se ao seu poderio. Kundú aprendeu da arte da guerra e, aos 17, intentou-se para lutar contra a Besta. Armado apenas com seu cajado, emprendeu-se sozinho em busca da Fera. Desceu ao seu covil na véspera da longa noite do inverno. Despertou a...

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Eu iniciei uma batalha com Deus, hoje. E, nessa luta, irei persistir até que Ele me abençoe. Até lá, nesse silêncio que tanto me incomoda, tentarei persistir no que será preciso ser feito.  Meu nome, antes tão claro e tão belo, mudou-se e não será revelado até que essa luta termine. Ou talvez até que eu entenda o sentido dessa luta. Até que, como Jacob, eu perceba que esse desafio, com Deus, é a busca incessante por Seu amor. Tudo é perfeito. Tudo. Não sou mais quem era ontem e, de certa forma, estou a me tornar quem devo ser amanhã. Ou depois. Ou sempre. Ou até que decida mudar novamente. Até breve, ...

Deliberadamente

É estranho amar deliberadamente. Estranho sentir falta de quando não se está presente ou a voz se torna ausente. Estranho olhar do lado e perceber que já se caminha sozinho, que já se tem força para caminhar sozinho. Que o ombro de outrora já não mais está. Esteve. Estava. Agora presta ajuda a qualquer outro que dele necessite. Que dele precise. Que ele requisite. E pensei em você, deliberadamente, durante o final de semana. Deliberadamente como o sentimento que tenho. Como a saudade doce e suave de quando descíamos a rua de casa de mãos dadas, em um ritual profano em busca do sexo barato das esquinas. Dos sexos baratos das baratas. Do sexo barato por si só, sem compromisso, sem pudor, sem qualquer outro atributo que não fosse o prazer... o prazer profano, doce e sublime, daqueles que não precisam da responsabilidade. Sei que está bem. Sinto em mim uma doce e terna paz ao lembrar seu riso leve, suave e com a malícia dos que habitam as sombras. Dos que possuem a luz. Dos que não se pr...

Saudades de Rina

Há dias que tenho pensado em Rina, minha amiga que é puta. É uma lembrança suave, de quando nos falávamos e ríamos por horas a fio. Havia uma intimidade estranha entre a gente, pois enxergávamos muito em comum onde nada seria possível de nos unir. Ela vendia o corpo, gostava de rapazes e se deitava com eles mesmo quando não os desejava. Eu, em plena adolescência, buscava mulheres mais velhas, passava horas na academia e com os livros de filosofia. Uma adolescência comum, pode-se dizer. Mas não era. Meu desejo por Sartre e Nietzsche só demonstravam minha estranheza... ela, Rina, preferia leitura de bares baratos, com cheiro de ratos e cigarros, onde se amontoavam os homens. Houve um filme que assistimos juntos. Dizia sobre amores e restos humanos. Os humanos com quem ela se deitava. Os restos de que eu lia. A união de opostos tão iguais quando incompreendidos: era o que nos unia. Hoje lembrei-me ainda mais dela. Um amigo (novo) solta seu riso como ela. Esse amigo que questiona os hom...

A fuga do peixe

Há uma pequena abertura no aquário da sala, por onde fugiu meu peixe. Embora ele fosse eminentemente cinza, seu dourado se destacava entre os móveis e a porcelana branca do armário.  Ao perceber sua ausência, tive um pequeno aperto no peito. Ele partiu. Agora minha casa está vazia, a velha cadeira de balanço onde ficava por oras a admirá-lo parece sem sentido e necessidade. Falta o cinza do peixe, o seu dourado e a certeza de que toda manhã se renovaria. Não amanheceu essa noite. Não houve uma renovação de atmosfera e as flores que ontem estavam a enfeitar minhas roupas murcharam pela ausência da luz do peixe. É como se o aperto de meu peito parasse, quando ele estivesse em mim. É como se minha vida fosse poupada, tivesse uma razão de ser ao alimentá-lo todos os dias. Abro a geladeira e não sinto a fome me visitar. Tudo gira, não reconheço minha imagem e aos poucos me desconcerto em mim. Como aquela música. Como aquela diferença entre tudo o que era comum. Meu peixe fugiu. Parte de...

"...deixai com que os mortos enterrem seus mortos!"

  É uma manhã ensolarada com gosto de primavera. Sinto uma mescla entre frio e calor enquanto, caminhando, passo pela igreja de São Francisco.  Emociono-me. Paro diante da construção. Faço uma mesura e entro, tímido, nesse templo que há tempos está presente no alto da Penha.   Percorro com os olhos por toda a nave e vejo-me sozinho. Entro em um corredor e saúdo os bancos vazios que ali estão. Paro novamente e ajoelho-me. Abaixo os olhos e uma oração sincera sai de meus lábios. Meu peito enche-se de um calor suave e tenho nada a dizer senão agradecer, sinceramente, pela força que tive até aqui.   Mais alguns minutos e algumas lágrimas cortam-me o rosto. Emociono-me. O calor torna-se mais intenso e tenho certeza de que ali, naquela epifania, estou em paz. Calo-me e continuo minha oração. Agradeço pela alegria que me invade o peito, pelas mãos marcadas, pela saúde em meus pés descalços. Agradeço, sobretudo, por poder chorar e celebrar, em meu íntimo, a transformação por...