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A História de M.

Há muito tempo, quando ainda existiam os bárbaros na região nórdica, uma família insistia em sobreviver na discrição das matas. Em um sítio distante do povoado, subsistiam com sua pequena plantação e criação de animais.   O pai e suas filhas ordenhavam as ovelhas, aravam a terra e teciam para afugentar o frio da Noruega. A mãe, por sua vez, mantinha uma conserva de alimentos e uma estufa de flores, de onde conseguia alguma renda de escambos com pequenos mercadores que passavam vez ou outra pela região.   Mas a invasão e as lutas ainda ocorriam e todos temiam que, mesmo naquela região longínqua, os bárbaros viessem a tomar-lhe o pequeno espaço.   Muitas vezes, nas noites em que o frio não os maltratava tanto, reuniam-se diante da pequena lareira para falar sobre a Magia e a origem de seu povo. E ali, muitas fantasias passam pela mente de M., a mais jovem das filhas, que vivenciava as palavras como se as tivesse vivido todas elas. Das lendas dos magos e...

Balthazar - Fiend

Ontem Ele voltou. Há dias rondava-me com sua capa, envolvendo-me em sua energia e declarando sua presença. Há dias, enquanto eu dormia, velava-me o sono ao lado de meu Anjo, dizendo-me palavras duras e seguras para que eu seguisse meu caminho. O meu caminho. O caminho que traçado foi, por mim e para mim, antes mesmo que me desse conta de quem sou. E ontem, Ele voltou. Manifesto. Vivo e presente. Alimentando-se de novos medos alheios e de fumaças de cigarros sem pudor. De mentiras, de promessas quebradas e fugas escondidas. De vergonhas reveladas, desejos mal vividos e tormentos advindos da mente doente. Ele, vivo e presente, tomava dos outros o que mais os atormentava, alimentava-se das dores e rancores enquanto soltava palavras negras e divertia-se com seus olhos sem luz. Eles estavam mortos. Todos mortos. Caminhavam sem vida, falavam sem vida, agiam sem vida. E Ele voltou. Para se alimentar dos mortos. Para reinar sobre os mortos. Para se fortalecer sobre os mortos. Ele voltou. Brado...

Fiend

  Às vezes um pouco daquilo que você esconde tão profundamente, pode lhe trazer um prazer intenso. Ainda que por um tempo, somente, é um prazer que vale a pena, que faz rir desnecessariamente. Prazer. É um prazer de suor e taquicardia, de medo, de obscuridade. Um prazer que faz diferença, pois caminha entre os vivos e vive entre os mortos, aqueles que se mortificam a si mesmo para sentir profundamente em espírito. É um prazer de pecado, doce e ácido, que corrói quando não canalizado, controlado e parte essencial do Ser. Prazer... A fumaça entra pelas narinas com parcas palavras desconexas. Uma fumaça que intoxica, que energiza e em escuridão cria uma atmosfera lúgubre, lúbrica, viva. Um olhar perdido dizendo que o corpo age involuntariamente, mas que o corpo age. Que o corpo obedece a uma Força maior e natimorta. Uma Força natural, capaz de transformar e realizar. Uma Força que pede alimento, que pede sedução e que se seduz por si mesma. Uma atração fatal, sem coerência, sem sentid...

Uma mensagem de hoje - Por D.

Irmãos,   Ainda se perde muito tempo com o que não importa. Muitas questões não precisam de uma resposta racional, são entendimentos que se ‘sentem’ profundamente e que fazem a diferença no Caminho.  O entendimento tem a ver com a compreensão de um Todo que é maior do que simples incorporações estereotipadas, do que palavras sobre problemas diários ou de sentimentos confusos. O entendimento tem a ver com o domínio do Vazio e do encontro com o Todo, através da manifestação consciente de sua Essência. Uma Essência que se sobrepõe o Vazio (Ego) para Ser (Essência).   Uma doença, um desemprego ou um coração partido são condimentos palatáveis para compreensão do Vazio e manifestação do Todo. A maioria dos problemas serve apenas para que uma condição divina se manifeste através da condição humana. As pequenas provas por que todos passam, diariamente, são meios para conduzi-los ao engrandecimento, ao crescimento, ao aprendizado do que é Divino (do Todo), preenchendo o Vaz...

O Não-Ser e o Nada

  Hoje o dia está mais claro.   Há um cheiro estranho que me faz pensar no Nada.    Como se houvesse um novo tempo. Um tempo onde o Nada pode ser compreendido. Onde o novo Abismo nos leva a uma queda sem fim, em direção a um novo que ainda não consigo definir.   Por que aqui estamos? Por que aqui vivemos?   Musifin segue ao meu lado e suspira sons inaudíveis em meu ouvido. Não consigo me ligar a ele e não sei como compreender essa falta de conformismo que me abarca o Ser. O Nada me provoca e sinto-me com não pertencimento. Eu não pertenço ao Nada.   Há um novo ânimo, sinto, sem que eu compreenda o que isso tudo significa. Sem que eu compreenda o ânimo que se imiscui com esse pensar constante na falta de sentido. O pensar mental. Um pensar que questiona a tudo e a todos sem que haja uma resposta a tudo. Há algo além do Nada. Há algo que suprime o entendimento e nos move animadamente. E nos faz sentir. E me faz sentir. E me faz ser.   Ele, Musifin, ...

Hoje é dia do Perdão

O circo sempre foi um acontecimento marcante durante minha infância. Lembro-me de que meu pai sempre procurava um tempo para que fossemos todos juntos, ele e meus irmãos, ver os animais e as atrações que sempre nos deixava sem fôlego, loucos na primeira fila, imaginando como que cada um daqueles personagens conseguiam ser mais e mais interessantes.  O meu irmão do meio, Marcus, adorava se aproximar dos animais selvagens e se deliciava em silêncio, com os olhos brilhantes, quando um deles soltava um ou outro som característico. Eu, ah, eu ria com os palhaços e pensava em ser como os equilibristas que ficavam no alto sobre uma fina corda... Incrível como essa nostalgia nos envolve por completo quando permitimos. Um despertar de simplicidade, sem mácula, que aquece o peito e enche os olhos com lágrimas de gratidão. É bom ser grato e celebrar um passado que nos marcou tão bem. E o que nos tornamos, hoje, em função da alegria de ontem... e a alegria e hoje, de agora, desse m...

A Lenda de Kundú

Ele tinha pouco mais de 5 anos quando viu sua mãe ser devorada pela Grande Serpente. A tradição de seu povo indicava que a cada ano, na noite mais longa do inverno, a Grande Deusa viria para buscar um morador como sacrifício. Sabia-se que, com isso, sempre haveria fartura e prosperidade a Aldeia. Seu pai procurou educá-lo nos costumes, mas, aos 13 anos, Kundú começou a revelar sua natureza bélica, questionando as tradições e a submissão de todos aldeiantes. Ele, Kundú, inconformava-se com a idéia de que os mais antigos fossem consumidos pela Grande Deusa em troca da continuidade da raça. E ele pensava, sozinho, em uma maneira de tornar-se tão grande quanto a Deusa Serpente, enfrentá-la e vencê-la de forma a não mais submeter-se ao seu poderio. Kundú aprendeu da arte da guerra e, aos 17, intentou-se para lutar contra a Besta. Armado apenas com seu cajado, emprendeu-se sozinho em busca da Fera. Desceu ao seu covil na véspera da longa noite do inverno. Despertou a...