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Ser por inteiro

Eu acredito que a gente se define pelas amizades que a gente tem, pelas palavras que a gente expressa, pelas coisas que a gente faz. Não acho que seja possível alguém fazer algo estúpido se estupidez não for algo que ele possui em si mesmo. É como se fosse possível externar somente o que temos por dentro, sem exceção. Se faço algo com bastante atenção e procuro sempre fazer o melhor, é porque tenho isso como valor em mim mesmo. Como se qualquer coisa que eu fosse fazer, ainda que fosse um simples pão com manteiga, eu fizesse com excelência, desse o meu melhor... porque a excelência é um valor para mim. Seguindo esse raciocínio, eu acredito que tudo que acontece com a gente tem relação direta com os valores que a gente tem. Explico: você não irá receber nada diferente do que você é. Se você semeia excelência por onde passa, por que irá receber menos que excelência de volta? Se vamos procurar sempre fazer nosso melhor, porque não será o melhor que vamos receber, ainda que seja na ...

O Louco de Botas

Chegou de mansinho, pousado no dorso de uma pomba. Abriu sua bolsa e tirou uma toalha branca, uma boneca azul e um carrinho lilás. Pousou tudo sobre a grama cinza e riu do que tinha feito. Alegrou-se intimamente e foi buscar água na fonte. A fonte que ele sabia uma réplica daquela vista na Itália... uma vez mais seu sorriso íntimo demonstrou uma alegria que lhe ia ao interior. Conhecia Roma e, muitas vezes, foi à luz de candelabro que se deitou nas gramas de Amsterdã ao observar o pôr do sol. Conhecia o Velho Mundo e a América tão celebrada. Revia em sua memória o primeiro cair de neve ainda com o brilho do fio do outono. Um fio único, como brincadeiras boreais da natureza para lhe encher os sentidos. E ele poderia se curvar para misturar-se à natureza... ela poderia engolir sua preguiça que estava firmemente fixada! Voltou para seu canto e deu de beber para boneca. Dispensou a pomba, não voaria mais por aquela tarde. Tirou suas botas, espreguiçou-se lentamente e chamou pelo seu cão....

A História de M.

Há muito tempo, quando ainda existiam os bárbaros na região nórdica, uma família insistia em sobreviver na discrição das matas. Em um sítio distante do povoado, subsistiam com sua pequena plantação e criação de animais.   O pai e suas filhas ordenhavam as ovelhas, aravam a terra e teciam para afugentar o frio da Noruega. A mãe, por sua vez, mantinha uma conserva de alimentos e uma estufa de flores, de onde conseguia alguma renda de escambos com pequenos mercadores que passavam vez ou outra pela região.   Mas a invasão e as lutas ainda ocorriam e todos temiam que, mesmo naquela região longínqua, os bárbaros viessem a tomar-lhe o pequeno espaço.   Muitas vezes, nas noites em que o frio não os maltratava tanto, reuniam-se diante da pequena lareira para falar sobre a Magia e a origem de seu povo. E ali, muitas fantasias passam pela mente de M., a mais jovem das filhas, que vivenciava as palavras como se as tivesse vivido todas elas. Das lendas dos magos e...

Balthazar - Fiend

Ontem Ele voltou. Há dias rondava-me com sua capa, envolvendo-me em sua energia e declarando sua presença. Há dias, enquanto eu dormia, velava-me o sono ao lado de meu Anjo, dizendo-me palavras duras e seguras para que eu seguisse meu caminho. O meu caminho. O caminho que traçado foi, por mim e para mim, antes mesmo que me desse conta de quem sou. E ontem, Ele voltou. Manifesto. Vivo e presente. Alimentando-se de novos medos alheios e de fumaças de cigarros sem pudor. De mentiras, de promessas quebradas e fugas escondidas. De vergonhas reveladas, desejos mal vividos e tormentos advindos da mente doente. Ele, vivo e presente, tomava dos outros o que mais os atormentava, alimentava-se das dores e rancores enquanto soltava palavras negras e divertia-se com seus olhos sem luz. Eles estavam mortos. Todos mortos. Caminhavam sem vida, falavam sem vida, agiam sem vida. E Ele voltou. Para se alimentar dos mortos. Para reinar sobre os mortos. Para se fortalecer sobre os mortos. Ele voltou. Brado...

Fiend

  Às vezes um pouco daquilo que você esconde tão profundamente, pode lhe trazer um prazer intenso. Ainda que por um tempo, somente, é um prazer que vale a pena, que faz rir desnecessariamente. Prazer. É um prazer de suor e taquicardia, de medo, de obscuridade. Um prazer que faz diferença, pois caminha entre os vivos e vive entre os mortos, aqueles que se mortificam a si mesmo para sentir profundamente em espírito. É um prazer de pecado, doce e ácido, que corrói quando não canalizado, controlado e parte essencial do Ser. Prazer... A fumaça entra pelas narinas com parcas palavras desconexas. Uma fumaça que intoxica, que energiza e em escuridão cria uma atmosfera lúgubre, lúbrica, viva. Um olhar perdido dizendo que o corpo age involuntariamente, mas que o corpo age. Que o corpo obedece a uma Força maior e natimorta. Uma Força natural, capaz de transformar e realizar. Uma Força que pede alimento, que pede sedução e que se seduz por si mesma. Uma atração fatal, sem coerência, sem sentid...

Uma mensagem de hoje - Por D.

Irmãos,   Ainda se perde muito tempo com o que não importa. Muitas questões não precisam de uma resposta racional, são entendimentos que se ‘sentem’ profundamente e que fazem a diferença no Caminho.  O entendimento tem a ver com a compreensão de um Todo que é maior do que simples incorporações estereotipadas, do que palavras sobre problemas diários ou de sentimentos confusos. O entendimento tem a ver com o domínio do Vazio e do encontro com o Todo, através da manifestação consciente de sua Essência. Uma Essência que se sobrepõe o Vazio (Ego) para Ser (Essência).   Uma doença, um desemprego ou um coração partido são condimentos palatáveis para compreensão do Vazio e manifestação do Todo. A maioria dos problemas serve apenas para que uma condição divina se manifeste através da condição humana. As pequenas provas por que todos passam, diariamente, são meios para conduzi-los ao engrandecimento, ao crescimento, ao aprendizado do que é Divino (do Todo), preenchendo o Vaz...

O Não-Ser e o Nada

  Hoje o dia está mais claro.   Há um cheiro estranho que me faz pensar no Nada.    Como se houvesse um novo tempo. Um tempo onde o Nada pode ser compreendido. Onde o novo Abismo nos leva a uma queda sem fim, em direção a um novo que ainda não consigo definir.   Por que aqui estamos? Por que aqui vivemos?   Musifin segue ao meu lado e suspira sons inaudíveis em meu ouvido. Não consigo me ligar a ele e não sei como compreender essa falta de conformismo que me abarca o Ser. O Nada me provoca e sinto-me com não pertencimento. Eu não pertenço ao Nada.   Há um novo ânimo, sinto, sem que eu compreenda o que isso tudo significa. Sem que eu compreenda o ânimo que se imiscui com esse pensar constante na falta de sentido. O pensar mental. Um pensar que questiona a tudo e a todos sem que haja uma resposta a tudo. Há algo além do Nada. Há algo que suprime o entendimento e nos move animadamente. E nos faz sentir. E me faz sentir. E me faz ser.   Ele, Musifin, ...