Fausto

...e ainda que eu quisesse, não lhe poderia responder com sinceridade. Naquele momento eu me sentia a própria dor, eu me sentia a própria angústia. A intensidade com que vivia me fez pensar em Fausto, em sua exacerbação de sentimentos e sua obsessão por construir. Não que eu tivesse em mim o Diabo para dar-me o que pedi, mas o percebia na sua mais nobre clareza, em cada centímetro de meu egoísmo, de minha vaidade, de meu orgulho.

 

Eu era o Diabo em mim e poderia amar-me. Doce ou amargo, tinha ambos sem julgamentos que pudessem corromper a minha essência, a minha unidade, o meu ser. Quis remover a máscara e já não faria diferença. Eu não era aquela máscara, mas aquela máscara se tornou parte de mim. Sim, eu a havia construído e ela nada mais foi do que reflexo do que tinha em meu interior.

 

E ele se calou com meu silêncio, levantou-se e fez menção de sair. Impedi-o por um momento. Eu o queria por perto, sabia disso. Disse-lhe que ficasse, pois ainda que não o quisesse como amigo, o teria como amante. Menti. Nossas frenéticas fricções eram absolutas, cálidas e perfeitas para que perdurasse mais que um contato, mas não queria a sua alma. Não haveríamos de dividir qualquer alma e eu não lhe poderia responder com sinceridade.

 

Naquela dor sublime e angustiante, abracei-o e voltamos a nos deitar.

 

E.

Comentários

Mila disse…
Que bom te encontrar por aqui... Por favor,leia meu pequenino Blog. Ainda não tem nada de interessante,mas veja lá.Foi eu que escrevi....
Amo ler seu Blog...


Beijos!


Camila E.de A.

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