A Lenda de Kundú
Ele tinha pouco mais de 5 anos quando viu sua mãe ser devorada pela Grande Serpente. A tradição de seu povo indicava que a cada ano, na noite mais longa do inverno, a Grande Deusa viria para buscar um morador como sacrifício. Sabia-se que, com isso, sempre haveria fartura e prosperidade a Aldeia.
Seu pai procurou educá-lo nos costumes, mas, aos 13 anos, Kundú começou a revelar sua natureza bélica, questionando as tradições e a submissão de todos aldeiantes. Ele, Kundú, inconformava-se com a idéia de que os mais antigos fossem consumidos pela Grande Deusa em troca da continuidade da raça. E ele pensava, sozinho, em uma maneira de tornar-se tão grande quanto a Deusa Serpente, enfrentá-la e vencê-la de forma a não mais submeter-se ao seu poderio.
Kundú aprendeu da arte da guerra e, aos 17, intentou-se para lutar contra a Besta. Armado apenas com seu cajado, emprendeu-se sozinho em busca da Fera. Desceu ao seu covil na véspera da longa noite do inverno. Despertou a Besta que riu descaradamente de tamanho atrevimento. A Besta enviou todas suas crias para atacá-lo e Kundú, tomado de grande força, venceu uma a uma daquelas serpentes e as devorou como se fossem nectar ao seu paladar.
A Grande Deusa enfureceu-se e armou-se para o bote, mas Kundu adquiriu tamanha força com o veneno das serpentes que ao morder a Besta essa tombou desfalecida. Ele abriu o ventre da Serpente, arrancou seu coração e se alimentou dele com prazer.
Ele tornou-se maior que a Grande Deusa e passou a comandar todas as bestas e deuses que eram submissos a Grande Deusa. Seu ar tornou-se sombrio e passou a alimentar-se de serpentes, fortalecendo-se com o veneno de cada uma delas.
Kundú tornou-se um grande rei, capaz de vencer qualquer inimigo que se aproximasse da aldeia. Ele governava com sapiência e, aos poucos, foi capaz de conquistar todos os reinos da Ilha.
Hoje tornou-se uma lenda. Mas ainda há os que o cultuam como aquele que venceu as serpentes e tornou-se maior que elas...
Comentários
Gostei do conto. Além de ser muito bem escrito, se assemelha às histórias folclóricas que eu ouvia da minha avó quando eu era criança. Só não dou uma nota maior por um gosto meramente pessoal – sou chegado em um estilo mais pessimista e, de certa forma, irônico. Eu já estava imaginando um final do tipo:
Kundu, somado ao espírito da Besta, se tornaria o novo deus que condenaria sua própria tribo da mesma forma que a Deusa Serpente fez,
ou Kundu seria para o reina das serpentes o mesmo que a Besta foi para sua tribo. De qualquer forma, eu gostei muito.
P.S.: Muito obrigado pelos elogios sobre meu texto, abraço.